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Introdução
Os distúrbios do sono são freqüentes na população
geral e podem ocorrer tanto em adultos como crianças, diferindo
somente na sua forma de apresentação. De uma maneira
geral, os distúrbios do sono podem ser divididos em três
grupos: dificuldade de manter o sono, sonolência excessiva
diurna e parassonias (). Neste artigo, temos como objetivo focalizar
a discussão na avaliação clínica e manejo
da insônia na faixa etária pediátrica.
Em estudo recente, utilizando como base de dados população
na faixa etária escolar, foram detectados distúrbios
do sono em 10,8% das entrevistas. Entretanto, menos da metade dos
pais que identificaram seus filhos como tendo problemas de sono
haviam discutido esse aspecto com o pediatra (). Esses achados podem
ser explicados tanto pelo fato dos pais não considerarem
os problemas de sono uma questão médica e, na maioria
das vezes, desconhecerem o que é considerado padrão
normal de sono, como também pelo fato de problemas de sono
serem pouco questionados e diagnosticados pelos médicos.
A valorização dos distúrbios do sono na infância
deve constituir uma das prioridades do atendimento pediátrico,
já que a persistência de distúrbios do sono
que iniciam na infância tem sido associada a problemas comportamentais
e emocionais na idade-escolar e adolescência ().
A insônia é definida como a dificuldade de iniciar
ou manter o sono e apresenta características diversas durante
o desenvolvimento. Na infância, mais do que redução
do tempo total em sono, observa-se uma discrepância entre
as necessidades de sono da criança e o padrão estabelecido
pela família (). A insônia pode ocorrer tanto em crianças
hígidas, como secundária a diversas doenças
orgânicas e emocionais. O reconhecimento da causa da insônia
é o primeiro passo para uma abordagem adequada, já
que essa situação possui características específicas
e distintas nas crianças e adolescentes, fazendo com que
o seu manejo difira do manejo habitual realizado em adultos.
Na literatura médica, são praticamente inexistentes
estudos que tenham sido desenhados para avaliar a prevalência
da insônia na faixa etária pediátrica. Entretanto,
alguns autores sugerem que a insônia primária pode
ser a causa de 3-41% dos distúrbios do sono em crianças ().
O objetivo deste artigo é discutir as características
clínicas, a investigação e o tratamento da
insônia na faixa etária pediátrica, através
de análise crítica da literatura disponível
sobre o tema.
Organização e padrão normal de sono do período neonatal à adolescência
A organização do sono varia de forma significativa
do período neonatal à adolescência ().
No recém-nascido (RN), a ciclagem do sono obedece a ritmo
ultradiano (< 24 horas, independente da noite/dia). Nos primeiros
meses de vida, inicia a consolidação do ritmo circadiano
(equivalente a 24 horas, dependente da noite/dia). Ao nascimento,
o RN apresenta períodos de 3-4 horas de sono contínuo,
intercalados por mais ou menos 1 hora de despertar. Esse ritmo ocorre
de forma contínua, independente do meio externo, isto é,
dia/noite ().
Durante o primeiro mês de vida, inicia a adaptação
do ciclo sono-vigília ao ciclo noite-dia. No final do primeiro
mês de vida, os períodos de sono noturno passam a ser
mais longos ().
Modificações estruturais importantes ocorrem na arquitetura
do sono durante o terceiro mês de vida. Nessa idade, o mais
longo período de sono ininterrupto geralmente não
ultrapassa 200 minutos e, em torno de 6 meses, não ultrapassa
6 horas. A noite é dividida em dois períodos contínuos
de sono, intercalada por um episódio de despertar. Durante
o dia, inicia a consolidação da vigília, porém
ainda interrompida por períodos de sono diurno. Entre 9-10
meses, o lactente dorme em média 9-10 horas por noite (com
interrupções) e 2-3 horas por dia, divididas em duas
sestas. Aos 12 meses, deve ocorrer consolidação do
sono noturno, permanecendo as sestas diurnas ().
Entre 2-3 anos de idade, persistem os longos períodos de
sono noturno ainda acompanhados de uma ou duas sestas diurnas (no
meio da manhã e no início da tarde), que passam a
ter menor duração, não ultrapassando um total
de 2 horas. Aos 3 anos, geralmente, ocorre somente a sesta da tarde.
