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Introdução
A melanose neurocutânea (MNC) foi caracterizada e descrita
inicialmente por Rokitanski()
em 1861, mas somente em 1948 este termo foi empregado por Van Bogaert().
Trata-se de uma entidade caracterizada pelos seguintes critérios
propostos por Fox(): (1) presença de grandes ou múltiplos
nevos congênitos (pelo menos um deles deve ter tamanho superior
a 20cm em diâmetro) em combinação com tumores
malignos ou benignos do sistema nervoso central (SNC); (2) ausência
de melanoma maligno em pele; (3) ausência de melanoma maligno
em outros orgãos que não sejam o SNC. A herança
genética é esporádica e não-comprovada,
não havendo prevalência quanto a raça ou sexo().
Foram relatados aproximadamente 100 casos até o presente
momento, sendo portanto uma entidade bastante rara. Os autores apresentam
um dos primeiros casos indexados na literatura latino-americana
no Lilacs e Medline com estudo por necrópsia de MNC.
Relato do Caso
Paciente masculino, 1 ano, foi encaminhado ao Serviço de
Emergência do HC-UFPR, apresentando-se em coma profundo. A
acompanhante relata que há um mês o paciente teve episódios
de vômitos em jato e irritabilidade, e uma semana antes da
hospitalização apresentou vários episódios
de crise convulsiva durante dois dias, evoluindo para coma.
Ao exame foi constatada macrocefalia, sinais de hipertensão
intracraniana, hipotonia generalizada, hiperreflexia e atrofia de
membro inferior esquerdo, nevos cutâneos confluentes na região
abdominal anterior, estendendo-se aos membros inferiores, de coloração
marrom escuro, aspecto heterogêneo, piloso e bordos irregulares.
Exame eletroencefalográfico demonstrou padrão isoelétrico.
Tomografia axial computadorizada (TAC) evidenciou acentuado edema
cerebral difuso, com alteração congênita da
forma dos cornos anteriores dos ventrículos laterais; um
segundo exame revelou hipodensidade da substância cinzenta
dos hemisférios cerebrais e cerebelo, aumento da densidade
do tronco encefálico e das meninges bem como deformidades
e dilatação parcial dos ventrículos laterais.
O paciente evoluiu com hemorragias digestivas e crises convulsivas
resistentes à terapêutica convencional e, posteriormente,
óbito.
O estudo de necrópsia demonstrou nevos melânicos cutâneos
disseminados (Figura 1), melanose maligna leptomeníngea difusa
em tronco cerebral, cerebelo, medula espinhal e lobo temporal, com
infiltração parenquimatosa cerebral focal e acometimento
dos espaços de Virchow-Robin (Figura 2). Outros achados anátomo-patológicos
incluíam hidrocefalia e encefalopatia isquêmica difusa.
Não foram constatadas anormalidaddes em outras vísceras.
Figura 1a - Grande nevo melanocítico (N) acometendo abdome
e extendendo-se a membro inferior esquerdo.
Figura 1b - Detalhe evidenciando o aspecto heterogêneo e pilocítico
dos nevos
Figura 2a - Fotomicrografia ilustrando células melanocíticas,
de aspecto maligno, causando espessamento das leptomeninges (L).
(HE, x100)
Figura 2b - Detalhe das células melanocíticas, infiltrando
espaços perivasculares (*). Tecido encefálico preservado
(E). (HE, x400)
Discussão
A melanose neurocutânea é uma síndrome congênita
rara com critérios diagnósticos definidos por Fox().
A patogênese provável da MNC possivelmente decorre
de um erro congênito na formação da crista neural
durante o desenvolvimento embriológico, onde as células
precursoras dos melanócitos cutâneos e leptomeníngeos,
conhecidos por melanoblastos, são formadas. Quando a diferenciação
ou migração destas células está prejudicada,
pode haver desenvolvimento de melanose leptomeníngea ou de
nevos pigmentados grandes ou múltiplos, podendo ainda haver
desenvolvimento dessas duas formas concomitantemente. Esses nevos
pigmentados tendem a seguir a distribuição dos dermátomos
e a aumentarem de tamanho com o crescimento do paciente. Outras
anormalidades congênitas, como mal-formação
de Dandy-Walker(), síndrome de Sturge-Weber e hipoplasia vermiana
inferior() têm sido relatadas em associação com
MNC.
O quadro clínico pode ser assintomático, mas usualmente
sintomas e sinais associados a hipertensão intracraneana
como hidrocefalia (66%), irritabilidade, letargia, vômitos
recorrentes e convulsões surgem antes dos 2 anos de vida(,).
Complicações como hemorragia subdural, siringomielia,
aracnoidite espinhal e hemorragia intracraniana, distúrbios
psiquiátricos, lesões intracranianas e compressões
da medula espinhal também foram relatados(,,). Alguns pacientes,
como no presente caso, apresentam hidrocefalia intratável,
evoluindo precocemente para o óbito.
Apesar da confirmação do diagnóstico poder
ser feita apenas por necrópsia, o diagnóstico presuntivo
pode ser estabelecido por estudos de ressonância nuclear magnética,
TAC ou através de identificação de células
melanoblásticas imaturas no líquido cefalorraquidiano(,,).
Achados neuropatológicos demonstram leptomeninges difusamente
espessadas e pigmentadas, na base do cérebro e tronco encefálico,
acometendo particularmente a superfície ventral da ponte
e bulbo, cerebelo, medula espinhal cervical e lombossacra. O achado
de melanose em lobo temporal, como no presente caso, é incomum.
As células contendo melanina podem ainda ser encontradas
no córtex ou substância cinzenta profunda do cérebro
e cerebelo, como o núcleo denteado. A dura-máter é
tipicamente poupada, devido ao fato de sua origem embriológica
ser diferente das estruturas afetadas(). Infiltração
dos espaços de Virchow-Robin, como demonstrado neste relato,
é característica. O exame citológico das células
encontradas no líquor revela células pigmentadas com
núcleos hipercromáticos e projeções
citoplasmáticas. As células melanocíticas encontradas
nos nevos são similares àquelas encontradas nas leptomeninges.
O tratamento de pacientes com MNC que apresentem sinais neurológicos
é limitado, sendo que nenhum esquema terapêutico demonstrou
aumento da sobrevida ou alívio dos sintomas. O tratamento
cirúrgico por derivações ou excisões
tumorais é apenas paliativo. O papel da radioterapia e quimioterapia
permanece indefinido. Do ponto de vista profilático, a malignidade
encontrada em nevos cutâneos pode ser reduzida consideravelmente
ou eliminada por cirurgia precoce().
O prognóstico a longo prazo é ainda desconhecido,
entretanto a maioria dos pacientes acometidos tem suas funções
deterioradas rapidamente, mesmo em vigência de quimioterapia
vigorosa(). O desenvolvimento de melanoma maligno e nevos com características
malignas têm seu pico durante a infância, ambos cursando
com prognóstico reservado.
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