Manifestações infanto-juvenis da infecção pelo vírus linfotrópico de células T humanas (HTLV-I)

Manifestations of the human T-cell lymphotropic virus type I infection in childhood and adolescence
doi:10.2223/JPED.1573
J Pediatr (Rio J). 2006;82(6):411-20

O vírus linfotrópico para células T humanas tipo I (HTLV-I)

O vírus linfotrópico para células T humanas tipo I (HTLV-I) é um retrovírus, isolado em 1980, de células T de um paciente com linfoma cutâneo e, logo a seguir, relacionado a um tipo de linfoma anteriormente descrito no Japão, a leucemia/linfoma de células T do adulto (ATL)1. Pouco depois da descoberta do HTLV-I, foi identificado o HTLV-II em células de um paciente com leucemia de células pilosas. Este vírus e o HTLV-I têm semelhança em 66% das seqüências genômicas e, por isso, há reações cruzadas entre eles. Ambos infectam, principalmente, os linfócitos T auxiliadores. O HTLV-II ainda não foi consistentemente associado a nenhuma patologia; no entanto, há alguns trabalhos relacionando-o a doenças neurológicas2,3.

O HTLV-I tem ação muito lenta no organismo, e as doenças que causa são, em sua maioria, consideradas como de aparecimento tardio, na vida adulta2. É importante referir que mais de 90% dos portadores do HTLV-I permanecem assintomáticos3.

Freqüência da infecção pelo HTLV-I

A infecção pelo HTLV-I é endêmica em várias partes do mundo, incluindo Sudoeste do Japão, Caribe, África Central e Ocidental, Sudeste dos EUA e América do Sul1. No Brasil, entre doadores de sangue, observou-se freqüência de 1,35% de infecção em Salvador, ao passo que, em outras capitais (Recife, Rio de Janeiro, Manaus e Florianópolis), as taxas de infecção variaram de 0,3 a 0,8%4. No entanto, há registro de freqüência mais elevada no Pará (1,6%)3. Em Campo Grande (MS), observou-se taxa de infecção de 10% entre imigrantes japoneses e seus descendentes e, em Salvador (BA), de 25% entre usuários de drogas injetáveis2. A prevalência dessa infecção na população de Salvador é de 1,76%5.

Entre gestantes, observou-se freqüência de infecção pelo HTLV-I de 1,1% em Belo Horizonte (MG) e de 0,84% em Salvador (BA)3,6. Avaliação epidemiológica das gestantes portadoras em Salvador sugeriu que a infecção foi adquirida principalmente através da amamentação e, em segundo lugar, pela via sexual. Nessas mulheres, a infecção não interferiu no curso da gestação, e 15,6% delas referiram ter tido eczema na infância, enquanto no grupo controle de gestantes HTLV-I negativas apenas 0,85% tiveram eczema. Isso demonstra uma estreita relação, em nosso meio, entre eczema na infância e infecção pelo HTLV-I6.

Meios de transmissão

O HTLV-I transmite-se por contato sexual, transfusão de sangue, verticalmente (da mãe para o filho) ou através do uso compartilhado de agulhas contaminadas entre os usuários de drogas injetáveis2. A transmissão sexual ocorre principalmente do homem para a mulher, em torno de 61%, enquanto a transmissão da mulher para o homem é infreqüente, em torno de 0,4%.

A principal forma de transmissão vertical é pela amamentação. A transmissão pelo leite humano é quase sempre de modo vertical, mas pode ocorrer de modo horizontal, através da amamentação em amas-de-leite ou de amamentação cruzada2.

O leite das mães soropositivas para o HTLV-I tem células infectadas, e já se obteve infecção experimental administrando esse leite por via oral em sagüis7-9. Em áreas endêmicas para o HTLV-I, de 7 a 42% das crianças alimentadas com leite materno adquirem a infecção10-15. Sabe-se, no entanto, que crianças não amamentadas também podem adquirir a infecção de modo vertical, com freqüência variando de 3,3 a 13,8%10-15. Nesses casos, a transmissão deve ocorrer de modo transplacentário ou por contaminação no canal de parto. Bittencourt et al., em 200216, avaliaram, através da reação em cadeia da polimerase (PCR), 41 filhos de portadoras que não foram amamentados (média de idade de 11 meses) e não encontraram nenhum caso de transmissão. No entanto, 81% dessas mães foram submetidas a cesárea eletiva. Considerando que esse tipo de parto reduz a infecção vertical pelo vírus da imunodeficiência adquirida (HIV), não se pode excluir a possibilidade de que tenha interferido na ausência de transmissão16.