O sono desenvolve-se durante a noite de forma cíclica, através
da alternância dos estágios NREM (sono quieto, com
ausência de movimentos oculares rápidos) e REM (sono
ativo com presença de movimentos oculares rápidos).
Breves períodos de despertar parcial ou total podem ocorrer
e são normais, devendo a criança voltar a dormir espontaneamente.
A partir dessa idade, a criança já atinge o percentual
adulto de sono REM, que ocupa em torno de 25% do tempo total em
sono ().
A partir dos 5 anos, o sono noturno já deve estar completamente
consolidado, não ocorrendo mais despertares noturnos ou necessidade
de sestas diurnas (). Somente entre 5 e 10 anos de idade passa
a ocorrer diminuição gradativa do tempo total em sono
noturno ().
Na pré-adolescência, observa-se, entre 11 a 13 anos,
duração do sono noturno em torno de 9 horas/noite.
Na adolescência, tende a ocorrer redução do
sono noturno (média de 7 horas), variando entre 8,6 a 6,4
dos 14 aos 16 anos (). Observa-se diferença nos dias com atividade
escolar e fins de semana, sendo que o aumento do tempo total de
sono nos fins de semana reflete a tendência à recuperação
da privação de sono ocorrida nos dias letivos ().
Causas de insônia
Segundo a Classificação Internacional dos Distúrbios
do Sono, a insônia classifica-se no grupo das dissonias, que
é subdividida em dissonias intrínsecas (narcolepsia,
síndrome da apnéia-hipopnéia obstrutiva do
sono, síndrome das pernas inquietas e insônia psicofisiológica)
e extrínsecas (insônia decorrente de estresse agudo
ou mudança ambiental, falha no estabelecimento de limites,
problemas de associação para iniciar sono, ingestão
excessiva de líquidos ou alimentação noturna,
higiene inadequada do sono, alterações do ritmo circadiano) ().
A caracterização da insônia depende de parâmetro
individualizado, segundo a necessidade de sono de cada criança,
a faixa etária e as atividades diárias ().
Existe uma discussão na literatura sobre se a classificação
da insônia como dissonia, proposta pela ASDA (American
Sleep Disorders Association) (),
pode ser aplicada à faixa etária pediátrica.
Alguns autores preferem classificá-la como protodissonia,
definição baseada no contexto da criança enquanto
ser em desenvolvimento ().
Em nossa opinião, a compreensão da insônia na
infância, como a situação onde ocorre dificuldade
para adormecer ou múltiplos despertares noturnos, fora do
padrão fisiológico esperado para cada faixa etária,
é mais didática e de fácil aplicação.
As causas mais comuns de insônia na infância estão
citadas na Tabela 1, descritas para fins didáticos em ordem
de ocorrência, de acordo com cada faixa etária ().
Tabela 1 -
Causas de insônia relacionadas à faixa etária
As doenças orgânicas, tanto crônicas como agudas,
podem causar insônia. As doenças agudas geralmente
causam insônia relacionada ao início do problema e
por tempo limitado à duração da enfermidade.
Entre os exemplos mais freqüentes, destacam-se as doenças
respiratórias, febre, otite, traumatismos, início
da dentição, alergia ao leite, refluxo gastroesofágico,
entre outros ().
As doenças crônicas podem causar insônia por
meio de mecanismos diversos, e o seu diagnóstico preciso
é fundamental no estabelecimento da terapia adequada. A Tabela
2 evidencia características clínicas e mecanismo de
algumas doenças crônicas associadas à insônia
na infância ().
Tabela 2 -
Doenças crônicas e
insônia
A insônia é mais freqüentemente causada por alterações
ambientais, comportamentais ou fatores psicológicos, os quais
serão discutidos a seguir.
Medo e ansiedade são causas freqüentes de insônia ().
O lactente pode apresentar variados graus de estresse ao ser separado
da mãe, acarretando em dificuldades para iniciar o sono.
Nas crianças entre 2-3 anos, é mais comum o medo.
