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Introdução
O leite humano, além de seus componentes nutritivos, contém,
em sua composição, uma complexidade de células,
membranas e moléculas que atuam na proteção
do recém-nascido. Na mulher em lactação, o
sistema denominado enteromamário ou broncomamário
atua quando os patógenos (bactérias) entram em contato
com as mucosas do intestino ou aparelho respiratório e são
fagocitados pelos macrófagos. Com isso, desencadeia-se uma
ação estimulante nos linfócitos T, promovendo
diferenciação dos linfócitos B produtores de
imunoglobulinas A (IgA). Os linfócitos migram para a glândula
mamária e, com a mediação de citocinas, tornam-se
células plasmáticas que produzem uma glicoproteína
que é acoplada à IgA, convertendo-se em imunoglobulina
A secretória (IgAs). Esta é uma função
importante e específica de proteção do recém-nascido
conferida pelo leite humano ().
O aleitamento materno, pelas inúmeras vantagens que traz
tanto para a mãe como para o recém-nascido, é
reconhecido como a melhor forma de alimentação da
criança. Entretanto, doenças envolvendo tanto a mãe
quanto o recém-nascido podem constituir obstáculos
para a amamentação. Nessas circunstâncias, é
importante que o profissional tenha habilidade, conhecimento técnico
e atitude acolhedora para avaliar adequadamente a viabilidade do
aleitamento. A nutriz, ao apresentar sintomas de uma doença,
geralmente já expôs seu filho ao agente patogênico,
e a orientação geral é manter o aleitamento
().
Se a mãe suspende a amamentação quando surgem
os sintomas da doença, a proteção ao lactente
fica diminuída, aumentando a chance da criança adoecer,
pois ela deixará de receber anticorpos específicos
e demais fatores de proteção do leite humano.
Não há indicação de suspender a amamentação,
mesmo que temporariamente, nas mães com infecção
urinária, infecção bacteriana de parede abdominal,
episiorrafia, mastite ou outra em que as condições
físicas e o estado geral da nutriz não estejam muito
comprometidos.
Embora o leite humano contenha anticorpos, células mononucleares
e outros fatores de proteção, em algumas doenças
maternas ele pode funcionar como possível fonte de infecção
para a criança ().
As células mononucleares do leite humano, mesmo promovendo
proteção, podem transferir partículas infecciosas
da mãe para o lactente. Assim, o profissional de saúde,
ao identificar uma nutriz com infecção viral ativa
ou outra doença infecciosa, pode ficar angustiado frente
ao dilema na tomada de decisão de suspender ou não
a amamentação, já que seu papel é o
de promover e estimular o aleitamento materno.
Algumas doenças não-infecciosas podem impedir o aleitamento
materno temporária ou definitivamente devido à condições
físicas da mãe, tais como doenças cardíacas,
renais e hepáticas graves, psicose e depressão pós-parto
grave ().
Nesta revisão, são feitas considerações
sobre o manejo em relação à amamentação
na presença de doenças maternas comuns causadas por
bactérias, vírus, parasitas e fungos.
Infecções por vírus
Em várias doenças virais maternas, tais como hepatite,
herpes vírus, sarampo, caxumba e rubéola, dentre outras,
pode haver excreção de vírus no leite humano.
Porém, exceto para as infecções causadas pelos
retrovírus - vírus da imunodeficiência humana
(HIV-1), vírus T-linfotrópicos humanos tipo I (HTLV
I) e vírus T-linfotrópicos humanos tipo II (HTLV II)
-, a transmissão por essa via tem pouco valor epidemiológico.
Na maioria das doenças viróticas maternas, outras
fontes de contaminação para o recém-nascido
devem ser avaliadas antes de se atribuir essa possibilidade apenas
ao aleitamento. O risco de transmissão pode estar aumentado
nos casos de infecção aguda no momento do parto, uma
vez que o leite pode conter elevada concentração de
partículas virais e baixos títulos de anticorpos protetores
capazes de neutralizar o agente infeccioso. Portanto, de modo geral,
não há contra-indicação formal para
amamentação na maioria dos casos de doenças
virais, exceto para o grupo dos retrovírus.