Diagnóstico da infecção

O diagnóstico de rotina da infecção pelo HTLV-I é sorológico, através da pesquisa de anticorpos anti-HTLVI/II no soro, sendo mais usado o ensaio imunoenzimático (ELISA). É necessário confirmar o diagnóstico com a técnica de Western blot que permite a discriminação entre os tipos I e II do HTLV6. Deve-se chamar a atenção para o fato de que um teste positivo antes de um ano de idade pode não corresponder a infecção e resultar apenas da passagem de anticorpos maternos através da placenta2.

Nas situações em que não é possível nem a confirmação, nem a discriminação com o Western blot, devem ser realizados testes moleculares, dentre os quais o mais usado é a PCR. A PCR independe da produção de anticorpos contra o vírus, pois ele detecta diretamente o DNA proviral. Por sua alta sensibilidade e especificidade, este método é capaz de esclarecer estados sorológicos indeterminados ou mesmo detectar infecção em indivíduos soronegativos com quadro clínico sugestivo de doença associada ao HTLV-I. Constitui o método de escolha na avaliação bem precoce da transmissão vertical2.

Principais patologias relacionadas ao HTLV-I

Muito embora a maioria dos indivíduos infectados permaneça assintomática, o HTLV-I pode causar patologias graves, dentre as quais ATL, mielopatia associada ao HTLV-I/paraparesia espástica tropical (HAM/TSP) e dermatite infecciosa associada ao HTLV-I (DIH)2. Esta é sempre uma doença da infância; no entanto, a ATL e a HAM/TSP são consideradas patologias do adulto, assim como a uveíte associada ao HTLV-I. Outras doenças que têm sido relacionadas a esse vírus no adulto são: alveolite linfocitária de células T, síndrome de Sjögren, tireoidite, doença de Behçet, artropatia e polimiosite17.

Na infecção pelo HTLV-I, há desregulação do sistema imune com linfoproliferação espontânea e produção simultânea de citocinas pelas células T auxiliadoras tipos I e II18,19, o que torna os indivíduos infectados mais susceptíveis a infecções e a parasitoses, como a escabiose e a estrongiloidíase20-22. Recentemente, observou-se, em Salvador, que há maior risco para a tuberculose entre os portadores do HTLV-I do que entre indivíduos não infectados por esse vírus23.

O desconhecimento da DIH e a crença de que a ATL, a HAM/TSP e a uveíte associada ao HTLV-I manifestam-se tardiamente talvez seja responsável pelo pequeno número de doenças associadas ao HTLV-I diagnosticado na infância e adolescência. Como sabemos que essas patologias ainda são pouco abordadas na literatura pediátrica, achamos importante a sua divulgação.

Dermatite infecciosa associada ao HTLV-I

Introdução

A DIH é uma forma de eczema infectado e recidivante descrita na Jamaica por Sweet24, em 1966, tendo sido posteriormente relacionada ao HTLV-I25. Geralmente, inicia-se após os 18 meses de vida e raramente persiste até a vida adulta26. A transmissão nesses casos é por via vertical. Há relato de apenas um caso de transmissão por transfusão de sangue27. A freqüência da DIH é maior no sexo feminino, variando de 60 a 65%27,28.

O maior número de casos de DIH foi relatado na Jamaica28 e, mais recentemente, na Bahia27. Séries menores foram descritas em Trinidad e Tobago29, Peru30 e Senegal31. Curiosamente, no Japão, onde é elevada a prevalência da infecção pelo HTLV-I, só há referência a dois casos de DIH na infância, os quais evoluíram para ATL na vida adulta32.