O medo de ficar sozinho pode estar associado a filmes ou histórias,
ao fato de presenciar brigas entre os pais, à exposição
a filmes ou histórias violentas, ou qualquer outro evento
assustador. Menos freqüentemente, essa situação
é decorrente de problema de deterioração psicossocial
da própria criança (). Perda dos pais ou irmãos
e estresse pós-traumático são situações
freqüentemente associadas a alterações no sono
em crianças, assim como problemas em instituições
(creche, escola, clube), abuso/violência física ou
sexual (). Em adolescentes e pré-adolescentes, depressão
e ansiedade são causas freqüentes de insônia ().
A insônia secundária a hábitos e associações
inadequadas é caracterizada pela necessidade de receber estímulos
externos para iniciar o sono, tais como embalo ou balanço,
batidas nas costas, ficar no colo dos pais. Nos períodos
de despertar fisiológico noturno, a criança não
consegue voltar a dormir espontaneamente e necessita das mesmas
medidas indutoras de sono, ocorrendo então intenso e repetido
envolvimento dos pais durante a noite ().
A insônia associada ao hábito inadequado de ingestão
de líquidos ou alimentação excessiva noturna
ocorre pelo condicionamento da fome/sede durante a noite. A partir
dos 6 meses, excetuando os casos de prematuridade, o lactente não
tem mais necessidade de ser alimentado durante a noite. Quando a
lactação é mantida, ocorrem mais episódios
de despertar ().
A insônia por problemas de falta do estabelecimento de limites
pode ocorrer a partir do momento em que a criança adquire
habilidades motoras para sair do berço e os pais abdicam
do controle sobre as atividades noturnas de seus filhos (). As causas
da falta de limite estão relacionadas, na maioria das vezes,
a problemas dos pais, tais como inabilidade para estabelecer limites,
sentimento de culpa, problemas psicológicos, alcoolismo,
depressão materna, estresse familiar. Essa situação
também pode ocorrer associada a problemas intrínsecos
da criança, como eventual ganho secundário. Esse diagnóstico
envolve uma boa compreensão dos ritmos normais de sono/vigília
nas diferentes idades. Um dos problemas mais freqüentes é
o estabelecimento do horário de dormir antes da hora adequada,
em período de intensa vigília, o que faz com que a
criança permaneça deitada sem sono (porque dentro
do seu ritmo interno é cedo para isso) ().
Foi também observado que crianças em idade pré-escolar
que continuam utilizando co-leito, isto é, dormem na cama
dos pais, apresentam maior prevalência de distúrbios
do sono (despertares mais freqüentes, atraso para iniciar o
sono) e problemas comportamentais (menor capacidade de adaptação) ().
Os distúrbios do sono decorrentes de falta de rotina/limites
tendem a piorar na transição da infância para
pré-adolescência e adolescência. Isso ocorre
porque o jovem se torna mais independente e o controle dos pais
diminui, principalmente nos fins de semana ().
A insônia decorrente a alterações do ritmo
circadiano, denominada atraso de fase, ocorre com maior freqüência
na adolescência. O quadro inicia com a tendência a iniciar
a dormir cada dia mais tarde (em fins de semana ou férias)
e, conseqüentemente, acordar mais tarde. Essa situação,
muitas vezes, resulta de alterações fisiológicas
que ocorrem no ritmo circadiano durante a puberdade. O sintoma inicial
é a dificuldade para acordar de manhã em horário
rotineiro, com cochilos à tarde ao voltar da escola ().
É importante, na avaliação do adolescente com
distúrbios do sono, levar em consideração a
variabilidade individual (indivíduo matutino versus vespertino),
a possibilidade de privação global de sono (freqüentemente
associada ao atraso de fase com rigidez do horário escolar)
e a insônia secundária a distúrbios emocionais ().
A síndrome das pernas inquietas é uma doença
autossômica dominante, de etiologia ainda não claramente
definida, caracterizada por sensação de desconforto
nas pernas. Esse desconforto faz com que o indivíduo movimente
as pernas durante o repouso, causando interrupções
do sono (). Em estudo recentemente publicado, foi verificado que crianças
podem apresentar esses sintomas a partir do primeiro ano de vida,
sendo que o diagnóstico definitivo, realizado através
de estudo polissonográfico, é muitas vezes postergado
por falta de reconhecimento da situação ().
As parassonias, distúrbios do sono caracterizados por alterações
motoras e/ou comportamentais associadas ao despertar parcial, também
podem ser responsáveis por interrupções do
sono como, por exemplo: sonambulismo, despertar confusional, terror
noturno, bruxismo, etc. ().