A transmissão de retrovírus RNA, incluindo HIV-1
(),
HTLV I e HTLV II (),
já foi demonstrada. O vírus HIV-2 também poder
ser transmitido da mãe para o filho, mas o papel do aleitamento
na transmissão via leite humano ainda não está
bem estabelecido. O vírus Epstein-Barr e herpes vírus
6 podem ser encontrados no leite humano, mas, até o momento,
são raros os relatos de crianças amamentadas infectadas
por esses vírus. Até certo ponto, é surpreendente
que o leite materno não seja mais infectante, especialmente
com o volume consumido diariamente pelo lactente em aleitamento
materno exclusivo. Portanto, isso leva a supor que devam existir
mais fatores de proteção no leite humano além
dos já conhecidos.
Uma síntese das infecções virais mais importantes
com possibilidade de transmissão do vírus via leite
materno para o recém-nascido, bem como das respectivas condutas
em relação ao aleitamento materno, está ilustrada
na Tabela 1.
Tabela 1 -
Infecções maternas virais e conduta na amamentação
Infecção pelo HIV
O HIV é excretado livre ou no interior de células
no leite de mulheres infectadas, que podem apresentar ou não
sintomas da doença. Cerca de 65% da transmissão vertical
do HIV ocorre durante o trabalho de parto e no parto propriamente
dito; os 35% restantes ocorrem intra-útero, principalmente
nas últimas semanas da gestação e por intermédio
do aleitamento materno. A carga viral no leite materno é
um importante determinante do risco de transmissão ().
No recém-nascido, a porta de entrada do vírus são
as mucosas nasofaríngea e gastrintestinal. Durante o aleitamento
materno, a transmissão do vírus pode ocorrer em qualquer
fase, porém parece ser mais freqüente nas primeiras
semanas e, especialmente, nas infecções maternas mais
recentes. A carga viral no colostro ou leite inicial é significativamente
mais elevada que no leite maduro. O aleitamento misto parece ser
de maior risco do que o aleitamento materno exclusivo, pelo maior
dano à mucosa gastrintestinal decorrente da alimentação
artificial, que favorece a penetração do vírus
().
O risco adicional de transmissão do vírus pelo leite
humano varia de 5 a 20% ().
A contaminação via leite materno em mulheres que adquiriram
a infecção após o período pós-natal
foi verificada em 29% (15-53%) dos casos ().
A presença de células infectadas pelo HIV no leite
materno por um período superior a 15 dias após o parto
é um fator preditivo importante para a infecção
da criança ().
Retrovírus podem infectar células do epitélio
mamário antes mesmo do parto, podendo ser encontrados livres
ou infectando monócitos do leite, que correspondem a 50%
das células do leite materno. Essas células podem,
potencialmente, transportar vírus da circulação
materna ou de tecidos linfóides para o intestino do neonato.
Alguns tipos de HIV utilizam receptores de quimocinas para infectar
os macrófagos. No entanto, são necessários
mais estudos para conhecer com precisão o papel das células
do leite humano na infecção pelo HIV ().
A utilização de terapêutica anti-retroviral
durante a gestação e o parto e sua manutenção
em recém-nascidos resulta, mesmo se mantido o aleitamento
materno, em redução da transmissão vertical
do HIV por até 6 meses após o parto ().
No entanto, a infecção pelo HIV é uma das poucas
situações onde há consenso de que a amamentação
deve ser contra-indicada. No Brasil, o Ministério da Saúde
()
recomenda que as mães portadoras do vírus HIV não
amamentem. Porém, a Organização Mundial de
Saúde (OMS) e o Fundo das Nações Unidas para
a Infância (UNICEF) recomendam que, em países pobres,
onde doenças como diarréia, pneumonia e desnutrição
contribuem substancialmente para elevadas taxas de morbimortalidade
infantil, o benefício do aleitamento materno deve ser considerado
em relação ao risco da transmissão do vírus
HIV. Nesses casos, e na impossibilidade de oferta de uma alimentação
artificial adequada, é preferível manter a amamentação,
haja vista seus benefícios para o lactente vivendo sob condições
precárias ().
