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O Método Mãe Canguru (MMC), também conhecido
como "Cuidado Mãe Canguru" ou "Contato Pele
a Pele", tem sido proposto como uma alternativa ao cuidado
neonatal convencional para bebês de baixo peso ao nascer (BPN).
Foi idealizado e implantado de forma pioneira por Edgar Rey Sanabria
e Hector Martinez em 1979, no Instituto Materno-Infantil de Bogotá,
Colômbia, e denominado "Mãe Canguru" devido
à maneira pela qual as mães carregavam seus bebês
após o nascimento, de forma semelhante aos marsupiais. Era
destinado a dar alta precoce para recém-nascidos de baixo
peso (RNBP) frente a uma situação crítica de
falta de incubadoras, infecções cruzadas, ausência
de recursos tecnológicos, desmame precoce, altas taxas de
mortalidade neonatal e abandono materno. O novo programa domiciliar
de atenção ao RNBP era baseado nos seguintes princípios:
a) alta precoce independentemente do peso, desde que o bebê
apresentasse condições clínicas estáveis;
b) não-utilização de fórmula infantil,
e sim apenas leite materno; c) incentivo ao contato pele a pele
precoce entre mãe e bebê, sendo o mesmo colocado entre
as mamas; e d) manutenção do bebê em posição
vertical. Essa iniciativa contou com o apoio do Fundo das Nações
Unidas para a Infância (UNICEF), o qual divulgou amplamente
seus resultados, especialmente no tocante à redução
da mortalidade, aos benefícios psicológicos e ao baixo
custo ().
Apesar dos questionamentos acerca das vantagens do MMC, que surgiram
em função da não-comparação desses
resultados iniciais com resultados obtidos em um grupo controle,
vários países europeus adotaram a prática,
e suas pesquisas confirmaram em grande parte os achados iniciais
().
Ao longo das últimas décadas, diversos serviços
adotaram o MMC, em países desenvolvidos e em desenvolvimento,
mostrando possibilidades de adaptação da proposta
em diferentes contextos de acesso à tecnologia na assistência
neonatal.
Os primeiros experimentos realizados em países desenvolvidos
indicaram que o método era seguro em termos de resposta fisiológica
do recém-nascido (RN) e que oferecia benefícios em
relação à prática da amamentação
e redução de hospitalizações, além
de reduzir o choro dos bebês aos 6 meses de vida ().
Dois experimentos realizados em países em desenvolvimento
mostraram que o MMC era seguro quanto à mortalidade, podendo
reduzir a morbidade grave e evitar reinternações ().
Em meados da década de 90, um grupo de pesquisadores e profissionais
de saúde de diversos países com experiência
em MMC reuniram-se em Trieste, Itália, para discutir a efetividade,
segurança, aplicabilidade e aceitabilidade desse tipo de
atenção ao RNBP em diferentes localidades. Com base
nas pesquisas já realizadas e nos relatos de experiências
de diferentes serviços, o grupo concluiu que o MMC tinha
potencial para melhorar a saúde e a sobrevivência de
RNBP, particularmente naqueles locais onde os recursos são
limitados. Porém, benefícios tanto para as mães
quanto para os bebês também podem ser obtidos nos locais
onde se dispõe de tecnologia, casos em que o método
contribui para a humanização da assistência
neonatal e para um melhor vínculo mãe-bebê ().
Esta revisão tem por objetivo demonstrar evidências
científicas sobre os benefícios do MMC no tocante
à amamentação, bem como seu impacto sobre a
morbidade e a mortalidade infantis, aspectos psicoafetivos e neurossensoriais.
O MMC no contexto brasileiro
No Brasil, os primeiros serviços que aplicaram o MMC foram
o Hospital Guilherme Álvaro, em Santos (SP), em 1992, e o
Instituto Materno-Infantil de Pernambuco (IMIP), em 1993. Em 1997,
o modelo adotado pelo IMIP foi reconhecido pela Fundação
Getúlio Vargas na premiação "Gestão
Pública e Cidadania", sendo também premiado pelo
Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES)
como Best Practice ().
