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A cárie dentária permanece como a doença infecciosa
mais comum em crianças, estimando-se que, nos Estados Unidos,
tenha uma prevalência cinco vezes maior que a da asma e sete
vezes maior que a da rinite alérgica ().
É uma doença prevenível, e sua prevenção
inicia-se no consultório pediátrico ().
Embora o pediatra seja o principal responsável pela promoção
da saúde oral da criança, poucos artigos científicos
com foco nesse assunto têm sido publicados em revistas pediátricas
().
A cárie é uma doença infecciosa induzida pela
dieta e, apesar do declínio mundial em todas as idades, em
especial pela utilização do flúor, sua prevalência
permanece estável na dentição decídua
(),
ou seja, no grupo de 20 dentes que se formam entre 12 e 18 semanas
de vida intra-uterina e erupcionam, em média, entre 7 e 30
meses de idade ().
Persiste como um sério problema de saúde pública,
e o seu controle deve ser prioridade, pois pode levar à má-oclusão
dos dentes permanentes, causar problemas fonéticos e diminuição
da auto-estima ().
Também foi demonstrado que a cárie dentária
pode diminuir de forma progressiva o ganho de peso da criança,
o qual poderia ser revertido após uma completa reabilitação
bucal ().
A prevalência da cárie na população
em geral é incerta, pois diferenças metodológicas
têm gerado dificuldade para comparar os vários estudos
entre si ().
No Brasil, o Projeto de Saúde Bucal - 2003 mostrou que 27%
das crianças de 18 a 36 meses e quase 60% das crianças
de 5 anos de idade apresentavam pelo menos um dente decíduo
cariado. Em média, uma criança brasileira com até
3 anos de idade já possui, no mínimo, um dente com
experiência de cárie; aos 5 anos, esse valor aumenta
para quase três dentes. Grandes diversidades regionais são
percebidas em todas as idades, com as regiões Norte e Nordeste
apresentando percentuais de dentes hígidos inferiores quando
comparados com as regiões Sul e Sudeste ().
Na odontologia, é quase um consenso que o aleitamento materno
em livre demanda, especialmente à noite e com duração
prolongada, provoque cárie ().
De modo semelhante, na pediatria, já existem publicações
adotando essa mesma posição ().
A Academia Americana de Odontopediatria (AAPD) declarava haver um
risco potencial devastador de cárie por aleitamento para
crianças alimentadas ao seio e com mamadeira, estando este
risco relacionado à alimentação prolongada
e repetitiva sem o acompanhamento de medidas de higienização
oral apropriadas, sendo os pais encorajados a oferecer líquidos
em copo para o seu filho próximo ao seu primeiro aniversário
e a retirar a mamadeira entre 12 e 14 meses de idade ().
Sem definição precisa, os termos "exposição
prolongada" e "desmame" tiveram interpretações
diversas, culminando com os odontologistas aconselhando o desmame,
inclusive do leite materno, antes de 1 ano de idade. Ao desencorajarem
o aleitamento materno prolongado e em livre demanda (),
esses profissionais desconsideram todas as vantagens já bem
documentadas do aleitamento materno e a recomendação
da Organização Mundial de Saúde (OMS) de manutenção
da amamentação até os 2 anos ou mais ().
Do mesmo modo, a Academia Americana de Pediatria considera que as
crianças que dormem com mamadeira ou mamam no peito durante
a noite são de alto risco à cárie ().
Em razão disso, a presumível cariogenicidade do leite
materno é assunto de significativa importância, porque
este, juntamente com seus substitutos lácteos, é a
principal fonte nutritiva nos primeiros anos de vida ().
No presente artigo, os autores apresentam uma revisão da
literatura sobre o tema, analisando os vários estudos epidemiológicos
que investigaram uma possível relação entre
aleitamento materno e cárie.
Conceituação
A expressão early childhood caries, traduzida para
a língua portuguesa como cárie do lactente e do pré-escolar
(CLPE), é atualmente utilizada em substituição
às expressões cárie da mamadeira e cárie
do aleitamento materno ().