Na avaliação etiológica da insônia,
precisamos aprender a valorizar e investigar os aspectos emocionais
tão sistematicamente quanto fazemos em relação
aos aspectos orgânicos. O diagnostico das situações
de origem psicológica não deve ocorrer apenas por
exclusão, ou seja, de forma passiva. O diagnóstico
psicológico deve ser tão ativo quanto o orgânico.
O pediatra deve estar apto a compreender que os distúrbios
do sono podem ser sintomas de perturbações presentes
no mundo interno ou externo da criança ou da família.
Sabe-se, também, que a ansiedade, dentro dos distúrbios
psiquiátricos, é o que apresenta maior correlação
com distúrbios do sono na infância ().
Inicialmente, o pediatra deverá saber fazer o diagnóstico
diferencial das angústias (). Esse diagnóstico é
subdividido em angústia circunstancial, existencial e patológica.
A angústia circunstancial é aquela que ocorre em várias
experiências do ser humano ao longo de sua vida, tais como:
doenças, guerras, catástrofes, perda de entes queridos,
escolha de método para a educação dos filhos,
entre outras. A angústia existencial é caracterizada
por situações que nos desviam do nosso projeto de
vida, ou seja, daquilo que desejamos ser. São mais raras
de acontecer na infância, porém encontramos alguns
casos onde as expectativas da família e da sociedade impressas
na criança geram tais angústias (). A angústia
patológica é gerada por uma distorção
da realidade baseada em um referencial do seu mundo interno ().
Insônia e outras comorbidades
Os distúrbios do sono ocorrem de forma freqüente em
crianças com distúrbios psiquiátricos. A insônia
pode ocorrer em torno de 2/3 dos pacientes pediátricos com
depressão e geralmente é um dos sintomas iniciais
do quadro clínico. No distúrbio bipolar, observa-se
uma diminuição significativa na necessidade de dormir.
Em casos de abuso ou estresse pós-traumático, observa-se
dificuldade para iniciar e manter o sono e pesadelos freqüentes ().
A associação entre distúrbios do sono e ansiedade/depressão
na infância foi claramente observada (com razão de
chances de 6,9) em estudo realizado com coorte de RN avaliados entre
6 a 11 anos de idade ().
O uso de drogas ilícitas na adolescência, problema
crescente de saúde pública em nossa sociedade, também
pode causar alterações no sono. A insônia é
um achado freqüente em adolescentes que abusam de álcool,
outras drogas ilícitas, nicotina e cafeína (). Medicamentos
tais como broncodilatadores, antidepressivos e estimulantes também
podem levar à insônia ().
A associação entre distúrbios do sono e transtorno
do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH)
é bastante conhecida e pode ocorrer em torno de 50-60% dos
casos. Observa-se, nessas crianças, fragmentação
e dificuldade para iniciar o sono (). Sinais precoces de TDAH envolvem
a presença de distúrbios do sono na fase de lactação ().
A comorbidade entre insônia e cefaléia tem sido observada
tanto em adultos como em crianças ().
Manejo da criança com insônia
Quando uma família procura um profissional com a queixa
de que seu filho não dorme, sem sombra de dúvida devemos
investigar sua condição física para afastar
qualquer alteração dessa ordem. Mas, já na
primeira consulta, a anamnese deverá ser completa, isto é,
considerar que a criança é corpo e mente e que as
experiências pessoais e familiares do dia-a-dia têm
uma grande influência em seu comportamento, sendo o sono uma
das formas de sua manifestação ().
O manejo da insônia deve seguir uma rotina de investigação
().
Baseados na literatura e em nossa experiência pessoal, e de
forma a tornar mais didática a exposição a
seguir, sugerimos dividir o manejo da insônia em etapas. Na
prática clínica, essas etapas são interdependentes
e muitas vezes utilizadas de forma associada ()
(Tabela 3).
