Uma experiência terapêutica no manejo
da doença da urina do xarope do bordo

Laura B. Jardim, Carlos S. Martins, Ricardo F. Pires,
Maria Teresa Sanseverino, Lília Refosco, Rita de Cássia Vieira,
Eliana de A. Trotta, Carmen Vargas, Eurico Camargo Neto, Roberto Giugliani

J. pediatr. (Rio J.) 1995;71(5):279-284

Introdução

A Doença da Urina do Xarope de Bordo (MSUD, do inglês “maple syrup urine disease”) é um distúrbio metabólico de início pós-natal, caracterizado pelo acúmulo, nos líquidos corporais, dos 3 aminoácidos de cadeia ramificada (AACR): valina, isoleucina e leucina. Além de este acúmulo ser tóxico ao sistema nervoso central, ele também produz um odor urinário muito peculiar, que dá nome à doença. Por sua vez, o excesso dos AACR resulta de uma deficiente descarboxilação oxidativa dos ceto-ácidos de cadeia ramificada (CACR) correspondentes àqueles aminoácidos. A metabolização dos CACR dá-se dentro das mitocôndrias e é catalizada por um complexo multienzimático chamado de “desidrogenase dos ceto-ácidos de cadeia ramificada” (BCKD, do inglês "branched chain keto acid dehydrogenase") (ver Figura 1). Sabe-se que todos os constituintes deste complexo multienzimático são codificados por genes nucleares, e as mutações que os afetam são herdadas de modo autossômico recessivo. Sabe-se também que este complexo BCKD é regulado por suas próprias enzimas quinase e fosfatase, e que a primeira delas é inibida pela tiamina pirofosfato. Desse modo, esse cofator, em quantidades saturadoras, pode estabilizar o BCKD e aumentar a sua capacidade catalítica (1).

Figura 1 -
Rota da metabolização de aminoácidos de cadeia ramificada. Na doença da urina do xarope de bordo, o bloqueio pode se dar em qualquer lugar dentro do complexo multienzimático BCKD (branched chain keto-acid, dehydrogenase): E1, E2 ou E3. AACR: aminoácidos de cadeia ramificada; CACR: cetoácidos de cadeia ramificada. Adaptada de Danner e Elsas, 1989.

Como a MSUD é, na verdade, um distúrbio decorrente de diferentes bloqueios metabólicos dentro de um complexo enzimático (o BCKD), as manifestações clínicas da mesma são bastante variadas e compreendem pelo menos 7 subtipos (ver Tabela 1) (1,2).

Tabela 1 -
Classificação clínica da doença da urina do xarope de bordo


Na forma clássica da MSUD, o bebê permanece bem até os 4 a 7 dias de vida, quando então os efeitos do acúmulo dos AACR e dos CACR começam a se fazer notar: inquietude e rejeição ao aleitamento, seguidos de cetoacidose com apnéia, coma e morte neonatal, ou de letargia e cetoacidose recorrentes. Se o paciente não tratado sobreviver às primeiras semanas de vida, sequelas neurológicas serão a regra: severo retardo de desenvolvimento psicomotor, posturas distônicas, oftalmoplegia e convulsões (1,3).


A triagem neonatal, possibilitando o diagnóstico e o tratamento antes das 2 semanas de vida, tem melhorado em muito o prognóstico destas crianças. O tratamento consiste na rápida redução das concentrações séricas dos AACR, particularmente a leucina, e na manutenção destes aminoácidos dentro de janelas terapêuticas, que permitam o desenvolvimento e o crescimento normais. Estes objetivos são alcançados com a restrição dietética dos AACR, através da administração de fórmulas protéicas artificiais livres dos mesmos, e com o uso auxiliar da tiamina (1,4,5).


Entretanto, como estes aminoácidos têm uma depuração renal bastante lenta, às vezes a suspensão de sua ingesta não é suficiente para o rápido controle sérico dos AACR. Nestes casos, a instalação de uma diálise peritoneal, de uma hemofiltração ou de uma glico-insulinoterapia, como medida anabolizante, são fundamentais para o sucesso terapêutico (1,3,6,7).


O diagnóstico pré-natal é possível de ser relizado através da medida da descarboxilação da [1-C14]Leucina em amostra de vilosidade coriônica ou em células do líquido amniótico (8).


Como a freqüência desta desordem pode ser, ao menos no nosso meio, maior do que a literatura comenta - 1/84.156, num levantamento realizado em recém-nascidos brasileiros, versus a freqüência européia e norte-americana de 1/275.0001.9 -, e como o Hospital de Clínicas de Porto Alegre é um centro de referência para o tratamento das aminoacidopatias em geral, nós a seguir relataremos nossa primeira experiência terapêutica da MSUD. Nossos objetivos foram o de tornar disponível esta experiência a todos os colegas pediatras e o de enfatizar a grande importância que a cooperação interdisciplinar teve para o sucesso que era possível se esperar deste episódio.