A literatura não apresenta uma definição universalmente
aceita para a CLPE (),
porém a AAPD considera CLPE como a presença de qualquer
superfície de dente decíduo cariada (cavitada ou não)
ou perdida (devido à cárie) ou obturada em crianças
menores de 6 anos de idade. Com essa conceituação,
adotou-se a expressão cárie severa do lactente e do
pré-escolar (CSLPE) em substituição à
cárie rampante quando na presença de pelo menos um
dos seguintes critérios: a) qualquer sinal de cárie
em superfície lisa em crianças menores de 3 anos de
idade; b) qualquer superfície lisa de dente decíduo
ântero-superior cariada ou perdida (devido à cárie)
ou obturada, em crianças dos 3 aos 5 anos; c) índice
de superfície cariada, perdida ou obturada (ceo-s) igual
ou superior a 4 aos 3 anos, a 5 aos 4 anos e a 6 aos 5 anos (29).
Diferentemente dessa definição, a OMS não considera
a presença de lesões não-cavitadas na composição
do índice ceo-s ().
Etiologia
A cárie é considerada uma doença infecto-contagiosa,
multifatorial, desencadeada por três fatores individuais primários:
microorganismos cariogênicos, substrato cariogênico
e hospedeiro (ou dente) suscetível ().
Esses fatores interagem num determinado período de tempo,
levando a um desequilíbrio no processo de desmineralização
e remineralização entre a superfície dentária
e a placa (biofilme) adjacente ().
Microorganismos cariogênicos
Os principais microorganismos causadores da cárie são
os estreptococos do grupo mutans, especialmente o Streptococcus
mutans e o Streptococcus sobrinus ().
Esses patógenos são capazes de colonizar a superfície
do dente e produzir ácidos em velocidade superior à
capacidade de neutralização do biofilme em ambiente
abaixo do pH crítico (menor que 5,5), permitindo a dissolução
do esmalte ().
O principal reservatório dos estreptococos do grupo mutans
é a cavidade oral, e a infecção da criança
depende do nível de infecção da mãe
ou da pessoa que mais tiver contato com ela (,).
Foram também descritas transmissões horizontais em
berçários de creches e intrafamiliares ().
A gravidade da CLPE está diretamente relacionada à
precocidade da instalação dos estreptococos do grupo
mutans na criança ().
Admite-se que essas bactérias necessitem de superfícies
não-descamativas para colonizar, porque sua positividade
aumenta com o número de dentes erupcionados e com a idade
().
No período denominado "janela de infectividade",
o qual corresponde à erupção dos incisivos
inferiores (6 meses) e dos molares superiores (24 meses), há
maior aquisição de estreptococos ().
Outros microorganismos envolvidos, como os lactobacilos, encontram-se
associados à progressão de uma lesão já
instalada, e não à iniciação da cárie
propriamente dita ().
Dieta cariogênica
A sacarose é o alimento cariogênico mais importante
e mais amplamente utilizado pelo homem. Tem o poder de transformar
alimentos não-cariogênicos e anticariogênicos
em cariogênicos ().
Outros açúcares envolvidos na cariogênese são
a glicose e a frutose, encontrados no mel e nas frutas ().
Uma simples exposição aos alimentos cariogênicos
não é fator de risco para cárie, e sim o freqüente
e prolongado contato desses substratos com os dentes ().
Hospedeiro suscetível
Os fatores de risco do hospedeiro para o desenvolvimento de cáries
são: esmalte pós-eruptivo ainda imaturo; presença
de defeitos no esmalte, caracterizados especialmente pela hipoplasia
();
morfologia e características genéticas do próprio
dente (tamanho, superfície, profundidade de fossas e fissuras);
e apinhamento dentário ().
A saliva é o principal sistema de defesa do hospedeiro contra
a cárie, removendo alimentos e bactérias, mantendo
um sistema tampão contra os ácidos produzidos, sendo
um reservatório mineral de cálcio e fosfato (necessários
para a remineralização do esmalte) e possuindo substâncias
antibacterianas ().
As situações individuais que diminuem o fluxo salivar
e, conseqüentemente, sua capacidade tampão, tal como
ocorre durante o sono das crianças, aumentam a suscetibilidade
do dente à cárie ().
A manutenção constante do flúor na cavidade
bucal é importante para a resistência do esmalte, interferindo
na dinâmica do processo de cárie, reduzindo a quantidade
de minerais perdidos durante a desmineralização e
ativando a resposta na remineralização ().