Mulheres que recebem terapia anti-retroviral combinada apresentam
taxas muito baixas de transmissão viral ().
Informações preliminares de um estudo realizado na
África do Sul consideram a possibilidade de reduzir ou prevenir
o risco de transmissão pós-natal do HIV se a criança
recebe o leite humano por curto tempo ().
A estratégia seria manter o aleitamento por um período
de 4 a 6 meses. Entretanto, a eficácia e a segurança
dessa prática ainda não foram demonstradas, e estudos
ainda estão em andamento.
Outra possibilidade seria reduzir ou eliminar o HIV do leite humano.
Células infectadas pelo vírus podem ser removidas
do leite, mas partículas virais são difíceis
de eliminar. A inativação do vírus HIV do leite
materno pelo processo de pasteurização (62,5 ºC
por 30 minutos, seguido de resfriamento rápido) permite que
a criança continue a receber o leite materno sem aumentar
o risco pós-natal do vírus ().
Infecção pelo HTLV
O HTLV é um vírus da família dos retrovírus,
a mesma do HIV. São vírus linfotrópicos de
células humanas T1 e T2, denominados de HTLV I e HTLV II.
O vírus do tipo I causa principalmente uma modalidade rara
de leucemia, mielite e infecção ocular que pode levar
à cegueira. O vírus HTLV II não está
associado a doença. Podem ser transmitidos pelo sangue, agulhas
contaminadas, relações sexuais e de mãe para
filho por meio do aleitamento materno. A principal forma de transmissão
é vertical, sendo a via pelo aleitamento considerada predominante.
Apesar de afetar uma pequena parcela da população
e com possibilidade de desenvolver doenças tardiamente em
apenas de 1 a 4% dos infectados, a ocorrência de retrovírus
HTLV tem aumentado na América do Sul, principalmente pela
falta de controle sanitário. Como as alterações
determinadas por esses retrovírus são graves e não
dispõem de terapêutica ou vacina eficazes, a contra-indicação
do aleitamento natural nas mulheres portadoras é a principal
forma de diminuir sua disseminação vertical.
No Japão, tem-se utilizado o congelamento do leite de mães
HTLV I-positivas à temperatura de -20 ºC como método
de inativação do vírus. Porém, o Centers
for Disease Control and Prevention (CDC) define que toda mãe
infectada pelo HTLV I deve ser aconselhada a não amamentar
e não opina sobre o congelamento do leite humano nessa situação.
Considera como insuficientes os dados atuais sobre a transmissão
do HTLV I em casos utilizando leite materno congelado e descongelado.
A quantidade de células infectadas pelo HTLV I no sangue
periférico é muito pequena se comparada com o número
de células T infectadas no leite materno, o que explicaria
o risco elevado de transmissão viral pelo leite humano. Alguns
fatores de risco têm sido considerados na transmissão
dos vírus HTLV I e II pelo leite humano: período de
aleitamento materno superior a 3 meses, idade materna mais avançada,
níveis de antígenos no sangue materno e altos títulos
de anticorpos HTLV I na nutriz ().
Entretanto, van Dyke et al. ()
relatam que a transmissão do vírus HTLV II da mãe
para a criança pode ocorrer independentemente do tipo de
alimentação desta, em taxas similares àquelas
do HTLV I, demonstrando, assim, que a transmissão do vírus
para a criança pode ocorrer na ausência de amamentação.
Hepatites A, B e C
Os vírus das hepatites A, B e C podem ser transmitidos para
a criança durante a gravidez, parto ou período pós-parto.
Os vírus de transmissão oral-fecal, como o da hepatite
A, têm maior possibilidade de serem transmitidos ao recém-nascido
no momento do parto.