A DIH corresponde a 10% dos casos de eczema infantil na Jamaica33. Nesse país, a prevalência de portadores infantis de HTLV-I é de 1% e, acima dos 20 anos de idade, de 8,1%34. Maloney et al.35, acompanhando 28 crianças portadoras do HTLV-I durante 7,5 anos em média, observaram que apenas uma desenvolveu DIH, concluindo que, em crianças infectadas verticalmente, a probabilidade de desenvolver essa afecção aos 4 anos de idade é de 2%. Nesse estudo, que incluiu 181 filhos de portadoras desse vírus, a taxa de transmissão vertical foi de 15,5%.

Aspectos clínicos, anatomopatológicos e imunohistoquímicos

A DIH mostra lesões eritêmato-descamativas, infectadas e crostosas envolvendo couro cabeludo, pavilhões auriculares (Figura 1), região retroauricular, pescoço, dobras, região inguinal, genitália (Figura 2) e várias outras partes do corpo, apresentando prurido menos intenso que o da dermatite atópica (DA)27. Os pacientes também apresentam lesões eritêmato-descamativas e/ou crostosas nas fossas nasais e/ou rinite e, com freqüência, blefaroconjuntivite (Figura 3). A doença pode ser generalizada e mostrar pústulas, pápulas eritêmato-descamativas ou foliculares (Figura 1) e fissuras retroauriculares. Associa-se sempre à infecção por Staphylococcus aureus e/ou Streptococcus b-hemolyticus27.

Figura 1 -
Dermatite infecciosa com lesões no couro cabeludo, pavilhão auricular e pescoço

Figura 2 -
Lesões eritêmato-descamativas e crostosas nas regiões inguinocrurais e genitália

Figura 3 -
Presença de blefaroconjuntivite e de lesão nas narinas com exulcerações e crostas

Segundo La Grenade et al.28, os principais critérios para diagnóstico da DIH são: 1. Eczema do couro cabeludo, axilas, virilhas, pavilhão auricular, regiões retroauriculares, pálpebras, pele paranasal e/ou pescoço; 2. Rinorréia crônica e/ou lesões crostosas no vestíbulo nasal; 3. Dermatite crônica recidivante com resposta imediata à antibioticoterapia e com recidiva após suspensão do tratamento; 4. Início precoce na infância; 5. Soropositividade para o HTLV-I. Segundo esses autores, a inclusão dos itens 1, 2 e 5 e o envolvimento de pelo menos duas áreas para preenchimento do critério 1 são obrigatórios. Embora esses critérios incluam crostas nas narinas e/ou rinite como elementos obrigatórios para o diagnóstico, tais aspectos não são persistentes e podem estar ausentes em alguns casos27.

Assim como ocorre no adulto infectado pelo HTLV-I20,22, também aparecem complicações de natureza infecciosa e parasitária nos pacientes com DIH, como otite, piodermite, escabiose e estrongiloidíase27,31,36,37.

Muito embora não seja possível fazer diagnóstico histopatológico de DIH, esse estudo é importante para o diagnóstico diferencial com outras patologias inflamatórias e com a micose fungóide. O quadro histológico da DIH é de uma dermatite espongiótica ou de uma simples dermatite crônica. Pouco freqüentemente, o seu quadro histológico pode simular psoríase e micose fungóide38.

O infiltrado inflamatório da DIH é predominantemente de células T. Ao contrário do que ocorre na DA e na dermatite seborréica (DS), há predominância de linfócitos CD8 positivos em relação aos CD4 positivos. No entanto, os linfócitos CD8 positivos são perforina negativos e, raramente, granzime-B positivos, indicando não serem linfócitos T citotóxicos ativados. Contudo, na DA, os linfócitos são perforina e granzime-B positivos e parecem contribuir para o processo inflamatório38.