Na realidade, o flúor não impede o surgimento da cárie,
mas é extremamente eficiente em reduzir a sua progressão,
devendo ser enfatizado o controle da placa dental e da dieta para
maximizar o efeito desse mineral. A freqüência diária
de escovação dentária com dentifrício
fluoretado e a escovação antes de dormir são
importantes medidas para o controle da doença, pois mantêm
a concentração de flúor na saliva por um período
maior ().
Assim, a cárie começa com a infecção
primária pelos estreptococos, seguida pelo acúmulo
destes dentro do biofilme em concentrações patogênicas,
secundária à exposição freqüente
e prolongada a uma dieta cariogênica. Por fim, a fermentação
de açúcares pelos estreptococos no interior da placa
dental causa a desmineralização do esmalte, resultando
na cavitação das estruturas dentárias ().
O processo da cárie inicia-se pela descalcificação
nos incisivos superiores decíduos logo após a sua
erupção, atingindo os molares e caninos decíduos
se nenhum controle for realizado ().
Enquanto os quatro dentes incisivos superiores decíduos são
os mais afetados na CLPE, os incisivos inferiores permanecem íntegros
porque são protegidos pela língua e banhados pela
saliva das glândulas submandibulares (),
conforme observado na Figura 1.
Figura 1 -
Padrão típico de cárie do lactente e do
pré-escolar acometendo extensamente os dentes superiores
e molares inferiores, sem afetar os dentes ântero-inferiores.
Presença de abscesso em incisivo central superior direito
decíduo. (Foto: cortesia Brian Palmer, DDS).
Fatores de risco associados
A CLPE é uma doença mais comumente encontrada em crianças
que vivem na pobreza ou em condições de carência
econômica (),
que fazem parte de minorias étnicas e raciais (),
filhos de mães solteiras ()
e de pais com menor escolaridade, em especial de mães analfabetas
().
Nessa população, a má nutrição
ou a subnutrição pré- e perinatal são
causas de hipoplasia do esmalte, a higiene oral normalmente é
deficiente, provavelmente a exposição ao flúor
é insuficiente (),
e há maior preferência por alimentos com açúcar
().
Várias doenças estão associadas com a CLPE,
entre elas má nutrição (),
asma, infecções de repetição, doenças
crônicas e uso de medicamentos ().
A má nutrição pode causar o aparecimento de
hipoplasia do esmalte e, do mesmo modo que a anemia por deficiência
de ferro, pode levar à redução da secreção
salivar e da sua capacidade de tamponamento ().
A desnutrição infantil ainda é um importante
problema no Brasil, especialmente nas Regiões Norte e Nordeste
(),
o que poderia contribuir para que, nessas regiões, a proporção
de dentes cariados seja sensivelmente mais alta. A média
do índice ceo-d (número de dentes decíduos
cariados, extraídos ou com extração indicados
e obturados) aos 5 anos na Região Norte é cerca de
27% maior que a média da Região Sudeste ().
Também foi observado que a dieta do lactente brasileiro é
deficiente em ferro, monótona, com utilização
freqüente de biscoitos, espessantes, salgadinhos e açúcar
(),
caracteristicamente alimentos de alta cariogenicidade.
O baixo peso ao nascer, incluindo a prematuridade, além
de predispor ao aparecimento de hipoplasia do esmalte e alterações
salivares (),
favorece níveis elevados de colonização pelos
estreptococos ().
Nesses recém-nascidos, os defeitos do esmalte encontram-se
associados a enfermidades gestacionais, tais como infecção
materna, desordens metabólicas (hipoxemia, deficiências
nutricionais, hipocalcemia) e à realização
de procedimentos médicos (laringoscopia e intubação
endotraqueal) ().
No lactente, a presença de infecções, desordens
metabólicas, toxicidade química e doenças hereditárias
também é causa do aparecimento de hipoplasia do esmalte
().
A gravidade da CLPE aumenta com a gravidade da asma brônquica,
tendo como principais causas o uso de medicamentos beta2-agonistas,
os quais diminuem a secreção salivar, e o fato dos
inaladores em pó e medicamentos orais possuírem açúcar
em sua formulação ().