Além disso, o vírus da hepatite A pode ser excretado
no leite humano de nutrizes na fase aguda da doença. Quando
o parto ocorre nessa fase da doença, a criança deve
receber imunoglobulina anti-HVA na dose de 0,02 ml/kg como profilaxia.
Essa conduta é indicada para todas as crianças, independentemente
da amamentação, e confere proteção que
supera o risco da criança adquirir a doença. Assim,
o aleitamento materno não é contra-indicado ().
Os vírus das hepatites B e C são transmitidos pelo
contato com sangue e secreções genitais. O antígeno
de superfície do vírus da hepatite B (HBsAg) tem sido
detectado no leite de mulheres soropositivas para o HBsAg, e é
possível que pequenas quantidades de sangue possam ser ingeridas
pelo recém-nascido durante amamentação, a partir
de lesões nos mamilos, mesmo que pequenas. Mas a maior via
de transmissão do vírus da mãe para a criança
é a exposição do bebê ao sangue materno,
que acontece durante todo o trabalho de parto e no parto ().
Mãe soropositiva para HBsAg durante a gravidez determina
a necessidade de a criança receber a primeira dose da vacina
logo após o parto e imunoglobulina hiperimune da hepatite
B (HBIG) na dose de 0,5 ml via intramuscular (IM) nas primeiras
12 horas de vida, aplicadas concomitantemente, mas em locais diferentes.
A eficácia dessa conduta é de 95% e elimina o eventual
risco de transmissão pelo leite materno ().
Quando a mulher não foi testada para o HBsAg ou essa informação
não está disponível, o exame deve ser solicitado
logo após o parto. Enquanto se aguarda o resultado, o recém-nascido
deve receber a primeira dose da vacina. Se o resultado do exame
for positivo, a imunoglobulina deve ser aplicada o mais cedo possível,
dentro dos primeiros 7 dias após o parto. No entanto, se
a pesquisa de HBsAG não for possível, não se
justifica dar imunoglobulina para todos os recém-nascidos,
já que a vacina isoladamente é bastante eficaz na
prevenção da doença em 70 a 90% dos casos ().
No parto de gestante HBsAg-positiva, orienta-se lavar bem o recém-nascido,
retirando todo vestígio de sangue ou secreção
materna. Por outro lado, mesmo que a mãe apresente fissura
mamária com sangramento, não se contra-indica a amamentação.
A Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda que recém-nascido
pré-termo com peso menor que 2.000 g e filho de mãe
HBsAg-positiva deve receber o esquema vacinal de quatro doses (ao
nascimento, com 1, 2 e 6 meses de vida), além da imunoglobulina
().
Se o esquema proposto não for iniciado no período
neonatal, então a criança deverá receber as
três doses habituais de vacina. Em todas as situações,
o aleitamento materno deve ser recomendado. Na mãe com criança
menor de 1 ano de idade e hepatite B diagnosticada durante a lactação,
a conduta é manter a amamentação e testar a
criança para HBsAg, uma vez que ela já foi vacinada
ao nascer. Se negativa, deve-se revacinar a criança e seguir
as medidas profiláticas para o caso, ou seja, administrar
HBIG na dose de 0,04 ml/kg via IM ou gamaglobulina standard
na dose de 0,12 ml/kg via IM ().
Apesar do vírus da hepatite C ter sido detectado no leite
de mães HCV-positivas, sua transmissão por essa via
não foi comprovada. Por isso, a amamentação
em mães HCV-positivas não está contra-indicada.
Entretanto, a prevenção de fissuras mamilares é
muito importante, pois ainda não foi determinado se o contato
do bebê com o sangue materno pode favorecer a transmissão
da doença. O Comitê de Doenças Infecciosas da
Academia Americana de Pediatria recomenda que as mães sejam
informadas a respeito do risco teórico, ainda não
confirmado, de transmissão do vírus para a criança
via leite materno. A decisão de amamentar deve ser particularizada
para cada caso, em que pese ao papel da amamentação
na vida dessa criança, pois não se sabe ao certo o
papel do aleitamento na transmissão desse vírus para
a criança ().