A partir desse momento, houve uma considerável expansão
do MMC no País, o que contribuiu para a sua definição
como uma política pública, assim como ocorre em outros
quatro países: Colômbia, Indonésia, Moçambique
e Peru ().
No ano 2000, o Ministério da Saúde do Brasil aprovou
a Norma de Atenção Humanizada ao RNBP (MMC), recomendando-a
e definindo as diretrizes para sua implantação nas
unidades médico-assistenciais integrantes do Sistema Único
de Saúde (SUS). A Norma do Ministério propõe
a aplicação do método em três etapas,
iniciando nas unidades neonatais (unidades de terapia intensiva
neonatal - UTIN, e unidades de cuidados intermediários),
passando às unidades canguru (ou alojamento conjunto canguru)
e, após a alta hospitalar, nos ambulatórios de seguimento
(canguru domiciliar). Na primeira etapa, preconiza-se acesso precoce
e livre dos pais à UTIN, estímulo à amamentação
e participação da mãe nos cuidados do bebê,
bem como início do contato pele a pele logo que as condições
clínicas do bebê permitam. Na segunda etapa, mãe
e bebê permanecem em enfermaria conjunta, e a posição
canguru deve ser realizada pelo maior tempo possível. Os
critérios de elegibilidade para a permanência nessa
enfermaria são disponibilidade materna, capacidade materna
de reconhecer as situações de risco do RN e habilidade
para a colocação da criança em posição
canguru. Além disso, os bebês devem ter alcançado
estabilidade clínica, nutrição enteral plena,
peso mínimo de 1.250 g e ganho de peso diário maior
que 15 g. Os critérios para alta hospitalar, com transferência
para a terceira etapa, são: segurança materna quanto
aos cuidados do bebê; motivação e compromisso
para a realização do método por 24 horas/dia;
garantia de retorno à unidade de saúde de maneira
freqüente; peso mínimo de 1.500 g; criança com
sucção exclusiva ao seio; ganho de peso adequado nos
3 dias que antecedem a alta hospitalar; e condição
de recorrer à unidade hospitalar de origem a qualquer momento
enquanto estiver na terceira etapa, que se encerra, em geral, quando
o peso do bebê atinge 2.500 g ().
Silva (),
analisando as normas e rotinas definidas pelo Ministério
da Saúde, identificou cinco pilares na proposta brasileira:
(1) cuidados individualizados, centrados nos pais (intervenção
centrada na família); (2) contato pele a pele precoce (estimulação
adequada e prazerosa, com integração sensorial); (3)
controle ambiental de luz e som (para evitar estimulação
aversiva e inadequada); (4) adequação postural (prevenção
de futuras distonias nos RN prematuros); e (5) amamentação
(favorecendo vínculo e prevenção de doenças
no primeiro ano de vida).
Pode-se dizer que o desenvolvimento da proposta de Atenção
Humanizada ao RNBP - MMC no Brasil sofreu forte influência
da Colômbia, que norteou as linhas gerais do programa (presença
da mãe, contato pele a pele, aleitamento materno e possibilidade
de alta precoce), e também de outras experiências de
cuidados com bebês prematuros, como o Programa de Avaliação
e Cuidados Individualizados para o Desenvolvimento do Neonato (Newborn
Individualized Development Care and Assessment Program - NIDCAP),
que se baseia na teoria do desenvolvimento síncrono-ativo
().
Segundo essa teoria, o equilíbrio do funcionamento do bebê
prematuro é estabelecido por cinco subsistemas (autonômico,
motor, de estados, de atenção/interação
e regulador), que são interligados e interagem entre si.
A desorganização de um subsistema sobrecarrega os
outros e influencia negativamente o bebê, assim como a organização
de um subsistema influencia positivamente os demais, permitindo
um equilíbrio no organismo.