Tabela 3 -
Manejo da insônia
Etapa 1 - Rotina diagnóstica para definir a causa da
insônia
Para estabelecer o diagnóstico da insônia, é
necessária a coleta de história dirigida ao problema
do sono, incluindo relato de como a criança dorme habitualmente,
rituais pré-sono, as associações para induzir
o sono e o ritmo sono/vigília nas 24 horas. A seguir, deve-se
pesquisar dados sobre o distúrbio do sono propriamente dito,
sua descrição clínica, caracterizar o início
e possíveis associações, além de coletar
informações sobre o ambiente onde a criança
dorme. O perfil psicossocial da família e a história
familiar de distúrbios do sono devem ser questionados. O
restante da anamnese tradicional e exame físico completo
devem ser realizados para afastar problemas orgânicos, agudos
ou crônicos, que possam estar desencadeando o distúrbio
do sono ().
Etapa 2 - Tratamento direto ou remoção da causa
da insônia
Em caso de doenças crônicas ou agudas, tratar a causa.
Quando são identificados fatores ambientais levando à
insônia, devem ser corrigidos ou removidos (ver higiene do
sono).
Etapa 3 - Higiene do sono
A higiene do sono refere-se ao estabelecimento e manutenção
de condições adequadas a um sono saudável e
efetivo. Esse processo envolve uma lista de comportamentos e condições
ambientais que per se podem resolver a maioria dos casos
de insônia ().
Orientações sobre higiene do sono devem ser discutidas
com os pais, desde os primeiros meses de vida, nas consultas de
puericultura. Essa ação, na maioria das vezes, previne
o desenvolvimento de distúrbios do sono. Uma adequada higiene
do sono relaciona-se a três aspectos fundamentais: ambiente,
horário e atividades prévias ao sono. O ambiente do
sono deve ser escuro ou ter pouca luminosidade, silencioso e com
temperatura adequada (evitar frio e excesso de aquecimento). Os
horários de dormir e acordar devem ser consistentes e regulares.
Os horários de sesta durante o dia devem ser adequados para
a idade e sempre regulares e consistentes. A rotina de atividades
antes de dormir deve ser consistente (exemplo: banho, jantar, escovar
dentes, colocar pijamas, ir ao banheiro, música calma ou
história suaves). O método de colocar a criança
na cama também deve ser consistente, podendo-se utilizar
os chamados objetos de transição: algum brinquedo,
boneca, fralda predileta, etc. Devem ser evitadas atividades físicas
vigorosas antes de dormir, programas de TV ou histórias que
possam atemorizar a criança. Deve-se evitar colocar a criança
acordada na cama antes do horário previsto para dormir ().
A manutenção de rotinas e o estabelecimento de limites
auxiliam a criança a sincronizar seu ritmo circadiano com
o do ambiente familiar ().
Quando a anamnese sugere que existem hábitos de sono e associações
inadequadas, por exemplo, crianças que necessitam de estimulação
para dormir que conta com envolvimento direto dos pais, estes devem
ser treinados para tentar fazer a criança gradativamente
tornar a dormir diretamente no berço, utilizando seus objetos
de transição e diminuindo a necessidade da intervenção
externa. Quando a criança é treinada a dormir sozinha,
ao acordar durante a noite, a tendência é que ela volte
a dormir sozinha. Quando ocorre o contrário, a presença
dos pais é imprescindível ().
Quando a insônia está relacionada ao padrão
de alimentação noturno inadequado para a faixa etária,
a solução é reduzir gradativamente a oferta
de alimentação noturna de forma a descondicionar esse
hábito ().
Nos casos de medo e ansiedade, o principal objetivo é identificar
a causa e removê-la, e após tentar fazer a criança
retornar gradativamente a dormir sozinha. Postergar o horário
de dormir para o momento em que a criança fica sonolenta
também pode resolver esse problema (). Nas situações
onde o pediatra optar pelo encaminhamento do paciente, deve deixar
claro sua suspeita diagnóstica e seu limite de atuação
na área. Dessa forma, o encaminhamento terá êxito ().
Não é admissível que o motivo da referência
pertença ao pensamento binário de que aquilo que não
é orgânico deve ser psicológico. A exemplo dos
diagnósticos puramente orgânicos, muitas vezes são
necessárias mais de uma consulta para se fazer o diagnóstico
completo de um distúrbio do sono. Em nossa opinião,
nos dois tipos de angústias, circunstancial e existencial,
o próprio pediatra poderia conduzir os casos com sucesso.
Para isso, é necessário haver disponibilidade para
receber e ouvir a família e a criança.
