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Introdução
A acalasia de esôfago de causa desconhecida é uma doença
rara, atingindo 1:100.000 da população geral, sendo
que apenas 4 a 5% desses casos são descritos em crianças
().
A acalasia envolve uma falha no relaxamento do esfíncter
inferior do esôfago (EIE) aliada a uma dismotilidade do corpo
esofagiano. Existe uma dificuldade de passagem do alimento pela
transição esofagogástrica sem que haja uma
verdadeira estenose orgânica ou compressão extrínseca.
O espectro de sintomas é amplo, variando desde regurgitação
até pneumonias aspirativas de repetição. Crianças
maiores referem sintomas de disfagia progressiva. Por esses motivos,
muitas vezes a doença é confundida com doença
do refluxo gastroesofageano (DRGE), retardando seu diagnóstico
().
Devido à raridade do caso e à dificuldade diagnóstica,
os autores relatam um caso de acalasia de esôfago de causa
desconhecida na infância.
Relato de caso
Paciente do sexo feminino, proveniente do Centro Hospitalar de
Santo André (CHMSA), com 9 anos de idade, deu entrada no
Serviço de Cirurgia Pediátrica da Faculdade de Medicina
do ABC, Hospital de Ensino, São Bernardo do Campo, com queixa
de vômitos, há 2 meses, imediatamente após as
refeições, em moderada quantidade, de característica
esofágica, não precedidos de náuseas, com reconhecimento
dos alimentos recentemente ingeridos e de cor clara. Os vômitos
eram diários, com freqüência de uma vez ao dia
e períodos de acalmia de 2 a 3 dias, sendo que, nos últimos
15 dias, não houve mais períodos de acalmia, e os
episódios passaram a ser de duas a três vezes por dia.
O quadro foi acompanhado de emagrecimento de 10 kg no período,
apesar da paciente, no momento da admissão, encontrar-se
no percentil 50 para peso e altura. Nega disfagia, odinofagia, regurgitação
noturna, dor abdominal. Como antecedentes pessoais, há 3
meses apresentou quadro de infecção viral das vias
aéreas superiores, acompanhado de um episódio de broncoespasmo
1 mês antes do início dos sintomas.
No esofagograma, observou-se afilamento do esôfago junto
à cárdia, dificultando a passagem do contraste até
30 minutos após sua ingestão (Figura 1). Ausência
de refluxo gastroesofágico, presença de refluxo esôfago-esofágico
e de ondas terciárias, descartando-se, assim, a hipótese
de DRGE.
Figura 1- Raio X contrastado de esôfago e estômago mostrando
afilamento do esôfago junto à cárdia, dificultando
a passagem do contraste, com alargamento do corpo esofágico
e presença de nível hidroaéreo
A endoscopia digestiva alta revelou dificuldade na progressão
do aparelho junto à cárdia, sendo realizada biópsia
endoscópica do esôfago, cujo exame anatomopatológico
demonstrou esofagite crônica com acantose. A eletromanometria
esofágica revelou relaxamento ausente do EIE após
todas as deglutições, além de aumento de sua
pressão basal, compatível com acalasia de esôfago
(Figura 2).
Figura 2- Eletromanometria esofágica mostrando ausência
do relaxamento do esfíncter inferior do esôfago após
as deglutições (seta)
Com o diagnóstico de acalasia de esôfago, a criança
foi submetida a cardiomiomectomia por laparotomia e realização
de válvula anti-refluxo anterior (fundoplicatura a Dor),
sem intercorrências intra- ou pós-operatórias
(Figura 3), recebendo alta no quarto dia de pós-operatório.
O estudo anatomopatológico da peça cirúrgica
demonstrou presença de filetes neurais e ausência de
células ganglionares intramurais.
Figura 3- Fotografia do primeiro plano de sutura da fundoplicatura
anterior a Dor sobre área de cardiomiomectomia (seta) parcialmente
recoberta pelo fundo gástrico (seta tracejada)
Atualmente, no segundo ano de pós-operatório, a paciente
segue em acompanhamento ambulatorial, estando assintomática
e apresentando ganho de peso. Realizou esofagograma e endoscopia
digestiva alta de controle, ambos normais.
Discussão
A acalasia do esôfago consiste na falência do mecanismo
de relaxamento muscular coordenado do EIE após uma contração
peristáltica do corpo esofagiano estimulada por uma deglutição ().
Doença de etiologia desconhecida e rara na infância,
a acalasia de esôfago afeta mais as crianças do sexo
masculino (1:6) (o caso relatado é de uma paciente do sexo
feminino) e não tem incidência familiar ().
As principais teorias que explicam o seu aparecimento são:
1) anormalidade primária neurogênica com falha da inervação
inibitória e progressiva degeneração das células
ganglionares; 2) perda adquirida das células ganglionares
do plexo mioentérico, secundária a DRGE, doença
de Chagas, ou após processos virais ().
