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Introdução
A Síndrome de Down (SD) é a anomalia cromossômica
que se observa com maior freqüência na população
em geral. Afeta 1 a cada 800 recém-nascidos em todo o mundo
e é o principal fator genético no desenvolvimento
de retardo mental moderado ().
Diferentes estudos têm demonstrado que pacientes com SD apresentam
várias disfunções imunológicas, ()
que os predispõem a uma maior freqüência de infecções
recorrentes, assim como de doenças autoimunes. Vários
estudos já foram publicados relatando alto grau de associação
entre SD e doenças autoimunes (),
principalmente doença celíaca (DC) ()
e tireoidite autoimune ().
A DC afeta indivíduos de todas as idades e caracteriza-se
por uma intolerância permanente ao glúten. Em sua forma
clássica, a DC se manifesta através de sintomas e
sinais de má absorção intestinal. A doença
pode, no entanto, ocorrer de uma forma silenciosa ou latente ().
De acordo com Marsh (),
a mucosa duodenal pode estar normal ou apresentar alterações
que podem variar de atrofias leves a graves na arquitetura da mucosa.
O tratamento feito com uma dieta isenta de glúten promove
a recuperação clínica da mucosa duodenal; caso
a dieta seja interrompida os sintomas da doença irão
retornar ().
A forma clássica da sintomatologia da DC, com a presença
de diarréia, vômitos perda de peso aparece em poucos
casos. A maioria dos pacientes apresenta sintomas gastroenterológicos
não específicos, como dispepsia, dor abdominal, flatulência
e alteração do funcionamento intestinal. Essas características
geralmente causam atraso no diagnóstico da DC e levam a abordagem
incorreta doss pacientes ().
Em 1975, Bentley relatou pela primeira vez uma associação
entre a DC e a SD ().
Nos anos seguintes, vários trabalhos mostraram maior freqüência
de DC em indivíduos com SD em diferentes populações,
com prevalência variando de 3,2 a 10,3% ().
O presente estudo teve como objetivos investigar a prevalência
de DC em crianças com SD da região Sul do Brasil.
Materiais e métodos
A presente pesquisa foi aprovada pelo comitê de ética
de nossa instituição.
Pacientes
Setenta e um pacientes consecutivos com SD (32 do sexo feminino
e 39 do sexo masculino) com idade variando de 2 a 18 anos, média
6,12 anos, do Ambulatório da Síndrome de Down do Hospital
de Clínicas da Universidade Federal do Paraná (UFPR),
foram incluídos no estudo. Os pacientes maiores de 18 anos
foram excluídos do estudo. Familiares em primeiro grau das
crianças assinaram um consentimento informado antes da coleta
de 3 ml de sangue dos pacientes. As amostras foram centrifugadas
e os soros foram separados, aliquotados e imediatamente armazenados
à temperatura de -80°C. Apenas os pacientes positivos
para EmA-IgA/anti-tTg foram reavaliados clinicamente e submetidos
a endoscopia digestiva alta. A hiperplasia de criptas e a atrofia
vilositária foram classificadas como parcial (AVP) ou total
(AVT), de acordo com Marsh ().
Controles
Amostras de sangue de 80 crianças saudáveis residentes
na mesma área geográfica dos pacientes, na mesma faixa
de idade (de 2 a 19 anos, média 8.02 anos) e de ambos os
sexos (38 do sexo feminino e 42 masculino) foram utilizados como
grupo controle.
EmA-IgA
Todas as amostras foram investigadas para os EmA-IgA de acordo
com Volta et al. (),
através de imunofluorescência indireta, utilizando
cordão umbilical humano como substrato e anti-IgA humano
conjugado com isotiocianato de fluoresceína (FITC) (INOVA,
USA).
Anticorpos Anti-tTG
Os anticorpos IgA anti-transglutaminase foram determinados pela
técnica de Enzyme Linked Immunosorbent Assay (ELISA), utilizando-se
o kit comercial da INOVA Inc. (San Diego, CA, USA), conforme descrito
por Dieterich et al. ().
Foram considerados positivos valores superiores a 20 unidades.
IgA sérica
As concentrações de IgA sérica foram determinados
por turbidimetria (Behring, Alemanha).
Análise estatística
Os dados foram analisados com o software Statistica (Microsoft,
USA), utilizando-se o teste exato de Fisher.
Resultados
A triagem sorológica para DC utilizando-se os anticorpos
EmA e tTG foi realizado em 71 pacientes com SD e em 80 crianças
saudáveis.
Os resultados, tanto para os pacientes com SD como controles, são
mostrados na Figura 1. Uma positividade altamente significativa
do EmA-IgA (p = 0,021) e do anti-tTG (p < 0,001) foi observada
em pacientes com SD quando comparados aos controles. Cinco pacientes
com SD (7%; 5/71), quatro do sexo masculino e um do sexo feminino,
foram positivos para EmA-IgA, com títulos entre 1/5 a 1/80.
Catorze pacientes (17,5%; 14/71), sete meninos e sete meninas, apresentaram-se
positivos para anticorpos anti-tTG, com valores de 21 a 340 U/ml.
Cinco desses pacientes foram positivos também para os EmA-IgA
e os outros nove tiveram resultados positivos somente para os anticorpos
anti-tTG, apresentando valores limítrofes (Tabela 1).
Nenhum dos 80 controles apresentou resultados positivos para EmA-IgA
ou anti-tTG.