O MMC aplicado no Brasil pode ser considerado um programa de intervenção
complexo e abrangente, que leva em consideração o
desenvolvimento global do bebê e o meio em que ele está
inserido. Tem como objetivo a humanização da assistência
ao RNBP, e não a substituição da tecnologia
nas UTIN ().
Evidências científicas sobre
o papel do MMC na redução da morbidade e mortalidade
infantis
Desde sua primeira descrição, o MMC tem sido amplamente
estudado (),
embora existam poucos estudos com metodologia científica
adequada para a avaliação de seu impacto sobre morbidade
e mortalidade.
Uma revisão sistemática realizada pela Cochrane
Library, atualizada em fevereiro de 2003, identificou apenas
três estudos comparando o MMC com o cuidado convencional de
atenção ao RNBP que respeitavam o critério
para inclusão na análise, que era a alocação
aleatória dos bebês abaixo de 2.500 g no grupo canguru
ou controle ().
O primeiro estudo, realizado em um hospital do Equador (),
analisou a evolução de bebês com peso de nascimento
inferior a 2.000 g, não-gemelares e que não haviam
apresentado graves anormalidades congênitas, respiratórias,
metabólicas ou infecciosas. Foram alocados aleatoriamente
140 bebês no grupo canguru e 160 bebês no grupo controle,
sendo que os bebês do grupo canguru foram mantidos em contato
pele a pele e amamentados em livre demanda, enquanto os bebês
do grupo controle permaneceram em incubadoras ou berços aquecidos
e foram amamentados com horários predefinidos. O segundo
estudo, realizado na Colômbia (),
pesquisou bebês com peso de nascimento igual ou inferior a
2.000 g, com mãe ou parente disponível para participar
do programa e sem planos de deixar Bogotá em futuro próximo,
que não apresentaram malformações congênitas
ou problemas perinatais detectados precocemente. De um total de
777 RN, 396 foram alocados randomicamente no grupo canguru, tendo
permanecido 24 horas por dia em contato pele a pele, recebendo leite
materno regularmente, embora fórmula infantil fosse administrada
se necessário. O terceiro estudo foi realizado em três
hospitais, na Etiópia, Indonésia e México (),
com RN cujo peso de nascimento variou entre 1.000 e 1.999 g, sem
dependência de oxigênio e/ou líquidos intravenosos,
com habilidade para mamar e sem malformações. De um
total de 463 bebês, 178 foram excluídos, não
sendo conhecido o número de RN inicialmente alocados em cada
um dos grupos. Os bebês do grupo canguru foram mantidos em
contato pele a pele contínuo, dia e noite, incluindo os períodos
de sono materno.
Os principais achados dessa revisão, que envolveu um total
de 1.362 bebês e utilizou métodos padronizados da Cochrane
Collaboration para a condução da análise
estatística, foram os seguintes (entre parêntesis apresentam-se
os riscos relativos e respectivos intervalos de confiança):
- O MMC apresentou-se associado a redução do
risco de infecção hospitalar com 41 semanas de idade
gestacional corrigida (RR 0,49; IC95% 0,25-0,93); redução
de enfermidades graves (RR 0,30; IC95% 0,14-0,67); e redução
de infecções do trato respiratório inferior
no seguimento de 6 meses (RR 0,37; IC95% 0,15-0,89).
- Bebês submetidos ao MMC tiveram maior ganho de peso
diário (diferença de médias de 3,6 g/dia; IC95%
0,8-6,4).
- O desenvolvimento psicomotor foi semelhante nos dois grupos
aos 12 meses de idade corrigida.
- Não houve evidências de diferenças na
mortalidade infantil comparando-se os dois grupos.
Os autores responsáveis pela revisão concluem que,
embora o MMC pareça reduzir a morbidade infantil, as evidências
são ainda insuficientes para que o método seja recomendado
rotineiramente, pois alguns questionamentos feitos acerca da metodologia
dos ensaios incluídos enfraquecem a credibilidade dos achados.
Apontam também a necessidade de realização
de mais experimentos randomizados, controlados e bem desenhados.