Outras situações que diminuem o fluxo salivar e predispõem
ao aparecimento de cárie são o diabetes melito e o
uso de outros medicamentos, como anti-histamínicos, benzodiazepínicos,
antieméticos, expectorantes e antiespasmódicos ().
Bicos, chupetas e mamadeiras
A mamadeira é um fator predisponente para CLPE porque seu
bico bloqueia o acesso da saliva aos incisivos superiores, ao passo
que os incisivos inferiores ficam próximos às principais
glândulas salivares e são protegidos do conteúdo
líquido pelo próprio bico e pela língua ().
O uso de mamadeiras à noite está associado à
diminuição do fluxo e da capacidade de neutralização
salivar, o que levaria os dentes a sofrerem estagnação
dos alimentos e exposição prolongada aos carboidratos
fermentáveis ().
Adicionalmente, foi demonstrado que crianças com CLPE dormem
um menor número de horas por noite, acordam com maior freqüência
e recebem maior número de mamadeiras para alimentação
como meio de manejar os problemas do sono ().
Apesar de o hábito de adoçar a chupeta estar associado
à colonização precoce por Streptococcus
mutans em pré-dentados (),
uma revisão sistemática não achou associação
consistente entre uso de chupetas e desenvolvimento de CLPE, independentemente
do tempo de sua utilização e da adição
de adoçantes ou não ().
Papel cariogênico do leite humano,
do leite bovino e das fórmulas lácteas para alimentação
infantil
Estudos em animais demonstraram que o leite bovino não é
cariogênico e, ao contrário, possui ação
cariostática ().
Contudo, não há recomendação para seu
uso antes do primeiro ano de vida ().
Além disso, as fórmulas lácteas para alimentação
infantil, mesmo aquelas sem sacarose em sua formulação,
demonstraram ser cariogênicas ().
O leite materno, quando comparado com o leite bovino, tem baixo
conteúdo mineral, maior concentração de lactose
(7 versus 3%) e menor teor de proteínas (1,2 g/100
ml versus 3,3 g/100 ml), mas essas diferenças são
provavelmente insignificantes em termos de cariogenicidade ().
Birkhed et al. demonstraram que o leite humano e o leite bovino
são capazes de diminuir o pH da placa dentária, porém
menos que a sacarose, e que a fermentação da lactose
e do leite bovino é mais lenta. Além disso, os estreptococos
somente são capazes de aumentar a fermentação
da lactose após o contato freqüente com o leite, podendo
ser esta, segundo esses autores, uma das razões para o desenvolvimento
de cárie em dentes decíduos pelo aleitamento materno
prolongado em livre demanda. Entretanto, para os mesmos autores,
o potencial cariogênico do leite, sob condições
normais, carece de importância clínica, exceto quando
da diminuição dos fatores de defesa salivares, tal
como ocorre durante o sono e na presença de xerostomia ().
Aleitamento materno versus CLPE:
razões e contra-argumentações
Gardner et al. (),
Kotlow ()
e Brams et al. ()
foram os primeiros autores a associar a CLPE com o aleitamento materno
em relato de nove casos. Os autores preestabeleceram um comportamento
da odontologia frente ao aleitamento materno: o de indicar a interrupção
da amamentação assim que a criança pudesse
beber de uma xícara, ao redor dos 12 meses ().
Essas publicações são passíveis de críticas
por apresentarem um número muito reduzido de casos, além
do fato de que duas crianças utilizavam mamadeira, e, para
as sete restantes, não existia menção de defeitos
do esmalte, do meio bacteriano e da composição da
dieta ().
A maioria dos autores argumenta que a cárie encontra-se
associada ao aleitamento materno quando o padrão de consumo
apresenta determinadas características, como livre demanda,
freqüência elevada de mamadas ao dia, duração
prolongada e, principalmente, mamadas noturnas freqüentes,
levando ao acúmulo de leite sobre os dentes, o qual, associado
à redução do fluxo salivar e à ausência
de limpeza, poderia provocar o aparecimento de lesões ().