Figura 1 -
Anticorpos anti-endomísio (Ig-A-EmA) e anti-transglutaminase
(tTG) em pacientes com síndrome de Down e controles
Tabela 1 -
Anticorpos anti-endomísio (Ig-A-EmA) e anti-transglutaminase
(tTG), sintomas e aspectos histológicos em pacientes com SD
Entre os cinco pacientes positivos para os anticorpos EmA-IgA
e anti-tTG, três apresentaram sintomas clínicos como
diarréia, dor abdominal, anemia e problemas de crescimento
(Tabela 1). Quatro deles foram submetidos a endoscopia digestiva
alta seguida de biópsia do mucosa duodenal. Em todos eles
foram observados, na mucosa duodenal, aspectos histológicos
compatíveis com DC, sendo que três deles apresentaram
atrofia total vilositária e um deles atrofia parcial de vilosidade.
Apenas um paciente assintomático (EmA 1/5, anti tTg = 72
UI) não realizou endoscopia digestiva e posterior biópsia
duodenal. Dessa forma, a prevalência da DC confirmada entre
os pacientes com SD investigados foi de 5,6% (4/71).
Nenhum dos pacientes com SD e indivíduos controle apresentou
deficiência de IgA.
Discussão
Este é o primeiro estudo a demonstrar a prevalência
de DC em crianças com SD no Brasil. Nossos resultados confirmaram
o aumento da prevalência de DC entre pacientes com SD, já
relatada por vários estudos desenvolvidos na Europa, América
do Norte e Argentina ().
A prevalência de DC na população em geral nesses
países varia de 1:200 a 1:2.000 e entre pacientes com SD
pode ser de 20 a 200 vezes maior. No Brasil, a prevalência
de DC é estimada em 0,14% (1:687) na região centro-oeste
()
e 0,1% (1:1.000) na região sul ().
Embora nem todos os pacientes positivos para EmA de nosso estudo
tenham sido submetidos à biópsia intestinal, a prevalência
confirmada de pacientes com SD ainda assim foi alta (5,6%; 1:18)
quando comparada com a população em geral da mesma
área geográfica (1:1.000). Se levarmos em conta a
prevalência de DC diagnosticada através do EmA positivo,
essa prevalência é de 7%. O alto grau de associação
de DC com SD ainda não foi totalmente esclarecido, no entanto,
os portadores dessas afecções freqüentemente
apresentam disfunções imunológicas, ficanco
predispostos às doenças autoimunes, tais como doenças
da tireóide, diabetes melito tipo 1, lúpus e artrite
().
Além disso, essa associação pode estar relacionada
a marcadores genéticos comuns compartilhados. Já foi
demonstrado que portadores da SD com DC apresentam DC característica
associada aos antígenos leucocitários humanos de alto-risco
(HLA) DR3 e alelos DQ2 ().
Além disso, as desordens genéticas causadas pelo desequilíbrio
cromossômico podem estar relacionadas a uma maior expressão
da DC em pacientes com SD.
Diferentes estudos já demonstraram que o exame mais sensível
e específico para o diagnóstico da DC é a determinação
dos anticorpos EmA. Durante nossa pesquisa, cinco pacientes apresentaram
resultados positivos para os EmA-IgA (7%) e quatro deles foram submetidos
à biópsia duodenal. Todos os pacientes que realizaram
a biópsia intestinal mostraram manifestações
clínicas e alterações histológicas da
mucosa intestinal compatíveis com DC. O outro paciente com
EmA-IgA e anti tTG positivos, era assintomático e não
foi submetido à biópsia. É possível
que esse paciente tenha uma forma latente de DC e será monitorado
pelos clínicos. Assim, a triagem sorológica com o
EmA mostrou alta sensibilidade e especificidade para o diagnóstico
de DC nos pacientes deste estudo. Nossos resultados corroboram o
conceito amplamente aceito de que EmA-IgA é um teste de triagem
específico para a DC.
Os pacientes EmA negativo e anti-tTg positivo, que não foram
submetidos à biópsia duodenal, estão sendo
acompanhados. Alguns estudos mencionam que os anticorpos anti-tTg
podem estar positivos em outras doenças, tais como doenças
inflamatórias intestinais, doença hepática
crônica e diabetes melito ().
Além disso, a menor especificidade do anti-tTG pode estar
associada ao uso do extrato do fígado de porquinho da Índia
como antígeno no kit de ELISA. Recentemente, o uso da transglutaminase
tecidual como um antígeno purificado aumentou a especificidade
desse ensaio ().
Nos primeiros 2 anos de vida, a maioria dos pacientes com DC apresenta
sintomas clássicos e quando associados com a SD esse diagnóstico
quase sempre é postergado. Certas características
das crianças com SD, como abdômen distendido, e a tendência
a se considerar atraso no crescimento como conseqüência
natural da síndrome, podem ser responsáveis pela dificuldade
em se diagnosticar a DC nesses pacientes. Vários autores
consideram que a DC é subestimada como causa dos sintomas
de diarréia, desnutrição ou déficit
de desenvolvimento em pacientes com SD ().
A importância da investigação para DC em pacientes
com SD tem sido mostrada em estudos recentes, que recomendam a realização
de exames a cada dois anos, já que indivíduos jovens
com resultados negativos podem ser positivos alguns anos mais tarde
().
Os dados do presente estudo enfatizam o valor da investigação
da DC em pacientes com SD, uma vez que o diagnóstico correto
e precoce oferece melhor qualidade de vida ao paciente e a sua família.
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