Por outro lado, os mesmos autores reconhecem que não existem
relatos sobre efeitos deletérios da aplicação
do MMC ().
Recentemente, estudo randomizado controlado realizado em dois hospitais
na África do Sul mostrou que bebês submetidos ao contato
pele a pele alcançaram melhores resultados na estabilização
fisiológica quando comparados a bebês que permaneceram
em incubadoras ().
Evidências de benefícios psicoafetivos
relacionados ao MMC
A separação do bebê de sua família, principalmente
de sua mãe, imposta pelas condições clínicas
do bebê doente e por normas das UTIN convencionais, pode levar
a uma interferência negativa na formação dos
laços afetivos, o que pode afetar o posterior desenvolvimento
psicoemocional desse bebê.
Existem evidências de que um contato íntimo da mãe
com seu bebê prematuro pode interferir positivamente na relação
desse bebê com o mundo. A pele, maior órgão
do corpo, recebe estímulos sensoriais de várias magnitudes,
e o contato pele a pele, que no MMC implica o contato cutâneo
corpo/tórax entre o bebê prematuro e sua mãe,
pode promover várias mudanças no organismo tanto de
um como do outro. O conhecido efeito do contato pele a pele como
um estimulador da liberação de ocitocina parece desempenhar
um importante papel no comportamento da mãe e afetar positivamente
o seu humor, facilitando o contato com o bebê ().
Em 1989, Affonso et al. (),
em um estudo com 33 mães que realizaram o contato pele a
pele com seus bebês prematuros e um grupo controle, observaram
uma tendência a maior estabilidade emocional nas mães
que utilizaram essa prática. Relataram também maior
sentimento de confiança e competência em comparação
com as mães dos bebês que receberam cuidados convencionais.
Sinais de estabelecimento de uma relação afetiva mais
precoce com o bebê e maior proximidade dos pais nos seus cuidados
e no acompanhamento do crescimento e desenvolvimento foram relatado
por Charpak et al. ()
e Reichert et al. ()
em outros estudos.
Em uma pesquisa envolvendo 488 mães de bebês prematuros,
Tessier et al. ()
observaram que aquelas que realizaram o MMC se sentiram mais competentes
e apresentaram melhor percepção das competências
do bebê. Além disso, apresentaram menos sentimentos
de estresse mesmo quando a estadia hospitalar foi prolongada. Vantagens
como melhor relação com o bebê, com a equipe,
melhor aceitação dos cuidados recebidos pelo bebê
na UTI e maior segurança nos cuidados foram sentimentos também
relatados por pais que participaram de um Programa Canguru relatado
por Rapisardi et al. ().
O relato desses sentimentos subjetivos pode ser entendido como sinais
positivos indiretos de formação de vínculo
afetivo favorecido pelo MMC e poderiam ser indicadores positivos
para uma maior participação dos pais nos cuidados
e na estimulação dos bebês, permitindo a eles
uma atenção mais continente e mais individualizada
().
Por outro lado, a separação prolongada entre mãe
e bebê pode interferir negativamente na formação
do vínculo afetivo. Klaus & Kennel ()
descreveram a prematuridade e a internação prolongada
como fatores de risco para atraso do desenvolvimento, maus-tratos
familiares e mesmo abuso, atribuindo a gênese desses problemas
ao afastamento da criança imposto à família.
Uma pesquisa prospectiva australiana com 353 bebês nascidos
com peso menor que 1.000 g e que foram cuidados em unidades neonatais
convencionais identificou, após a avaliação
de 167 casos encaminhados, 80 crianças com quadro comprovado
de maus-tratos, os quais não puderam ser relacionados com
presença de deficiências, causas médicas ou
perinatais, tendo sido principalmente relacionados a fatores parentais
().