Em oposição a esses argumentos está o fato
de o leite materno ser liberado por ordenha diretamente no palato
mole (),
não sofrer estagnação ao ser sugado ()
e ser difícil de ser quantificado quanto ao volume ingerido
pela criança, além de não haver informações
na literatura sobre o que é um padrão atípico
de consumo para crianças em aleitamento com relação
à freqüência alimentar ().
Outra argumentação freqüentemente encontrada
na literatura é que a adição de sacarose ao
leite materno render-lhe-ia cariogenicidade ().
Essa afirmação é questionável porque,
na prática, é uma situação pouco provável
de acontecer, visto que essa adição deveria ser concretizada
durante o ato de mamar, ou seja, oferecendo-se à criança
algo com açúcar para comer ou beber durante ou imediatamente
após o aleitamento ().
Os vários estudos que investigam a associação
entre aleitamento materno e CLPE são apresentados na Tabela
1. A limitação mais importante presente em todos os
artigos encontrados que estudam uma possível associação
entre leite materno e CLPE é a não-utilização
de conceitos de aleitamento materno adotados internacionalmente.
Alguns autores não apresentaram definição para
CLPE (),
outros utilizaram múltiplas definições ()
ou definições próprias ().
Como pode ser observado, a maioria dos autores não encontrou
relação entre CLPE e aleitamento materno ou sua duração
().
Os resultados encontrados freqüentemente contradizem-se uns
aos outros, e os achados nem sempre foram reproduzidos. O mesmo
foi observado por Valaitis et al. em revisão sistemática
de 151 artigos. Esses autores encontraram associação
considerada moderada entre aleitamento materno e CLPE em apenas
três estudos. Verificaram que a qualidade das pesquisas é
relativamente fraca, e as variáveis relacionadas nas pesquisas
foram de difícil comparação porque suas definições
essenciais eram pobres, inconsistentes, ambíguas ou até
ausentes, como, por exemplo, a definição de aleitamento
materno em livre demanda, exclusivo e noturno. Por fim, esses autores
concluíram que: (1) não há evidências
fortes e consistentes de associação entre aleitamento
materno e desenvolvimento de CLPE; (2) não existe um período
específico para o desmame, devendo-se encorajar as mulheres
a continuar a amamentação por tanto tempo quanto elas
desejarem; e (3) é necessário desenvolver estudos
rigorosos para levar mensagens públicas consistentes que
relacionem o aleitamento materno e o surgimento de CLPE ().
Tabela 1 -
Estudos que avaliaram a associação entre CLPE e
aleitamento materno
Em outra revisão sistemática envolvendo 73 estudos,
Harris et al. identificaram 106 fatores de risco associados significativamente
com a prevalência ou a incidência de CLPE. Dentre estes,
apenas três estão relacionados ao aleitamento materno
(duração, freqüência e aleitamento noturno)
e três ao aleitamento e/ou mamadeira (quando utilizados para
alimentar ou para cessar o choro da criança à noite,
para adormecer e duração superior a 18 meses). Poucos
foram os artigos de alta qualidade metodológica e que utilizaram
medidas de validação para os hábitos dietéticos
e de higiene oral. A maioria desses trabalhos mostrou que as variáveis
devem ser tratadas como indicadores de risco, pois são apenas
fatores de risco prováveis ou putativos, e não foi
capaz de estabelecer claramente uma relação entre
exposição e evento cárie. As associações
com cárie mais consistentes foram aquisição
precoce da infecção pelos estreptococos, dieta altamente
cariogênica, escovação dentária diária
precária e hipoplasia do esmalte ().
Os seguintes argumentos têm-se apresentado como contrários
à associação entre o aleitamento materno e
a CLPE:
- Há evidências substanciais que relacionam os hábitos
alimentares à cárie dentária, sendo consenso
geral que o aumento na sua incidência seja resultado do
processo de civilização do homem, acarretando alterações
nos padrões de vida mais naturais ().
Estudos em culturas primitivas cuja norma era o aleitamento materno
até os 18 a 36 meses, em livre demanda, inclusive à
noite, mostram prevalência extremamente baixa de cárie
em crianças ().
Estudos clássicos mostram índices de cárie
de 0,5% em crianças samoanas ()
e de 1,2% em crianças esquimós ().