Diagnóstico clínico diferencial

O diagnóstico diferencial da DIH deve ser feito principalmente com a DA e, quando a criança entra na puberdade, com a DS. Teste sorológico positivo para o HTLV-I não é critério de certeza para o diagnóstico da DIH em pacientes com eczema crônico, uma vez que, em áreas endêmicas, podem existir casos de DA ou DS soropositivos para esse vírus. Na forma infantil de DA, que ocorre após os 2 anos de idade, as lesões assemelham-se, em parte, às da DIH; entretanto, as lesões de DIH são mais infectadas e exuberantes. Por outro lado, o prurido na DIH é menos intenso que o na DA. Na DIH, ao contrário do que ocorre na DA, encontram-se crostas nos vestíbulos nasais, fissuras, rash generalizado de pápulas muito pequenas e blefaroconjuntivite39,40. A DS é considerada rara na infância, porém Maloney et al.41 observaram que 25% das crianças portadoras do HTLV-I apresentam DS. Diferente da DS, as lesões da DIH são muito exsudativas, fétidas e recobertas por crostas amarelas. Ao contrário do que se observa na DIH, as lesões mostram escamas oleosas na DS42. Por outro lado, as leveduras do Pityrosporum, que freqüentemente ocorrem na DS43, não são observadas nas lesões de DIH. Além do mais, na DIH há boa resposta ao sulfametoxazol/trimetoprim e a antibióticos, o que não constitui característica da DS27.

Patogênese

Não se sabe por que apenas algumas crianças infectadas desenvolvem DIH e a maioria permanece assintomática. É possível que fatores genéticos do hospedeiro desempenhem papel importante na gênese da DIH. La Grenade et al.44 estudaram, através de genotipagem do antígeno leucocitário comum (HLA), três gerações de uma mesma família com nove portadores e três casos de DIH, mãe e filho, que posteriormente evoluíram para HAM/TSP. Observaram que a mãe e o filho com DIH e mais outro filho portador tinham haplótipo de classe II DRB1*DQB1*, o mesmo descrito em pacientes japoneses com HAM/TSP.

Alguns trabalhos mostram que os pacientes com DIH têm maior carga viral. Segundo La Grenade et al.28, pacientes com DA infectados pelo HTLV-I apresentam níveis de anticorpos séricos anti-HTLV-I inferiores aos dos pacientes com DIH. Considerando que há correlação positiva entre nível de anticorpos anti-HTLV-I e carga viral41,45, esse achado parece indicar que a carga viral dos pacientes com DIH é mais elevada que a das crianças apenas portadoras. Recentemente, Maloney et al.35, estudando 28 crianças portadoras, observaram que apenas duas apresentaram carga viral elevada, sendo que uma delas desenvolveu DIH.

O acentuado quadro inflamatório cutâneo poderia ser explicado pela ação de citocinas. Sabe-se que a proteína viral tax pode transativar genes de várias citocinas pró-inflamatórias, dentre as quais a interleucina 1, a interleucina 6 e o fator alfa de necrose tumoral (TNF-a). Essas citocinas amplificariam e manteriam a reação inflamatória cutânea, o que também explicaria a natureza recidivante da DIH46. Estudo sobre o padrão de citocinas na DIH, avaliando as concentrações de IFN-y e TNF-a no sobrenadante de células mononucleares do sangue periférico, mostrou níveis mais elevados dessas citocinas em comparação com indivíduos infectados e sem DIH (Nascimento, comunicação pessoal).

Evolução e tratamento

A DIH pode evoluir para HAM/TSP47 e ATL32,48,49. Quarenta e quatro por cento dos casos de ATL diagnosticados na Bahia têm história de eczema severo na infância, resistente a tratamento e com comprometimento do couro cabeludo, certamente correspondendo a DIH50.

É, portanto, aconselhável que se faça sorologia para o HTLV-I em todos os casos de eczema severo em crianças e adolescentes. Além disso, os casos de DIH devem ser acompanhados com exames clínico e neurológico periódicos. Como a estrongiloidíase constitui um co-fator predisponente para a evolução para ATL, levando a expansão clonal dos linfócitos, e considerando que essa parasitose é freqüentemente assintomática, é importante que seja pesquisada cuidadosamente em todos pacientes com DIH, pois o tratamento adequado pode reverter a expansão clonal51.

Como a DIH associa-se sempre à infecção bacteriana, responde bem à antibioticoterapia e ao uso oral de trimetoprim/sulfametoxazol. No entanto, há recidiva quando a medicação é suspensa27.