Nos casos de atraso de fase, que ocorrem mais especificamente na
adolescência, a conduta é estabilizar gradualmente
o horário de sono, devendo o paciente dormir 15 minutos mais
cedo a cada noite, até atingir o horário compatível
com as atividades diárias (). O horário de dormir/acordar
deve ser mantido o mais estável possível, incluindo
os períodos de fim de semana. Também é recomendado
evitar ingestão de cafeína ().
Etapa 4 - Abordagem comportamental
A abordagem comportamental da insônia em crianças
tem sido bastante discutida, e diversos estudos foram publicados
nos últimos anos abordando esses aspectos (). Após
os 2 anos de idade, quando é possível estabelecer
um sistema de recompensas com a criança, essa técnica
parece ser bastante efetiva. Antes disso, sua aplicação
e eficácia ainda são controversas.
A abordagem comportamental baseia-se na compreensão do distúrbio
do sono, envolvendo um diagnóstico familiar e da criança.
Os programas apresentados a seguir somente podem ser utilizados
em crianças que não estejam apresentando doenças
agudas e que não sejam portadoras de doenças crônicas
que afetam o sono.
Técnicas executadas pelos pais sob orientação
do pediatra ()
a) Extinção sistemática: este procedimento
inicia com uma curta rotina pré-sono e colocação
da criança na cama no horário pré-estabelecido.
Os pais despedem-se e saem do quarto, independente do choro e protestos,
não devendo retornar até a próxima manhã
(exceto se acharem que a criança possa estar em situação
de perigo). A vantagem do método é a rápida
resposta, geralmente após a terceira noite, se os pais forem
consistentes na sua postura. A desvantagem é a dificuldade
que os pais apresentam em manter a postura de deixar a criança
chorando e não entrar no quarto.
b) Checagem mínima com extinção sistemática:
o procedimento é semelhante ao anterior. Entretanto, nesta
técnica, os pais podem checar as condições
da criança regularmente, a cada 5-10 minutos, caso ela persista
chorando. A intervenção deve ser breve (arrumar cobertas,
assegurar que está tudo bem, passar a mão na cabeça).
A vantagem desse método é deixar os pais mais tranqüilos
e a desvantagem é que geralmente a criança intensifica
o choro no momento que os pais entram no quarto.
c) Extinção gradual: estabelecer rotina pré-sono
e horário de dormir, colocar criança na cama e sair.
Estabeleça um tempo para retornar ao quarto caso a criança
continue chorando (3 minutos, no mínimo, na primeira noite),
retornar ao quarto com intervenção mínima,
sair e somente retornar após 3 minutos. A cada noite aumentar
o tempo para retornar ao quarto.
d) Ignorar sistemático com um dos pais presente: a rotina
de iniciar o sono é semelhante às técnicas
anteriormente descritas. Entretanto, um dos pais permanece no quarto
da criança em cama separada e fica deitado até que
a criança pare de chorar e durma. Pode então retornar
ao seu quarto. Em caso de novo despertar, deve retornar ao quarto
da criança e novamente deitar na cama separada, não
realizando nenhuma intervenção. Nesta técnica,
é importante que a criança perceba que um dos pais
está no quarto. Sendo assim, deve haver um pouco de iluminação.
As vantagens deste programa são diminuir a ansiedade dos
pais e o choro da criança. É indicado em crianças
onde a causa da insônia é a angústia da separação.
A desvantagem ocorre com pais resistentes a mudarem seus hábitos
próprios de sono.
e) Ignorar sistemático gradual: os pais devem calcular o
tempo que ficam com a criança para que ela adormeça
após cada despertar. Esse tempo deve ser gradualmente reduzido.
Este programa é adequado para os pais que preferem fazer
uma abordagem mais gradual.
f) Extinção ou ignorar sistemático: os pais
entram no quarto no início do choro, checam se está
tudo bem, trocam fraldas se necessário, não tiram
a criança do berço e saem do quarto ignorando o restante
do episódio de choro.
g) Extinção modificada: consiste em ignorar o choro/despertar
por 20 minutos, entrar no quarto para checar se existe algum problema
real, não interagir com a criança e sair. Deve-se
demorar, no mínimo, mais 20 minutos para entrar novamente
no quarto.
h) Despertar programado: consiste em acordar parcialmente a criança
com mínima estimulação, previamente ao seu
despertar espontâneo, deixando-a dormir novamente espontaneamente.
i) Reorganização do horário de dormir: não
forçar um horário pré-estabelecido para início
do sono. Observar a média de horário que a criança
dorme espontaneamente, tentar reduzir esse horário em 15
minutos a cada 3 dias, até que a criança passe a dormir
espontaneamente, em horário que esteja de acordo com a rotina
da família.