Citomegalia
O citomegalovírus (CMV) pode ser excretado de forma intermitente
na saliva, urina, trato genital e leite humano por vários
anos após a primoinfecção e na ocorrência
de reativação de suas formas latentes. A infecção
do lactente ou do feto pode ocorrer a partir de mães com
infecções na forma primária ou na reativação
e ocorre com mais freqüência durante a passagem pelo
canal do parto ou no período pós-natal. Porém,
devido à passagem de anticorpos por via placentária,
a doença não é comum em recém-nascidos.
Na infecção pós-natal, a relação
com amamentação é evidente, embora o vírus
possa ser adquirido através do contato com outras pessoas
soropositivas que vivem no mesmo domicílio. Estudos mostram
que 30% de filhos de mães soropositivas e amamentadas adquirem
a infecção nos primeiros anos de vida, chegando a
70% dos casos quando o vírus é isolado no leite materno.
Entretanto, infecções sintomáticas ou seqüelas
tardias não têm sido observadas nos bebês, provavelmente
devido à passagem de anticorpos maternos específicos
que os protegem contra a doença sistêmica. Parece ser
preferível a contaminação precoce da criança
amamentada, pois, se ocorrer em período mais tardio da vida,
o risco de doença sintomática é maior. Esses
dados justificam a não-contra-indicação da
amamentação ().
Porém, atenção especial deve ser dada para
prematuros, principalmente os de menor idade gestacional. A decisão
de amamentar recém-nascido pré-termo, filho de mãe
CMV-positiva, deve ser considerada em termos do risco da transmissão
da doença versus os benefícios da amamentação.
Os prematuros podem não ter anticorpos protetores e apresentar
infecções sintomáticas. No entanto, o vírus
pode ser inativado pela pasteurização do leite humano,
e a carga viral, reduzida pelo congelamento a -20 ºC ().
Trabalho recente com recém-nascidos pré-termo que
tiveram infecção adquirida no período pós-natal
precoce via leite materno de mãe CMV-positiva não
mostrou nenhum comprometimento do desenvolvimento neurológico
e de audição na criança. Entretanto, visto
o pequeno número de crianças avaliadas, estudos de
acompanhamento em prematuros com infecções adquiridas
no período pós-natal são necessários
().
Varicela
Mãe que tenha apresentado varicela até 5 dias antes
ou 2 dias após o parto pode transmitir a doença à
criança em sua forma grave, período com maior risco
de viremia. Nesses casos, está indicado o isolamento da mãe
na fase contagiante das lesões até a fase de crosta,
além da administração, o mais precocemente
possível, de imunoglobulina específica contra varicela
(VZIG) na criança, na dose de 125 unidades IM ou imunoglobulina
standard 2 ml em dose única IM, esta última
de valor discutível ().
O recém-nascido deve ficar em observação até
o 21º dia de vida. Também não se sabe se o vírus
poderia ser encontrado no leite materno e se poderia infectar a
criança. Assim, durante esse período, o leite materno
pode ser ordenhado e oferecido ao recém-nascido. Porém,
se nesse período o bebê desenvolver a doença,
deve-se iniciar o tratamento com aciclovir ().
Mãe com varicela cujo início da doença foi
há mais de 5 dias antes do parto ou após o terceiro
dia pós-parto pode produzir e transferir anticorpos para
o recém-nascido tanto por via transplacentária quanto
pelo leite materno. Nesse caso, o recém-nascido pode desenvolver
a forma leve da doença, não estando indicado nem isolamento,
nem profilaxia. A mãe pode amamentar a criança, tomando
os cuidados especiais de lavagem das mãos, uso de máscara
e oclusão de lesões ().
Herpes simples
O recém-nascido pode ser contaminado com herpes simples
intra-útero pela via hematogênica transplacentária,
durante o parto (a via mais freqüente) ou no período
pós-natal. O risco de contaminação neonatal
é maior para infecção primária ou não-primária
se ocorrer no último mês da gestação.