Resultados similares foram achados em estudos antropológicos,
onde os crânios humanos do período pré-neolítico
(12.000 a.C.) não apresentavam cáries dentárias,
e os crânios do período neolítico (12.000
a 3.000 a.C.) com dentes cariados pertenciam predominantemente
a pessoas idosas ().
No exame de 1.344 dentes decíduos humanos pré-históricos
de nativos americanos de Dakota do Sul, Estados Unidos, apenas
19 (1,4%) estavam cariados e somente três apresentavam lesões
extensas de cáries ().
Na era moderna, a prevalência encontrada em 16 comunidades
nativas americanas, de mesma cultura, foi de 54% ().
- Em povos que mantêm os hábitos de alimentação
ancestrais, a prevalência de cáries é baixa.
Entretanto, quando esses grupos entram em contato com a civilização
moderna e seus hábitos alimentares, os índices aumentam
drasticamente ().
- Os padrões alimentares das crianças têm
mudado dramaticamente nos últimos anos. O consumo de leite
tem diminuído, enquanto que o consumo de refrigerantes,
sucos e bebidas não-cítricas e de carboidratos tem
aumentado ().
Esses hábitos foram relacionados com o aumento da prevalência
de CLPE ().
- O tempo de aleitamento materno exclusivo e de aleitamento materno
é maior em mulheres de melhores classes sociais, com maior
escolaridade (),
em mães de mais idade e com relacionamento estável
();
do mesmo modo, a higiene dental é mais adequada nesse grupo
(),
contrariamente ao que se observa com a prevalência de CLPE,
mais comum em classes menos privilegiadas. A introdução
precoce de alimentos, o uso de mamadeiras e a preferência
por alimentos doces são observados com maior freqüência
nas classes menos favorecidas ().
- A prevalência do aleitamento materno diminui com a idade,
apresentando índices muito baixos na faixa etária
dos 12 a 24 meses no Brasil ()
e no mundo (),
contrariamente ao que ocorre com a prevalência de CLPE ().
- Mesmo com um aumento na prevalência mundial do aleitamento
materno ()e
de quatro vezes na sua mediana nas três últimas décadas
no Brasil (),
a prevalência de CLPE tem se mostrado constante ao longo
dos anos ().
- Os recém-nascidos pré-termo e de baixo peso,
os quais são de alto risco para CLPE, tendem a ter menor
tempo de aleitamento materno (),
maior utilização de mamadeira e maior consumo de
açúcar ().
- Estudos demonstraram que o leite materno diminui o risco de
aparecimento de doenças, tais como gastrenterite, infecções
(),
asma, doenças atópicas ()
e diabetes melito (),
as quais também têm influência na nutrição
da criança. Logo, é de se pressupor que o leite
materno poderia proteger contra a cárie, pelo menor aparecimento
das doenças que contribuem para a fisiopatologia da doença
e pela menor utilização de medicamentos de risco
à cárie.
- O leite humano é caracterizado por um complexo sistema
de defesa que inibe o crescimento de vários microorganismos,
entre eles os estreptococos mutans ().
Os anticorpos IgA do leite podem interferir na colonização
dos estreptococos pioneiros e, conseqüentemente, na colonização
de outras bactérias residentes na boca. Do mesmo modo,
o conteúdo de nutrientes, a capacidade de tamponamento
e outros mecanismos de defesa presentes no leite materno podem
influenciar a microbiota residente ().
- O leite materno contém uma mistura de oligossacarídeos
complexa e única da espécie humana, presente em
quantidades ínfimas em pouquíssimos mamíferos,
que poderá agir num estágio inicial de processo
infeccioso, inibindo a adesão bacteriana às superfícies
epiteliais ().
Com isso, pode-se supor que os estudos que utilizaram lactose
ou leites de outras espécies animais não poderiam
ter seus resultados extrapolados para o leite materno, em razão
de sua composição muito diferenciada.
- Qualitativamente, foi demonstrado que o leite humano não
é cariogênico, pois a placa dental formada por ele
é diferente daquela formada pela sacarose. Além
disso, com o leite humano, não há perda mineral
clinicamente visível no esmalte, contrariamente ao que
acontece com a sacarose ().