Relato do Caso

L.K.M., masculino, D. N. 24/11/1991, procedente do Paraná, veio encaminhado a este Hospital aos 5 meses com história de letargia e de irritabilidade desde os primeiros dias de vida, acompanhados de ausência de desenvolvimento psicomotor, de 5 episódios de broncopneumonia e de alterações eletroencefalográficas que motivaram a administração de fenobarbital. Aos 2 meses de vida, foram realizadas cromatografias de aminoácidos urinários e sanguíneos, nas quais foram constatados excessivos níveis de leucina, de isoleucina e de valina (os AACR).

O bebê era filho de pais não consanguíneos de origem ucraniana e alemã e tinha um irmão e uma irmã saudáveis.

Ao internar, ainda sem tratamento, aos 5 meses, o paciente apresentava opistótono contínuo, ausência de contato visual e períodos de apnéia que foram aumentando de freqüência. O seu peso era de 5.600 g e seu comprimento era de 62 cm, denotando desnutrição aguda, estágio 1 de Waterlow10. Estava gemente e teve o primeiro episódio de crise convulsiva tônico-clônica generalizada.

Imediatamente antes da instituição de uma dieta hipoprotéica (1g/kg/dia) e hipercalórica (130 Cal/kg/dia), associada à administração de tiamina*, coletamos uma amostra de plasma para a quantificação dos aminoácidos através da técnica de cromatografia líquida de alto desempenho (“high performance liquid chromatography”, ou HPLC).

Os resultados obtidos no primeiro dia, na vigência de uma dieta livre, foram de valina: 300,8 micromoles/L (normal até 161), isoleucina: 262,8 micromoles/L (normal até 39) e leucina: 1956,3 micromoles/L (normal até 77) (ver Tabela 2).

Tabela 2 -
Fluxogramas dos controles plasmáticos dos AACR, associados às medidas terapêuticas simultâneas


Esses níveis foram virtualmente diagnósticos para MSUD, mas também nos obrigaram a tomar medidas urgentes de controle sérico dos AACR, em especial da leucina. A fórmula alimentar artificial, livre dos AACR só seria obtida em alguns dias, e a criança passara a apresentar apnéias repetidas e ominosas. Mesmo que fosse iniciada imediatamente, a dieta específica não seria capaz de reduzir de forma rápida os níveis de valina, de leucina e de isoleucina até as concentrações aceitas para um tratamento de manutenção (ver Tabela 2).


Assim, o bebê foi levado à CTI pediátrica, onde realizou-se administração parenteral, durante 21 horas, de insulina associada a glicose em quantidade suficiente para manter a glicemia normal. Nosso intuito era o de promover um intenso anabolismo, com a captura celular desses aminoácidos. A eficácia dessa medida pode ser evidenciada através dos níveis plasmáticos dos AACR obtidos algumas horas após a suspensão da glico-insulinoterapia: as concentrações da valina e da isoleucina tinham sido reduzidas para aquelas consideradas normais e até menores do que os limites terapêuticos. A leucina plasmática havia praticamente atingido os níveis de controle (ver Tabela 2). A leucina tem uma importância especial, pois parece ser o metabólito mais tóxico que se acumula nesta doença. Assim, de 1.956,3 micromoles/L iniciais, do dia 1, a leucina foi reduzida para 275,3 micromoles/L, no dia 3 (para uma janela terapêutica de 80 a 200 micromoles/L, durante a terapêutica de manutenção), tendo isso ocorrido ainda antes da administração da fórmula alimentar especial.

A partir do terceiro dia da internação, o paciente começou a apresentar sinais de melhora clínica, uma vez que a postura em opistótono desapareceu e as apnéias não mais ocorreram. O paciente tornara-se alerta durante a maior parte do dia, voltando a ter contato visual com sua mãe. Uma tomografia cerebral computadorizada realizada na ocasião demonstrou atrofia cerebral difusa, sem qualquer evidência de edema na fossa posterior.

Quatro dias após a glico-insulinoterapia, obtivemos a fórmula artificial livre dos AACR (Analog MSUD, doado pela Ross Laboratories, Ohio, USA) usada como única alimentação do bebê nos 16 dias subseqüentes. Com um regime de 100 g deste derivado de aminoácidos por dia, em mamadeiras, administrávamos o equivalente a 151 Cal/kg/dia e a 2,3 g de equivalente protêico/kg/dia (a dieta era, em outras palavras, hipercalórica, pois o bebê internara com baixo peso).

