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Introdução
A publicação de artigos é uma parte essencial
da pesquisa científica. Contudo, ter um artigo impresso não
basta - também é preciso garantir que o trabalho seja
lido pelo maior número possível de pessoas, e que
seja citado. Por isso, a maioria das revistas trabalha duro para
ser indexada em bases de dados internacionais, partindo da convicção,
fruto da lógica, de que a indexação naturalmente
trará, primeiramente, maior visibilidade e, partir daí,
mais citações ().
Contudo, tal convicção não é embasada
por dados da literatura. Uma busca detalhada desse tipo de evidência
revelou apenas editoriais que comemoravam a indexação
de uma dada revista ou comentavam a difícil trajetória
cursada para atingir essa meta e as perspectivas considerando essa
valorizada realização ().
Encontramos apenas uma breve avaliação que de fato
mostrou que o número de citações a artigos
publicados em cinco revistas brasileiras mais do que dobrou (em
termos do fator de impacto medido pelo Institute for Scientific
Information, o ISI) após a sua inclusão na base
latino-americana SciELO (Scientific Electronic Library Online)
().
Assim, foi nosso objetivo avaliar o impacto da inclusão
do Jornal de Pediatria no SciELO em 2002 ()
e na base internacional MEDLINE em 2003 (),
tomando como indicador de visibilidade e qualidade atribuída
a taxa de submissão de artigos após esses eventos.
Métodos
O número total de artigos submetidos ao Jornal de Pediatria
de 2000 a 2004 foi analisado. Os desfechos secundários foram
a submissão de artigos de países estrangeiros e os
números relativos à aceitação de artigos
para o mesmo período.
Como não houve mudanças nem no conselho editorial,
nem nos métodos de submissão dos manuscritos no período
do estudo, passamos a considerar o impacto em potencial de três
eventos sobre as taxas de submissão de artigos: o primeiro
foi o lançamento do site bilíngüe (português/inglês)
de acesso gratuito, em março de 2001; o segundo foi a indexação
no SciELO, em julho de 2002; e o terceiro foi a indexação
na MEDLINE, em agosto de 2003. Assim, quatro etapas foram considerados:
a etapa I, chamada de "pré-site" (15 meses), a
etapa II, "site" (16 meses), a etapa III, "SciELO"
(13 meses), e a etapa IV, "MEDLINE" (16 meses).
Para fins de análise estatística foram utilizados
análises de tendência, ANOVA unidimensional para dados
ordenados pelo teste post hoc de Duncan (para comparação
do número de submissões em cada momentos) e o teste
exato de Fisher com ajuste do valor p pelo teste de Finner-Bonferroni
(para comparação da submissão de artigos estrangeiros
nos quatro períodos).
Resultados
Foi observada uma tendência significativa de aumento linear
no número de artigos submetidos ao Jornal de Pediatria em
todo o período do estudo (p = 0,009) (Figura 1). A tabela
1 mostra o número de artigos submetidos em cada categoria
nos momentos de I a IV. O número de submissões não
foi estatisticamente diferente nas etapas I e II (p = 0,148), mas
foi estatisticamente maior a etapa III (p < 0,001 vs. etapa I;
p = 0,006 vs. etapa II) e IV (p < 0,001 vs. etapa I e II, e p
< 0,05 vs. etapa III). A variação positiva na submissão
de cartas ao editor foi a mais marcante entre as categorias de artigos,
seguida pelos artigos originais.
Figura 1 -
Jornal de Pediatria: Números mensais de submissão
e aceitação de artigos, 2000 a 2004
Tabela 1 -
Jornal de Pediatria: taxas de submissão e aceitação
de artigos por momento de análise, 2000 a 2004
Houve uma flutuação errática e pronunciada
na submissão mensal de artigos nas etapas III e IV (Tabela
2).
Tabela 2 -
Jornal de Pediatria: Número médio mensal de submissões
por momento de análise, 2000 a 2004
Como o número absoluto de artigos aceitos por número
da revista permaneceu estável durante o período do
estudo, a taxa de aceitação diminuiu. Essa queda foi
mais pronunciada para os relatos de caso.
O número de artigos estrangeiros submetidos nas etapas de
I a IV foi 1, 2, zero e 17, respectivamente, com p < 0,001 para
a comparação da etapa IV com as etapas anteriores.