- Experimentalmente, foi demonstrado que o leite humano não
é cariogênico porque não provocava queda significativa
no pH do esmalte em crianças sob aleitamento materno, com
idades entre 12 e 24 meses; permitia um moderado crescimento de
Streptococcus sobrinus (ou seja, não inibia nem
estimulava o crescimento desse microrganismo); promovia a remineralização
do esmalte por meio da deposição de cálcio
e fosfato em sua superfície; possuía capacidade
tampão muito pobre; e não causava, in vitro,
descalcificação do esmalte após 12 semanas.
Porém, ao ser acrescentada sacarose ao leite humano, havia
o surgimento de cárie em dentina em 3,2 semanas ().
Em resumo, constata-se que estudos relacionando a CLPE com o aleitamento
materno invariavelmente só observaram os fatores inter-relacionados
com o surgimento da cárie, deixando de lado aqueles associados
à amamentação. Muitos desses fatores atuam
como variáveis de confusão, porque, do mesmo modo
que interferem no aleitamento materno, também têm influência
no surgimento da cárie, como pode ser observado esquematicamente
na Figura 2. Nessa figura foram agrupadas todas as situações
anteriormente discutidas neste artigo, com as setas cheias representando
um efeito promotor e as setas pontilhadas um efeito inibidor para
cada situação exposta.
Figura 2 -
Fatores inter-relacionados no aleitamento materno e na CLPE
Posição oficial da Academia
Americana de Odontopediatria (AAPD)
Atualmente, a AAPD apóia as recomendações da
Academia Americana de Pediatria quanto ao aleitamento materno (de
pelo menos 1 ano). Entretanto, assinala que a alimentação
noturna freqüente por mamadeira, aleitamento materno em livre
demanda e uso freqüente de copos antitransbordantes está
associado, porém não consistentemente implicado, com
a CLPE. Recomenda que as crianças não sejam colocadas
para dormir com mamadeira e que o aleitamento materno noturno em
livre demanda seja evitado após a erupção do
primeiro dente. Portanto, são necessárias pesquisas
futuras sobre os efeitos do aleitamento materno e do consumo de
leite humano na saúde oral e no crescimento dentofacial.
É importante frisar que essa posição é
ambígua e criticável, porque a AAPD não inclui
mais o aleitamento materno entre os fatores de risco para cárie
().
Além disso, não há comprovação
científica de que o leite humano é cariogênico
(),
mesmo quando ingerido em livre demanda e durante a noite ().
Concomitantemente, a posição da AAPD também
pode gerar problemas práticos na condução e
orientação dos pais daquelas crianças que acordam
chorando à noite para serem amamentadas, simplesmente externando
uma necessidade que deveria ser preenchida para o bom desenvolvimento
da criança. Por fim, devido à natureza irreversível
da cárie, um verdadeiro teste em humanos poderia ser considerado
antiético ().
Considerações finais
Apesar de não haver embasamento científico comprovando
a associação entre aleitamento materno e cárie,
muitos profissionais ainda duvidam da ausência de cariogenicidade
do leite humano, perpetuando o mito em que se tornou essa associação.
Acreditamos que a amamentação noturna não deva
ser desencorajada, assim como nenhuma forma rígida de conduta
alimentar deva ser adotada em relação à criança
em aleitamento. Nessa faixa etária, a criança está
se adaptando aos alimentos complementares, ajustando-se a essas
novas formas de alimentação e aprendendo a regularizar
seus horários. Portanto, deve-se estimular o aleitamento
materno exclusivo até os 6 meses, mantendo-o pelo menos até
os 2 anos de idade, sem restrições de horários
ou turnos, complementado com outros alimentos adequados para o desmame.
Esta revisão permitiu concluir que não há
evidências científicas que comprovem que o leite materno
está associado com o surgimento de cárie. Essa relação
é complexa e confundida por muitas variáveis, principalmente
infecção por estreptococo mutans, hipoplasia do esmalte,
ingestão de açúcares em suas mais variadas
formas e condições sociais representadas pela educação
e nível socioeconômico dos pais.
Agradecimentos
Ao Dr. Brian Palmer, DDS, por sua presteza e humildade em acolher
prontamente nossas solicitações, e à Dra. Elsa
Giugliani e ao Dr. Joel Lamounier, pelas sugestões dadas
para a construção deste artigo.
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