Porém, na última semana antes do parto, a transmissão
é baixa para doença recorrente.
O risco de transmissão do vírus pelo leite materno
é muito baixo. No acometimento da nutriz pelo herpes, o aleitamento
materno deve ser mantido, exceto quando as vesículas herpéticas
estiverem localizadas na mama. Lesões ativas em outras partes
do corpo devem ser cobertas, recomendando-se rigorosa higiene da
nutriz para que o aleitamento seja mantido.
Cuidados adicionais devem ser tomados quando houver vesículas
em face e dedos e com outras fontes de vírus herpes simples,
como a gengivoestomatite, em outros familiares. Se houver suspeita
ou se for confirmado que o recém-nascido tenha infecção
por herpes simples, ele deve ser isolado de outras crianças,
mas não de sua mãe. Há relato de caso de criança
de 15 meses de idade que foi contaminada com a doença por
um irmão de 5 anos com gengivoestomatite. A mãe foi
contaminada pela criança em ambos os seios durante a amamentação
().
Rubéola
Doença exantemática aguda causada por vírus
que pode ser eliminado pelas secreções respiratórias
entre 10 dias antes e 15 após o início do exantema.
A maioria dos casos é assintomática ou subclínica,
podendo, no entanto, transmitir a infecção. Não
há dados que contra-indiquem o aleitamento materno em nutrizes
com a doença. Também, no caso de vacinação
da nutriz contra rubéola, a amamentação pode
ser mantida ().
Sarampo
Doença exantemática muito contagiosa causada por
vírus transmitido por intermédio de secreções
respiratórias poucos dias antes e durante o período
da doença. O vírus do sarampo ainda não foi
isolado no leite humano, mas, por outro lado, anticorpos específicos
são encontrados no leite de mulheres imunizadas. Se confirmada
a doença na nutriz, está indicado o uso de imunoglobulina
no bebê e isolamento da mãe até 72 horas após
o início do exantema. Entretanto, o leite materno ordenhado
pode ser dado à criança, porque a IgA secretória
começa a ser secretada com 48 horas do início do exantema
da mãe ().
Caxumba
Doença viral de transmissão por contato direto através
de gotículas ou fômites de secreções
respiratórias. A infecção é rara em
crianças menores de 1 um ano devido à transmissão
passiva de anticorpos via placenta. Se a nutriz susceptível
contrair a doença, a amamentação deverá
continuar, porque a exposição já ocorreu 7
dias antes do desenvolvimento da parotidite e a IgAs do leite humano
podem ajudar a minimizar os sintomas da criança ().
Infecções por bactérias
Tuberculose
Para mães com tuberculose, as recomendações
para amamentação dependem da época em que foi
feito o diagnóstico da doença. Segundo a OMS, não
há necessidade de separar a mãe da criança
e, em circunstância alguma, a lactação deve
ser impedida ().
O bacilo de Koch excepcionalmente é excretado pelo leite
materno, e, se houver contaminação do recém-nascido,
geralmente a porta de entrada é o trato respiratório.
Assim, mãe com tuberculose extrapulmonar não necessita
de cuidados especiais para amamentar.
Segundo a Academia Americana de Pediatria, recém-nascido
de mãe com tuberculose pulmonar em fase contagiante ou bacilífera,
sem tratamento ou com menos de 3 semanas de tuberculostáticos
no momento do parto, deve ser separado da mãe mas alimentado
com o leite humano ordenhado, uma vez que a transmissão geralmente
se dá pelas vias aéreas. A mãe deve realizar
pesquisas do bacilo álcool-ácido resistente (BAAR)
no escarro até sua negativação, quando poderá
ter contato com o bebê ().
Este deve receber quimioprofilaxia com isoniazida na dose de 10
mg/kg/dia por 3 meses e, então, realizar o teste tuberculínico
(PPD). Se o teste for positivo, está indicado rastrear a
doença através de exame clínico e radiológico.