As técnicas de abordagem comportamental, aplicadas pelos
pais, são efetivas tanto a curto como a longo prazo. Não
parece haver diferença significativa entre elas, por isso
a escolha deve ser baseada, principalmente, na aceitação
e aderência dos pais ().
Uma recente meta-análise comparando estudos que utilizaram
abordagem comportamental no tratamento da insônia pediátrica
evidenciou que o sucesso do procedimento depende da compreensão
e aderência dos pais ().
Terapias executadas por profissionais qualificados
a) Psicoterapia: fortemente indicada quando se observa associação
do distúrbio do sono e ansiedade patológica. Consegue
estabelecer, de forma organizada, um processo de busca do indivíduo,
promovendo o desbloqueio e a aceleração do desenvolvimento
psicológico ().
b) Terapia cognitiva comportamental (TCC): a TCC baseia-se no modelo
cognitivo (função da consciência, que envolve
deduções sobre experiências pessoais e sobre
a ocorrência e controle dos eventos da vida) e trabalha com
a hipótese de que as emoções e o comportamento
do indivíduo são influenciados pela sua percepção
dos eventos. Identifica três níveis de cognição:
o pensamento automático, as crenças intermediárias
e as crenças centrais e equaciona as distorções
do paciente, guiando as estratégias terapêuticas que
serão aplicadas (). Como a insônia, na maior parte das
vezes, está associada a pensamentos negativos ou inapropriados,
a reestruturação cognitiva pode auxiliar na revisão
dos pensamentos que interferem com o sono (). Esta técnica
vem sendo utilizada com sucesso no manejo da insônia em adultos
e é recomendada pela Academia Americana de Medicina do Sono,
parecendo ter eficácia superior frente a outras técnicas
não-farmacológicas (). A experiência com a
TCC no manejo da insônia pediátrica ainda é
restrita. Entretanto, ela já vem sendo realizada com sucesso
no manejo da ansiedade (). A TCC inclui técnicas de condicionamento
clássico, condicionamento operante, cognitivas, comportamentais
e de aprendizagem social (). A aplicação da TCC deve
ser feita por profissional com formação específica
na área e com experiência no manejo pediátrico.
Etapa 5 - Terapia farmacológica
A terapêutica medicamentosa da insônia na infância
é bastante restrita. Os fármacos utilizados no manejo
da insônia do adulto pertencem ao grupo dos hipnóticos
benzodiazepínicos ou não-benzodiazepínicos
(tais como zolpidem, zaleplon e zopiclona). Essas medicações
não estão indicadas para uso em Pediatria, e não
existem estudos mostrando sua eficácia ou segurança
em crianças (). Entretanto, chama atenção
a alta prevalência de abordagem farmacológica em crianças
com insônia, detectada em estudo espanhol (em torno de 56%
da amostra) ().
O uso de terapia farmacológica alternativa, baseada em extrato
de plantas naturais indutoras de sono, tais como valeriana, passiflora
e aminoácidos (5-hidroxitriptofano), tem sido descrito de
forma anedótica em casos isolados (). No entanto, até
o momento não existem estudos controlados demonstrando sua
real eficácia e segurança.
A opção de utilizar fármacos no tratamento
da insônia em crianças deve ocorrer em casos muito
bem selecionados, após o diagnóstico da causa da insônia
e como coadjuvante de alguma das outras técnicas comportamentais
acima discutidas. As opções disponíveis nessa
faixa etária são limitadas a dois grupos de medicação:
anti-histamínicos ou hidrato de cloral, lembrando que o seu
uso deve ocorrer de forma transitória, nas primeiras 3 semanas
de utilização das técnicas comportamentais ().