Forma infanto-juvenil da HAM/TSP

Introdução

A HAM/TSP é uma mielopatia grave e incapacitante, mais freqüente no gênero feminino, sendo 46 anos a média de idade de início da doença52,53. É geralmente considerada resultante de infecção adquirida na vida adulta, por transfusão de sangue ou por via sexual54.

De acordo com as diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS), o quadro clínico e a presença de anticorpos anti-HTLV-I no soro e no liquor são considerados critérios essenciais para o diagnóstico da HAM/TSP47. O quadro clínico corresponde a paraparesia espástica crônica e progressiva, envolvendo principalmente o trato piramidal (reflexos exaltados nos membros inferiores, clônus e sinal de Babinski), com fraqueza proximal nos membros inferiores, bexiga neurogênica e lombalgia47.

Durante a evolução clínica da HAM/TSP, invariavelmente ocorrem sinais e sintomas motores e/ou sensitivos relacionados com limitação funcional crural simétrica. Nestes, estão incluídos a fadiga durante a marcha decorrente de espasticidade progressiva dos membros inferiores, hiper-reflexia, clônus, fraqueza muscular e queixas sensitivas, como dor lombar, cãibras, dormência e/ou formigamento com sensações disestésicas plantares47,53. Esses sinais e sintomas estão presentes de forma mais ou menos intensa nas diversas fases clínicas da doença.

É importante fazer o diagnóstico diferencial com outras doenças infecciosas que podem comprometer a medula espinhal, como sífilis, toxoplasmose, cisticercose e esquistossomose, através da pesquisa de anticorpos no liquor e cultura do mesmo líquido para outros microrganismos, inclusive o Mycobacterium tuberculosis47.

De acordo com o tempo de doença e o número de células presentes no líquido cefalorraquidiano (LCR), classifica-se HAM/TSP em aguda, subaguda e crônica53. Na avaliação da sua evolução, é importante a aplicação das escalas de incapacidade motora de Osame e expandida de Kurtzke, visando mensurar os graus de incapacidade dos diversos sistemas funcionais, além de controlar a evolução e as respostas às diferentes tentativas terapêuticas47.

Embora a HAM/TSP seja considerada patologia do adulto, há, na literatura, 17 relatos bem documentados de HAM/TSP diagnosticados na faixa etária infanto-juvenil, dos quais 13 foram descritos no Brasil47,49,55-61. Nesses casos, houve também predomínio do sexo feminino. Diferente da doença do adulto, a infecção é adquirida verticalmente na forma infanto-juvenil da HAM/TSP47,62.

Quadro clínico, diagnóstico e evolução

A grande maioria dos casos da forma infanto-juvenil da HAM/TSP ocorreu em pacientes com DIH ou que tiveram DIH63. Em um estudo que avaliou neurologicamente 20 casos de DIH em crianças e adolescentes, em Salvador, observou-se que apenas oito (40%) não apresentaram manifestações neurológicas. Em seis casos (30%), foi feito o diagnóstico conclusivo de HAM/TSP, e quatro pacientes (20%) manifestaram sintomas flutuantes de mielopatia63, sendo que um deles teve, posteriormente, este diagnóstico (Primo, dados não publicados). Além disso, dois casos (10%) mostraram quadro clínico sugestivo de neuropatia periférica63. Essa patologia tem sido descrita no adulto com infecção assintomática ou com HAM/TSP64.

Disfunção vesical caracterizada por dificuldade no esvaziamento da bexiga, urgência e incontinência urinárias observadas na HAM/TSP do adulto65,66 são também encontradas na forma infanto-juvenil dessa doença47. Considerando que o comprometimento da bexiga pode passar despercebido, o estudo urodinâmico é importante para o diagnóstico, sendo também útil para o tratamento e acompanhamento da disfunção vesical, que já foi documentada na HAM/TSP do adulto66. Estudo urodinâmico realizado em três casos de HAM/TSP infanto-juvenil revelou aspectos semelhantes aos observados no adulto67.