Se não se detecta infecção ativa, mantêm-se
a vigilância e a quimioprofilaxia até o sexto mês,
quando se aplica o BCG-ID. Se o PPD for negativo aos 3 meses de
idade, a quimioprofilaxia pode ser interrompida e o BCG-ID pode
ser aplicado, mantendo-se a vigilância clínica. Em
situações onde há risco de não-acompanhamento
do bebê em uso de quimioprofilaxia com isoniazida, é
mais seguro indicar a vacinação com BCG-ID concomitante
().
Segundo a OMS, a amamentação deve ser mantida, porém
deve-se diminuir o contato íntimo mãe-filho, além
de se tomar os seguintes cuidados: amamentar com máscara
ou similar, lavar cuidadosamente as mãos, rastrear os comunicantes,
especificamente os domiciliares. Administrar ao recém-nascido
hidrazida (INH) na dose de 10 mg/kg peso, uma vez ao dia, durante
6 meses. Após o término da quimioprofilaxia, vacinar
com BCG-ID. A amamentação deve ser mantida durante
todas as etapas ().
Em mãe em fase não-contagiante da tuberculose cujo
tratamento foi iniciado há mais de 3 semanas não há
restrições quanto ao aleitamento materno, sendo indicado
vacinar o bebê com BCG-ID ao nascer. Nos casos em que o diagnóstico
de tuberculose materna for feito após o início da
amamentação, o lactente deve ser considerado potencialmente
infectado e receber quimioprofilaxia.
A amamentação deve ser mantida, pois a administração
de drogas tuberculostáticas para o tratamento da mãe
não contra-indica o aleitamento.
Na Tabela 2 estão apresentadas as recomendações
da OMS em caso de tuberculose e a respectiva conduta no aleitamento
materno, considerando a possibilidade de não-utilização
do PPD.
Tabela 2 -
Condutas para o manejo da tuberculose em mães e bebês,
de acordo com a época do diagnóstico da infecção
ativa na mãe
É importante ressaltar que todas as crianças devem
ser monitoradas quanto ao ganho de peso e à saúde.
Atenção especial deve ser dada à criança
de mãe com fatores de risco para tuberculose multidroga resistente.
Nesse caso, a separação mãe/criança
pode ser necessária, uma vez que a mãe, nessa condição,
possui maior infectividade e demora mais para responder ao regime
terapêutico. O aleitamento materno pode ser mantido com leite
ordenhado, diminuindo o contato respiratório entre a mãe
e a criança ().
Hanseníase
A hanseníase é uma doença infecciosa de curso
crônico, alta infecciosidade e baixa patogenicidade. Apresenta
um quadro clínico variável, que depende basicamente
da resposta imunológica celular do indivíduo. A transmissão
da doença ocorre pelo contato pessoal, preferencialmente
prolongado, por meio das secreções nasais e da pele.
O bacilo pode ser isolado no leite materno nos casos de doença
de Hansen não tratada, bem como em pacientes com duração
do tratamento inferior a 3 meses com sulfona (dapsona ou clofazamina)
ou inferior a 3 semanas com rifampicina. Lesões de pele na
mama também podem ser fonte de infecção para
o recém-nascido.
Não há contra-indicação para a amamentação
se a mãe estiver sob tratamento adequado ().
O recém-nascido deve ser tratado o mais precocemente possível
e simultaneamente com a mãe. As drogas utilizadas são
as mesmas da mãe e podem passar para o leite humano em baixas
concentrações, não havendo relato de efeitos
colaterais graves. A criança deve ser acompanhada e realizar
exames clínicos periódicos para a detecção
precoce de possíveis sinais da doença. Além
disso, são recomendados os seguintes cuidados na amamentação:
lavagem rigorosa das mãos, uso de máscara ao manusear
a criança e oclusão de lesões nas mamas.
A mãe contagiante ou bacilífera (não tratada
ou tratada há menos de 3 meses com sulfona ou 3 semanas com
rifampicina) deve evitar contato com o filho, exceto para amamentar,
usar máscara ou similar, lavar cuidadosamente as mãos
antes de manipular a criança e fazer a desinfecção
de secreções nasais e lenços ().