Evidências de benefícios neurossensoriais
relacionados ao MMC
O bebê prematuro nasce em um período de rápido
e pleno processo de maturação, principalmente no que
se refere à maturação cerebral e ao desenvolvimento
do aparelho psíquico emocional. Tem seu processo fisiológico
de maturação interrompido e é privado de um
meio intra-uterino ótimo, que proporcionava experiências
sensoriais e motoras variadas e continentes, facilitadas pela ausência
de gravidade. Suas vivências se norteavam pelo ritmo materno
e estava razoavelmente protegido contra o excesso de estimulação
externa. Após o nascimento, é esperado que, pela sua
condição de imaturidade, o meio extra-uterino exerça
um impacto considerável no seu organismo. Brazelton (),
em sua observação minuciosa de bebês, referiu
que o sistema nervoso de um bebê prematuro se organiza com
mais facilidade quando permanece em ambiente tranqüilo e sem
uma carga excessiva de estímulos. Meyerhof ()
avaliou bebês prematuros assistidos em uma unidade de cuidados
convencionais utilizando a escala de Brazelton, que consiste na
observação da resposta comportamental do RN a diferentes
estímulos, corroborando a afirmativa de que um ambiente menos
estressante tem um impacto positivo na maturação do
bebê. Os bebês prematuros que receberam cuidados convencionais,
mantidos organizados dentro da incubadora e possibilitados de descansar
e dormir em determinados períodos do dia, permaneceram menos
tempo internados, menos tempo na incubadora e tiveram um menor tempo
de uso de sonda orogástrica. Apresentaram também melhor
controle nos estados comportamentais e na estabilidade autonômica,
demonstrando, assim, uma maior estabilidade fisiológica e
comportamental.
Observando-se ainda o padrão fisiológico durante
a vida intra-uterina, nota-se que as experiências do bebê
acontecem em um ritmo cíclico de atividade e são norteadas
pelas possibilidades de descansar e dormir sempre que sentir necessidade,
o que, segundo Korones (),
acontece em cerca de 80% do tempo. Mann et al. (),
em suas pesquisas, referem o sono como um grande influenciador positivo
do desenvolvimento cerebral.
Por outro lado, o ambiente extra-uterino inadequado, caracterizado
por situações constantes de estresse, manipulação,
privação do sono, ruído e luminosidade excessiva,
resulta em efeitos aversivos ao desenvolvimento adequado do sistema
nervoso ()
e é indicador de risco para o desenvolvimento normal ().
Como grande fator de estresse e desorganização na
unidade neonatal, destacam-se os estímulos dolorosos a que
são expostos esses bebês. Estudos recentes demonstraram
que as experiências dolorosas no período neonatal podem
levar a alterações no desenvolvimento global de bebês
prematuros ().
Diante dos estudos mostrando que o meio ambiente e a forma como
são cuidados os bebês prematuros poderiam interferir
negativamente no seu desenvolvimento, surgiram várias propostas
de programas de intervenção neonatal com a finalidade
de resguardar o bebê e oferecer estímulos adequados,
para minimizar os efeitos da intervenção impostos
pelas necessidades orgânicas dos bebês. Foram desenvolvidos
e adotados programas com alguns critérios, como redução
da luminosidade e do ruído do ambiente e adequação
da postura facilitadora na incubadora a fim de propiciar a auto-organização
e o autoconsolo, além de medidas para o controle da dor e
a possibilidade de períodos de descanso e sono. Os resultados
dos estudos confirmaram que bebês que foram cuidados levando-se
em consideração os aspectos acima citados apresentaram
melhores resultados no seu desenvolvimento global quando avaliados,
mesmo que de forma parcial ().
A adequação postural por si só permitiria a
auto-organização, a manutenção adequada
do tônus e o autoconsolo do bebê ().
Salles ()avaliou
25 bebês nascidos prematuramente que foram cuidados em uma
unidade que utilizou medidas consideradas protetoras para o desenvolvimento
normal do sistema nervoso central (adequação postural
na incubadora, atenuação do ruído excessivo
e da luminosidade e realização do contato pele a pele,
incluindo o MMC), comparando-os com um grupo controle que foi assistido
em uma unidade de cuidados convencionais. O exame utilizado foi
o teste neurocomportamental de Dubowitz, aplicado quando os bebês
tinham 40 semanas de idade corrigida. O grupo que recebeu os cuidados
protetores mostrou desempenho significativamente melhor no exame
do que o grupo controle.