Há referência à baixa estatura, hipocalcemia e pequeno aumento na excreção do fósforo urinário e do adenosina monofosfato (AMP) cíclico após injeção de hormônio paratireoidiano (HPT) em pacientes juvenis com HAM/TSP, achados que levaram ao diagnóstico de pseudohipoparatireoidismo (PHP)68. Segundo Machigashira et al.69 a infecção pelo HTLV-I não induz o PHP, porém este pode constituir um fator de risco para o desenvolvimento de HAM/TSP em portadores desse vírus. Esse aspecto deverá ser investigado mais extensamente.

A forma infanto-juvenil da HAM/TSP, embora apresente manifestações clínicas semelhantes às do adulto, é diferente quanto à evolução, que é rapidamente progressiva47,58.

Patogênese

Recentemente, observou-se aglutinação de casos com HAM/TSP em três famílias, entre irmãos ou entre mãe e filho47, o que sugere o envolvimento de fatores genéticos na gênese dessa patologia. No Japão, encontrou-se para o HAM/TSP do adulto um background imunogenético diferente do observado na ATL70.

Os pacientes com DIH e HAM/TSP apresentam elevados níveis de anticorpos anti-HTLV-I47. Considerando que existe correlação entre nível de anticorpos e carga proviral41,45, é muito provável que esses pacientes apresentem elevada carga viral, a qual poderia ser responsável pelo início precoce da HAM/TSP.

Estudos sobre HAM/TSP do adulto mostram que o risco relativo para o desenvolvimento de HAM/TSP aumenta acentuadamente quando a carga proviral excede uma cópia por 100 células mononucleares do sangue periférico71. Sabe-se que a presença do gene HLA-A*02 em pacientes japoneses adultos está associada a uma significativa redução da carga viral e do risco para HAM/TSP72. Por outro lado, o HLA-DRB1*0101 está associado a um maior risco de HAM/TSP70.

Tratamento

Considerando o fato de ser patologia imunomediada, a HAM/TSP vem sendo tratada como outras doenças imunológicas do sistema nervoso, onde também há predomínio de processo inflamatório. De acordo com os estudos, a melhora clínica acompanha-se, em alguns pacientes, da diminuição do título de anticorpos e da celularidade no LCR. A pulsoterapia com metilprednisolona durante 3-5 dias, seguida de prednisona oral (1 mg/kg/dia) por tempo indeterminado, é indicada nos casos de evolução aguda ou subaguda associada à rápida deterioração funcional e ao padrão inflamatório do liquor47,58. Outras alternativas terapêuticas, como alfa-interferon, gamaglobulina, vitamina C, pentoxifilina e danazol, vêm sendo utilizadas63. É também indicado tratamento sintomático com miorrelaxantes e anticonvulsivantes (baclofeno e oxcarbazepina) para alívio da espasticidade e da dor neuropática. A inclusão social desses pacientes, que sofrem grandes prejuízos de ordem psicológica e motora nas suas atividades, requer assistência com equipe multidisciplinar (médico, psicólogo, fisioterapeuta, terapeuta ocupacional, enfermeiro e pedagogo).

Triagem sorológica deve ser realizada nas crianças de áreas endêmicas com mielopatia, no sentido de diagnosticar precocemente a HAM/TSP e oferecer tratamento adequado e melhor qualidade de vida para os pacientes.

Leucemia/linfoma de células T do adulto

Introdução

A ATL constitui forma grave e geralmente fatal de leucemia/linfoma etiologicamente associada ao HTLV-I. Muito embora a ATL seja geralmente relacionada à transmissão vertical61, o período de latência para seu desenvolvimento é muito longo73. No Brasil, já foram detectados muitos casos de ATL, e a média de idade varia de 42 a 49 anos, sendo inferior em uma década à encontrada no Japão1,74.

Como já foi referido, tem-se observado que o Strongyloides stercoralis estimula a proliferação oligoclonal das células infectadas pelo HTLV-I em portadores assintomáticos, sugerindo que essa infestação possa constituir um co-fator para o desenvolvimento de ATL75. É provável que o início mais precoce de ATL em países em desenvolvimento, onde é mais elevada a prevalência de infestação pelo Strongyloides stercoralis, seja devido, pelo menos em parte, à maior exposição dos portadores do HTLV-I a esse parasito.