Sífilis
A sífilis é uma doença essencialmente transmitida
por contato sexual, mas existem outras formas de transmissão,
como contato com pessoa com lesões ativas em mucosas, região
genital e mamas. Não há evidencias de transmissão
pelo leite humano, sem lesões de mama. A nutriz com sífilis
primária ou secundária acometendo a mama pode infectar
a criança pelo contato das lesões com as mucosas.
Se as lesões estão nas mamas, sobretudo na aréola,
amamentação ou uso de leite ordenhado está
contra-indicado até o tratamento e a regressão das
lesões. Com 24 horas após o tratamento com penicilina,
o agente infeccioso (espiroqueta) raramente é identificado
nas lesões. Assim, não há contra-indicação
à amamentação após o tratamento adequado
().
Brucelose
Há relato de isolamento da Brucella melitensis no
leite humano, bem como de casos de doença em lactentes amamentados
exclusivamente ao seio. Isso confirma a possibilidade de a brucelose
ser transmitida via leite materno.
Na fase aguda da doença grave na mãe, geralmente
o aleitamento materno deve ser evitado, podendo ser utilizado o
leite humano ordenhado e pasteurizado. Assim que a doença
for tratada com antimicrobianos e a nutriz apresentar melhora clínica,
a amamentação pode ser restabelecida ().
Infecções por parasitas
Malária
Como a malária não é transmitida entre humanos,
a amamentação pode ser mantida se as condições
clínicas da mãe permitirem. Não há nenhuma
evidência indicando que a malária possa ser transmitida
pelo aleitamento materno ().
Em mães que necessitam tratamento, cloroquina, quinina e
tetraciclina são recomendadas. Sulfonamidas devem ser evitadas
no primeiro mês de lactação ().
Portanto, mãe com malária e em lactação
pode amamentar durante o tratamento com drogas específicas.
Doença de Chagas
Nas formas aguda e crônica da doença de Chagas, estudos
mostram que o Trypanosoma cruzi pode ser isolado no leite
materno. Há relato de um caso de infecção aguda
em lactente de 2 meses de idade amamentado por mãe com a
doença ().
Embora possam aparecer seqüelas tardias, a doença aguda
no lactente tende a evoluir de forma benigna. Esse fato, juntamente
com a raridade da transmissão da doença, justifica
a manutenção do aleitamento materno em mulheres com
a forma crônica da doença, exceto se houver sangramento
e fissura no mamilo ().
Nos casos de doença aguda, a nutriz não deve amamentar
().
Experimentos em laboratório, utilizando amostras de leite
humano contaminadas com o protozoário e testadas em diferentes
condições, demonstraram que a pasteurização
do leite previne a transmissão da doença. Ratos inoculados
por via oral e intraperitonial com leite humano contendo o parasita
foram contaminados, porém o grupo controle com animais inoculados
com leite pasteurizado não foi infectado ().
Estudos realizados com animais de laboratório utilizando-se
leite humano aquecido à temperatura de 63 oC em
forno de microondas doméstico (7 minutos, 45% potência)
mostrou ser eficaz na redução da transmissão
do Trypanosoma cruzi ().
Infecções por fungos
Paracoccidiomicose
Doença granulomatosa sistêmica causada por fungo,
cuja transmissão se dá provavelmente por via respiratória.
Não há contra-indicação para o aleitamento
materno se esta doença acometer a nutriz. Entretanto, é
importante lembrar que o cotrimoxazol, comumente usado no tratamento,
é excretado no leite materno e pode causar efeitos colaterais
graves no recém-nascido ().
Criptococose
Doença causada por fungo, com distribuição
ampla na natureza. Pacientes com deficiência da imunidade
celular, incluindo os portadores de HIV/AIDS, são os de maior
risco para desenvolver a doença. A transmissão de
partículas no meio ambiente é pela via aerossol, não
havendo relato da forma inter-humana. Assim, o aleitamento materno
não é contra-indicado ().
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