Sabe-se que os AACR são essenciais para o crescimento do bebê, e que sua ingesta não deve ser totalmente restringida1. Desse modo, no planejamento nutricional desta criança, houve a prescrição de:

1) uma quantidade limitada de proteína natural, capaz de oferecer as quantidades necessárias de valina, isoleucina e leucina - aproximadamente 1,5 g/ kg/dia;

2) complemento protêico livre destes AACR, para que as necessidades nutricionais fossem preenchidas - aproximadamente 100 g de Analog MSUD;

3) ingesta de outros alimentos energéticos, para permitir o crescimento e, simultaneamente, impedir o catabolismo - 50-55% de açúcares e 30-35% de lipídios/dia;

4) fluidos necessários.

Infelizmente, o Analog MSUD não é produzido no Brasil. Em função de dificuldades financeiras, os pais foram obrigados a interromper o tratamento específico por 3 meses, durante os quais mantivemos a criança com a dieta hipoprotêica e hipercalórica original, na qual o conteúdo de leucina era de 600 mg/dia. Os efeitos dessa suspensão podem ser observados na Tabela 2. Três meses depois, foi possível recomeçar o tratamento, que desde então sofreu uma série de irregularidades. Por fim, o paciente passou a retornar para as avaliações ambulatoriais após longos intervalos, em função da distância entre nosso hospital e sua cidade de origem.

Atualmente, o paciente tem 2 anos e está apenas se sentando sem apoio.

Para documentação do bloqueio metabólico específico, uma biópsia de pele foi coletada, a partir da qual obtiveram-se fibroblastos cultivados. Nessas células, foi medida a descarboxilação da [1-C14]Leucina, sendo que o resultado obtido foi de 0,2 pmol/3h/10 Ug de proteína. Os controles simultâneos, normais (n=3) foram de 91, 100 e 129 pmol/3h/10 Ug de proteína. A descarboxilação da leucina foi, portanto, extremamente deficiente, o que foi consistente com o diagnóstico de MSUD.

Discussão

O prognóstico dos portadores da MSUD tem mudado nitidamente nos últimos 10 anos, no Primeiro Mundo, em decorrência do aperfeiçoamento dos programas de triagem neonatal, do diagnóstico e do manejo terapêutico dessa doença (1,5,11,12,13). Danner e Elsas (1989), por exemplo, compararam seus casos diagnosticados até 1980 com os diagnosticados a partir desse ano e demonstraram que de lá para cá não só não houve mortes entre os 10 últimos casos por eles tratados, como também o QI alcançado foi superior a 90 pontos em 7 dos 10 pacientes. Todos estes 10 pacientes relatados a partir de 1980, entretanto, haviam sido diagnosticados e tratados com menos de 30 dias de vida.

À luz do relativo otimismo apontado pela literatura, podemos ponderar que o prognóstico dos portadores da MSUD depende, na verdade, de dois fatores principais:

- da precocidade com que é feito o diagnóstico;

- da eficácia com que é alcançado o controle bioquímico, a partir da terapêutica nutricional e medicamentosa.

O primeiro desses fatores reflete a disponibilidade da triagem efetivamente neonatal para todos os recém-nascidos de uma população, seguida da recuperação rápida dos casos positivos e de uma rápida decisão diagnóstica. O caso aqui apresentado é exemplar do que não deveria acontecer. Apesar de o bebê ter nascido num dos poucos estados brasileiros onde o screening neonatal é oferecido a todos os recém-nascidos, ele escapou a essa triagem, que consistiu de uma medida quantitativa do aminoácido fenilalanina (triagem voltada especificamente para a fenilcetonúria, que não detecta a MSUD, entre outras aminoacidopatias). A seguir, apesar de terem sido obtidos fortes indícios de MSUD aos 2 meses de vida, o paciente demorou outros 3 meses para chegar a um serviço preparado para seu diagnóstico e tratamento. Por fim, não obstante estivéssemos preparados para o seu atendimento, não dispúnhamos do medicamento imprescindível para tais casos, que é a fórmula alimentar livre dos AACR.

A respeito do segundo aspecto determinante do prognóstico nesses casos - vale dizer, a eficácia do controle bioquímico propriamente dito -, podemos comentar que as medidas terapêuticas empregadas, quando disponíveis, foram bem sucedidas. Tudo nos leva a crer que, fosse o diagnóstico precoce e fosse o Analog MSUD disponível para ele, teríamos boas chances de auxiliar o bebê a ter uma evolução psicomotora favorável.

Essa conclusão baseou-se não somente na evidente rapidez e disponibilidade dos ensaios quantitativos dos aminoácidos, mas também no trabalho da equipe multidisciplinar responsável pelo manejo intensivo e nutricional. Essa equipe, formada por geneticistas clínicos, bioquímicos, nutricionistas e intensivistas pediátricos, está, pois, preparada para atender novos casos de MSUD, ou de outros erros inatos do metabolismo de manejo complexo.

Agradecimentos

Agradecemos ao Dr. Anthony H. Fensom, do Guy’s Hospital de Londres, pela realização do ensaio de descarboxilação da [1-C14]Leucina em fibroblastos.