Discussão
Foi observada uma associação inequívoca entre
a indexação no SciELO e um aumento no número
de manuscritos brasileiros submetidos ao Jornal de Pediatria, enquanto
que a indexação na MEDLINE claramente levou a um aumento
nas submissões tanto do Brasil quanto do exterior. Esses
resultados substanciam a noção empírica de
que os autores submetem mais artigos a revistas indexadas em bases
internacionais ().
Os autores preferem revistas indexadas devido a sua visibilidade,
mas também porque as agências de financiamento valorizam
essas publicações ().
No Brasil, esse é um dos principais critérios utilizados
pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal
de Nível Superior (CAPES) para classificar os programas de
pós-graduação. A CAPES classifica as revistas
através de um sistema chamado de Qualis. Conforme o Qualis,
as melhores revistas são aquelas indexadas na MEDLINE e com
um alto fator de impacto conforme os Journal Citation Reports
(JCR) da empresa Thomson Scientific ().
A seguir estão as revistas indexadas na MEDLINE, mas que
possuem um baixo fator de impacto. E em terceiro lugar estão
as revistas indexadas na MEDLINE, mas que não são
incluídas nos JCR.
O fato de as agências de financiamento no Brasil, e talvez
também em outros países, valorizarem acima de tudo
um alto fator de impacto merece atenção especial.
Em primeiro lugar, muitos já apontaram que contar citações
é uma forma falha de avaliar o mérito acadêmico,
entre outros porque não se mede a citação a
artigos específicos ().
Em segundo lugar, se um artigo é citado com freqüência
como exemplo de pesquisa de má qualidade, mesmo assim a menção
repetida a esse artigo irá aumentar o fator de impacto da
revista. Além disso, as revistas com versões impressas
em outras línguas que não o inglês dificilmente
serão avaliadas por organizações como a Thomson-ISI,
com o pretexto de que o seu fator de impacto é baixo demais
- o que provavelmente é verdade, já que os leitores
internacionais dificilmente citarão um artigo publicado em
uma língua que não sabem ler. Vale mencionar que o
número de citações da MEDLINE a artigos em
inglês aumentou de aproximadamente metade do total de registros
naquela base antes da década de 1970 para quase 90% atualmente
().
Além disso, sempre que a MEDLINE lista um artigo em "não-inglês"
(ou seja, um artigo cuja versão original impressa é
publicada em qualquer língua que não o inglês,
não importando se existe uma versão em inglês
do conteúdo), seu título aparece entre colchetes.
Assim, embora o Jornal de Pediatria - como muitas outras revistas
oficialmente indexadas como "não-inglesas" - ofereça
acesso gratuito ao texto integral dos artigos em inglês, é
razoável pressupor que aqueles colchetes por si só
desestimulem muitos leitores. Duas perguntas interessantes que emergem
desse cenário são: quantos pesquisadores que fazem
buscas na MEDLINE utilizam filtros de linguagem, ou quantos acessam
artigos cujos títulos aparecem entre colchetes? E - será
que a cobertura de uma revista pelo ISI teria o poder de aumentar
o seu fator de impacto, da mesma forma como a indexação
na MEDLINE aumenta a taxa de submissão de artigos?
Não resta dúvidas de que o Jornal de Pediatria passou
a publicar artigos de maior qualidade como resultado da preparação
para a indexação e da indexação propriamente
dita. Isso explica, em parte, a queda marcante na taxa de aceitação,
que diminuiu praticamente pela metade no período do estudo.
O número de artigos originais publicados na revista está
estabilizado desde o número de março/abril de 2001,
quando atingimos o limite máximo de páginas impressas.
Esse fato, juntamente com o aumento no número de submissões,
contribuiu para a adoção de critérios mais
rigorosos de avaliação, e a taxa de aceitação
naturalmente diminuiu. Esse efeito foi mais evidente para os relatos
de caso, indicando uma mudança nas características
do Jornal de Pediatria, tendo sido priorizados os artigos originais.
Em conclusão, mostramos que a indexação do
Jornal de Pediatria no SciELO e na MEDLINE aumentou a visibilidade
internacional da revista, assim como a percepção global
de qualidade atribuída, o que estimulou mais pesquisadores
a submeter os seus artigos para fins de publicação.
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