Há relatos na literatura de 24 casos diagnosticados na infância e adolescência (Tabela 1)76, cujas manifestações clínicas são, em sua maioria, semelhantes às observadas no adulto. Seis tinham idade igual ou inferior a 10 anos na época do diagnóstico31,77-91.

Tabela 1 -
Casos da literatura de ATL ocorrendo na infância e adolescência76

A sorologia materna foi positiva em 16 dos 19 casos da literatura nos quais essa informação existia, indicando transmissão vertical do HTLV-I76. No entanto, o resultado sorológico foi negativo em três mães. A transmissão em uma dessas três crianças ocorreu por transfusão sangüínea. As outras duas foram amamentadas por outra mulher, cujo estado sorológico era desconhecido88,90.

Aspectos clínicos

A ATL classifica-se, de acordo com dados clínicos e laboratoriais, em formas indolente (smoldering), aguda, crônica e linfomatosa92. Na maioria dos casos da literatura, não está referida a forma clínica; no entanto, pelos dados clínico-laboratoriais citados, a maioria correspondeu à forma aguda de ATL. Dois casos apresentaram forma crônica31,89 e três forma indolente77,89,91, sendo que dois outros tiveram as características dessa forma clínica79,88. Os órgãos mais envolvidos foram pele, linfonodos, fígado e baço. A medula óssea mostrou-se infiltrada em 10 dos 16 casos em que há referência a esse exame. As lesões cutâneas apareceram sob forma de rash maculoso, pápulas, placas infiltradas, nódulos, tumores ou como eritrodermia76, não diferindo do que se observa no adulto93. Em três casos, houve referência à associação com DIH31,89,91 e, em um outro, história muito sugestiva desta patologia86.

Diagnóstico

Os pacientes foram diagnosticados pelos exames hematológico e/ou anatomopatológico e, em oito, foi evidenciada integração monoclonal do HTLV-I90. (Weyenberg & Farré, dados não publicados).

Nos poucos casos em que foi feito estudo anatomopatológico com classificação do tipo histológico do linfoma, há referência à linfoma anaplásico de grandes células, micose fungóide e linfoma pleomórfico, atualmente designado como linfoma T periférico não especificado76. Esses tipos de linfoma também foram descritos na ATL do adulto1.

Evolução

Há referência a 15 casos que foram a óbito, a maioria com menos de 6 meses de sobrevida. Nos oito casos nos quais não houve registro de óbito, a sobrevida variou de 1,3 a 14 anos. Destes, três foram de forma indolente, que é considerada como tendo maior sobrevida, e dois tiveram as características clínico-patológicas dessa forma de ATL76. O caso 14 teve evolução fora do comum. As lesões iniciaram-se aos 7 anos idade e, aos 24 anos, o paciente continua com lesões restritas à pele, embora tenham progressivamente aumentado de número e volume, tendo sido necessário o uso de radioterapia com elétrons para redução das lesões. (Bittencourt, dados não publicados).

Já se observou comportamento diferente de dois gêmeos univitelinos infectados por transfusão de sangue logo após o nascimento88. Um evoluiu para ATL, com lesões cutâneas desde os 5 anos de vida, e o outro continuou com infecção assintomática pelo menos até os 13 anos de vida. No entanto, há referência a dois irmãos que desenvolveram linfoma precocemente, um com 16 e o outro com 24 anos84, mostrando uma tendência familiar no desenvolvimento da ATL, fato que já foi observado em pacientes adultos94.

Patogênese

A literatura mostra que casos de DIH podem evoluir para ATL, mas ainda não estão bem esclarecidos os mecanismos que levam a essa evolução. É provável que estejam envolvidos fatores genéticos do hospedeiro e fatores externos. Por outro lado, há muitos casos de ATL que não tiveram passado de DIH.

Na DIH, a presença dos antígenos virais e de superantígenos bacterianos causaria estimulação dos linfócitos e, portanto, aumentaria a quantidade de células-alvo a serem infectadas pelo HTLV-I. Com a expansão de células T infectadas, seriam produzidos sinais para ativação e fatores de crescimento para as células T não infectadas, e repetidas expansões clonais dessas células aumentariam as chances de eventos adicionais necessários para que ocorram a transformação e a leucemogênese46.