A associação dessas medidas protetoras com a possibilidade
da presença dos pais na unidade neonatal, sua participação
nos cuidados e o contato pele a pele trouxeram novas perspectivas
para uma estimulação positiva para esses bebês
().
A presença dos pais possibilita mais facilmente o contato
pele a pele, que, por sua vez, permite a estimulação
tátil proprioceptiva e protege contra a sobrecarga de estímulos
aversivos, compreendendo um método aceitável para
estimular adequadamente o desenvolvimento neurocomportamental do
bebê ().
Bebês prematuros que realizaram contato pele a pele apresentam
melhor desenvolvimento mental e melhores índices em testes
de motricidade (),
uma diferença significantemente menor no tempo de duração
do choro e no padrão de consolabilidade ()
e períodos de sono mais profundos ().
Um outro impacto sobre o desenvolvimento do bebê prematuro
se refere à presença de alterações neurológicas
transitórias observadas principalmente no tônus muscular
durante o primeiro ano de vida. O índice na literatura varia
de 36 até 83%, dependendo do peso e idade gestacional no
nascimento ().
No entanto, Silva ()
observou uma incidência de apenas 27,1% de alterações
tônicas transitórias em um dos poucos trabalhos realizados
no Brasil com acompanhamento neurológico de bebês prematuros
que participaram de um Programa Canguru. Nesse estudo, o autor acompanhou
o desenvolvimento neurológico de 70 crianças nascidas
prematuramente e submetidas ao MMC centrado em medidas protetoras
na unidade neonatal, no contato pele a pele e na participação
dos pais.
Evidências sobre benefícios
relacionados à prática do aleitamento materno
Um importante pilar do Cuidado Mãe Canguru é o estímulo
à amamentação. Apesar de as evidências
apontarem para os inúmeros benefícios do aleitamento
materno para o bebê prematuro (),
a prevalência de aleitamento nesse grupo ainda é muito
baixa. Xavier et al. (),
em estudo descritivo sobre aleitamento materno em bebês nascidos
com peso igual ou inferior a 2.500 g no Hospital das Clínicas
de Ribeirão Preto (SP), verificaram que 13,5% nunca haviam
sido amamentados e que somente 38,5% estavam sendo amamentados aos
6 meses de vida. Lefebvre ()
observou, no Canadá, que em bebês com peso de nascimento
abaixo de 2.500 g, somente 58% foram amamentados ao nascimento,
enquanto que 73% foram amamentados no grupo de bebês de termo.
Entre os bebês de baixo peso, somente 3% receberam alta em
aleitamento exclusivo, e 11% nunca chegaram a ser colocados ao seio.
Hellbauer et al. (),
na África do Sul, estudando os fatores que influenciam a
escolha materna sobre a forma de alimentação do seu
bebê após a alta de uma UTIN, observaram que, entre
outros fatores, o baixo peso do bebê ao nascimento e o tempo
prolongado de internação afetaram negativamente a
decisão de amamentar. Bicalho-Mancini et al. (),
em estudo realizado sobre os fatores de risco para a não-amamentação
exclusiva em bebês de baixo peso internados em UTIN em Belo
Horizonte (MG) antes e depois da implantação da Iniciativa
Hospital Amigo da Criança, observaram que, apesar das taxas
de aleitamento materno exclusivo no momento da alta aumentarem de
36% (antes da implantação) para 54,7% (após
a implantação), esses números mostram ainda
a necessidade de outras intervenções para aumentar
a prática da amamentação entre esses bebês.
Boo (),
na Malásia, com o intuito de verificar a taxa de amamentação
em bebês nascidos abaixo de 1.500 g e internados numa unidade
neonatal de risco, observou também que, apesar das práticas
de incentivo à amamentação existentes no hospital,
somente 40,2% desses bebês estavam sendo amamentados à
alta hospitalar.