Os anti-histamínicos mais freqüentemente utilizados
nos estudos controlados disponíveis na literatura são
a difenidramina, (0,5 mg /kg) o trimeprazine (30-60 mg/ dia) ou
o niaprazine (). Os efeitos colaterais (sedação,
sede) do uso desse grupo farmacológico devem ser levados
em consideração quando da sua prescrição.
O hidrato de cloral é um sedativo hipnótico freqüentemente
prescrito para adultos e crianças. Pode ser utilizado por
via oral ou retal em doses de 25-50 mg/kg/dose. Dosagens excessivas
podem levar à depressão respiratória e arritmias ().
Seu uso de forma crônica é totalmente desaconselhado.
Antidepressivos tricíclicos (imipramina) parecem ter bom
resultado no tratamento de insônia associada ao TDAH, assim
como inibidores da recaptação de serotonina (fluoxetina)
atuam na insônia associada à síndrome de Asperger
ou ao transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) ().
Em crianças com insônia e cefaléia, existe
relato de melhora do quadro com o uso de clonidina 0,025-0,075 mg
antes de deitar ().
O clonazepan, agente benzodiazepínico, está indicado
para o controle de insônia causada por parassonias com despertar
parcial (terror noturno, despertar confusional) na dosagem de 0,25-0,50
mg ().
A melatonina, substância orgânica produzida pela glândula
pineal, tem sua secreção controlada por sistema endógeno
sincronizado com o ambiente externo (luz/dia). Os níveis
orgânicos de melatonina são altos quando está
escuro, e baixos no claro. Sua síntese, disponível
em formulação para uso por via oral, é uma
opção terapêutica utilizada na insônia
de adultos e também pode ser utilizada tanto em crianças
normais como em crianças com deficiências neurológicas ().
Em recente estudo, a melatonina na dose de 5 mg/dia foi eficaz na
redução dos sintomas de insônia em crianças
com idade entre 6 e 12 anos ().
A Tabela 4 resume as indicações/opções
para tratamento farmacológico da insônia ().
Tabela 4 -
Terapia farmacológica da
insônia
Estudos controlados, com seguimento em longo prazo, de tratamento
da insônia em pacientes pediátricos são raros.
A revisão da literatura sugere que a terapia farmacológica
na infância é efetiva somente a curto prazo. As intervenções
comportamentais, conduzidas por terapeuta experiente, são
mais efetivas que o tratamento medicamentoso, a curto e longo prazo ().
Considerações gerais sobre o impacto da insônia nas funções neurocognitivas
Recentemente, tem sido bastante discutido nos meios de comunicação,
a questão da influência dos distúrbios do sono
nas funções neurocognitivas. Crianças com sono
difícil ou perturbado parecem apresentar maior incidência
de problemas comportamentais (ansiedade, hiperatividade, sintomas
depressivos) (). Crianças com transtorno do déficit
de atenção apresentam maior incidência de queixas
relativas a problemas de sono (). Os resultados desses estudos, devido
a limitações em seus desenhos, devem ser encarados
de forma crítica ().
Diversos estudos foram realizados com crianças que apresentam
síndrome da apnéia-hipopnéia obstrutiva do
sono, e os resultados demonstram que o não tratamento dessa
situação é responsável por alterações
sistêmicas significativas, tais como hipertensão pulmonar
e hipertensão arterial, assim como alterações
comportamentais (hiperatividade) e dificuldades escolares ().
Em conclusão, podemos observar que a queixa de distúrbios
do sono geralmente não é considerada pelos pais uma
questão médica. A anamnese pediátrica de rotina
geralmente não questiona aspectos do sono, o que talvez ocorra
pelo pouco enfoque e treinamento que se dá a esse tema na
formação médica. É função
do pediatra conhecer o padrão normal de sono para cada faixa
etária e estar atento para não superestimar a queixa,
pois isso geralmente resulta em exames, medicações
e encaminhamentos desnecessários a especialistas. A insônia
é uma queixa prevalente na infância e deve ser sempre
valorizada, pois pode sinalizar problemas clínicos e comportamentais
que terão repercussão no desenvolvimento da criança.
Como pode incidir do lactente ao adolescente e sua manifestação
clínica apresenta formas diversas, é freqüente
o subdiagnóstico. O correto reconhecimento dos sintomas e
o diagnóstico etiológico possibilitam o estabelecimento
de manejo individualizado adequado.
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