Gabet et al.51 estudaram a replicação do HTLV-I durante 2 anos em uma paciente com DIH associada à estrongiloidíase, parasitose que predispõe portadores desse vírus a desenvolver ATL75. Encontraram elevadas cargas virais, ao lado de persistente expansão oligoclonal de linfócitos infectados. O padrão de replicação foi muito diferente do observado em portadores assintomáticos, tendo sido mais próximo do que se observa na ATL51.

Experimentalmente, observou-se que a inoculação do HTLV-I por via oral não induz resposta imune de células T específicas, resultando em aumento da carga viral. Como há semelhança entre a inoculação experimental por via oral e a infecção pela amamentação, os achados acima referidos sugerem que os fatores de risco para ATL (transmissão vertical e elevada carga viral) possam ser resultantes de uma insuficiente resposta de células T específicas por parte do hospedeiro. Esse risco poderia ser reduzido caso o portador viesse a recuperar a resposta imune específica95. Assim, haveria elevado risco para o desenvolvimento de ATL em um pequeno grupo de portadores infectados verticalmente que permanecesse em estado de baixa resposta imunológica ao vírus, apesar da presença de elevada carga viral. É provável que a magnitude da resposta imune quando da infecção primária seja crucial para determinar os níveis persistentes do vírus95.

É possível que o desenvolvimento de ATL na infância e adolescência se relacione à aquisição da infecção muito precocemente, por via intra-uterina, no canal de parto ou pela amamentação nos primeiros meses de vida, considerando que o sistema imunológico do feto e da criança nos primeiros meses de vida é bem menos eficiente.

Tratamento

É muito importante o reconhecimento dos casos de ATL, porque o prognóstico e o tratamento são diferentes dos outros tipos de leucemia/linfoma. A ATL não responde à quimioterapia como os outros linfomas e leucemias e, dentre os vários esquemas terapêuticos que vêm sendo tentados, o mais usado é a associação de interferon-alfa com zidovudine96. É importante salientar que a orientação terapêutica depende também da forma clínica da ATL96,97.

Manifestações oculares

Opacificação e úlcera da córnea têm sido descritas em pacientes com DIH27,36.

A uveíte associada ao HTLV-I é uma doença de adultos de meia idade que pode ocorrer em portadores do HTLV-I ou em pacientes com HAM/TSP98. No entanto, há referência a cinco casos de uveíte associada ao HTLV-I, quatro dos quais do sexo feminino, com idade variando de 3 a 14 anos e com sintomatologia semelhante à observada no adulto99,100. Essa patologia responde bem a tratamento tópico ou sistêmico com corticosteróides, mas pode apresentar recidivas100.

Mais recentemente, Nakao & Ohba101 descreveram quadro de vasculite retiniana acompanhada por discretas alterações visuais em três adolescentes portadores do HTLV-I, referindo que esse quadro difere das alterações vasculares comumente vistas na uveíte associada ao HTLV-I. Tem curso lento, responde mal aos corticosteróides e, eventualmente, resulta em difusa degeneração coriorretiniana.

Conclusão

Como foi dito, a DIH, a ATL e a forma infanto-juvenil da HAM/TSP ocorrem em indivíduos infectados verticalmente, e sabe-se que a principal forma de transmissão vertical é através da amamentação. Isso mostra a importância da prevenção dessa forma de transmissão em áreas endêmicas, como Salvador, a qual deve se basear na triagem sorológica das gestantes e aconselhamento das soropositivas para se absterem de amamentar4. Considerando que as mães portadoras do HTLV-I em nosso meio são geralmente de classe social baixa, é necessário que seja fornecido para seus lactentes suprimento nutricional alternativo e assistência pediátrica. Em Nagasaki (Japão), uma ampla intervenção usando essa estratégia bloqueou em cerca de 80% a transmissão vertical do HTLV-I14.

A transmissão vertical do HTLV-I constitui sério problema de saúde pública e merece uma investigação mais extensa para que se possa avaliar sua importância em outras cidades brasileiras.