Em contrapartida, estudos realizados em serviços que praticam
o MMC mostram que mães que realizam o contato pele a pele
com seu bebê prematuro apresentam um volume diário
de produção de leite significativamente maior quando
comparadas com um grupo controle. Além disso, observam que
o abandono da lactação foi mais freqüente entre
as mães que não fizeram uso do método ().
Em um estudo randomizado controlado com 71 bebês prematuros
com peso de nascimento inferior a 1.500 g, Whitelaw et al., na Suécia
(),
verificaram que, na sexta semana de vida, os bebês que realizaram
o MMC apresentaram uma prevalência de aleitamento materno
duas vezes maior que os do grupo controle (55 versus 28%).
Ramanathan et al., em Nova Déli, Índia (),
encontraram resultados semelhantes em um estudo com 28 bebês
prematuros, no qual a freqüência de aleitamento na sexta
semana de vida foi de 85,7% para os bebês submetidos ao MMC
contra 42,8% para os controles. Charpak et al., em duas pesquisas
realizadas na Colômbia, uma em 1994 e outra em 2001, também
verificaram maiores prevalências de aleitamento materno com
1, 6 e 12 meses de vida nos bebês que realizaram o Método
Canguru quando comparados aos controles ().
No Brasil, Lima et al. ()
e Silva ()
encontraram resultados semelhantes nos indicadores de aleitamento
materno. Aos 6 meses de vida, as prevalências de aleitamento
materno nesses estudos foram, respectivamente, de 63 e 60,3% nos
bebês que participaram de programa Mãe Canguru.
Conde-Agudelo et al. ()
concluíram recentemente, a partir da análise de três
experimentos randomizados, que o MMC foi fator de proteção
para a amamentação exclusiva no momento da alta hospitalar
(RR 0,41; IC95% 0,25-0,68).
A Tabela 1 apresenta um breve resumo de alguns trabalhos que investigaram
a prática do aleitamento materno em bebês submetidos
ao MMC.
Tabela 1 -
Estudos que analisaram o MMC e a freqüência de aleitamento
materno
Considerações finais
O MMC no Brasil, ou Atenção Humanizada ao RNBP, fundamenta-se
no processo de desenvolvimento contínuo do bebê e introduz
algumas possibilidades de entendimento da assistência neonatal
em um contexto mais amplo, propondo o resgate dos conhecimentos
fisiológicos, psicológicos e neurológicos do
ser humano e levando em consideração o indivíduo
por completo. Acrescenta substratos baseados no desenvolvimento
neuropsicoemocional, contribuindo, assim, para uma atenção
equilibrada às necessidades do bebê e de sua família.
Este trabalho de revisão apresenta evidências sobre
os benefícios do MMC que certamente foram consideradas quando
da definição dessa estratégia de atenção
como uma política pública no Brasil. É fundamental,
porém, que se realizem pesquisas sobre a efetividade dessa
estratégia de atenção ao bebê de baixo
peso no contexto brasileiro. Não se pode perder de vista
o fato de que o MMC foi aqui proposto com o objetivo de humanizar
a atenção ao RNBP, à semelhança do que
ocorre nos países desenvolvidos, e não com o propósito
de substituir a tecnologia das unidades neonatais. Há que
se considerar também, nas pesquisas, os diferentes contextos
nos quais o método tem sido aplicado, uma vez que nosso país
é marcado por grandes diferenças macro- e microrregionais.
Trabalhos nacionais publicados recentemente sobre o tema mostram
o interesse de pesquisadores em aspectos subjetivos, como a percepção
de pais de bebês prematuros sobre a vivência do MMC
()
e a influência das redes de apoio sobre essa prática
().
Esses estudos, sobre aceitabilidade e aplicabilidade do método,
são também fundamentais para fornecer subsídios
e apontar caminhos para a organização da assistência
canguru em nosso meio.
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