O quadro clínico é variável, incluindo desde
regurgitação dos alimentos ingeridos, relatados como
vômitos imediatamente após as refeições
(associados ou não a conteúdo de estase), retardo
do crescimento pôndero-estatural ou perda de peso, quadros
pneumônicos de repetição por síndromes
aspirativas e, em crianças maiores, queixa de disfagia ().
Por esses sintomas e por estar relacionada à DRGE, muitas
vezes o diagnóstico de acalasia do esôfago fica subestimado.
No presente caso, observamos relato de regurgitação
e perda de peso.
O primeiro exame utilizado para o diagnóstico é o
esofagograma. No caso descrito, observou-se afilamento do terço
distal do esôfago (imagem do "bico de pássaro").
A montante dessa dilatação estão presentes
ondas terciárias do corpo esofageano, acompanhadas de nível
hidroaéreo, resultando em dificuldade na passagem de contraste
do esôfago para o estômago (Figura 1), de acordo com
relatos da literatura ().
O exame endoscópico mostrou dificuldade na progressão
do aparelho (),
de acordo com a literatura. Este exame é de fundamental importância
para verificar a presença de esofagites e outros tipos de
lesões presentes na DRGE, como a estenose esofágica.
Essas lesões podem estar associadas à acalasia. Na
nossa paciente, observamos, no exame endoscópico, acantose
e esofagite crônica. Além de possibilitar a biópsia
do esôfago, a endoscopia pode ser usada como recurso terapêutico,
como discutiremos adiante.
Atualmente, o exame de eleição para confirmar a existência
da doença é a manometria esofágica (), onde
se observa um aumento da pressão basal do EIE acompanhado
de um relaxamento incompleto ou ausente do mesmo após uma
deglutição e associado a uma incoordenação
peristáltica do corpo esofageano durante a deglutição,
de acordo com o caso descrito (). Estudos cintilográficos
e do pH esofágico são úteis para o diagnóstico
de exclusão ou de associação com DRGE - exames
estes não realizados na paciente em questão ().
Classicamente, a dilatação esofágica e a esofagomiotomia
por laparotomia têm sido o tratamento de escolha nos últimos
40 anos (). Atualmente, há outras possibilidades de tratamento,
como o medicamentoso, com o uso de bloqueadores de canais de cálcio,
que atuariam no relaxamento do EIE. Essa terapêutica não
tem sido usada em crianças, e seu uso em adultos não
traz resultados eficazes (). Há também a possibilidade
de tratamento pela injeção de toxina botulínica
diretamente sobre o EIE (). Essa terapia fica reservada para os casos
em que não há condições cirúrgicas
por parte do paciente, além de apresentar efeito por tempo
limitado, necessitando de injeções repetidas em intervalos
de tempos progressivamente menores. Observou-se também que
seu uso pode levar à destruição progressiva
da parede do esôfago, além de dificultar a realização
de procedimentos cirúrgicos (), motivo pelo qual não
utilizamos esse tipo de procedimento.
A dilatação pneumática por balão tem
sido defendida por alguns autores (),
mas sabe-se que seus efeitos são transitórios e que
a maioria dos pacientes apresenta recidivas dos sintomas, podendo
desenvolver DRGE; além disso, há grande risco de perfuração
esofágica durante as dilatações ().
O tratamento cirúrgico clássico consiste em realizar
a miotomia do esôfago e da cárdia, sendo que alguns
autores preconizam uma variação dessa técnica,
retirando-se uma fita de tecido muscular (miomectomia). Esta se
estende desde o EIE até 2 ou 3 cm acima da cárdia
e geralmente está associada a procedimentos anti-refluxo,
visto que somente a realização da cardiomiomectomia
favorece o aparecimento do refluxo gastroesofágico (). Essas
crianças apresentam bons resultados pós-operatórios,
e algumas séries mostram resultados satisfatórios
em seguimentos de longo prazo ().Atualmente, o caso relatado está
em acompanhamento ambulatorial, no oitavo mês de pós-operatório,
e até a presente data mantém-se assintomático,
com boa aceitação alimentar e ganho pôndero-estatural.
Nos últimos anos, com o advento da laparoscopia, tornou
menos invasivo o tratamento cirúrgico da acalasia do esôfago.
Essa abordagem pode ser tanto abdominal quanto torácica.
A abordagem transtorácica por vídeo permite a realização
de uma miotomia com adequado comprimento, porém não
permite a realização dos procedimentos anti-refluxo,
uma vez que estudos de pHmetria pós-operatórios de
miotomias transtorácicas apresentam 60% de refluxo gastroesofágico
como complicação ().
A abordagem abdominal laparoscópica permite a realização
da miomectomia associada a procedimento anti-refluxo; dentre eles,
o mais aceito é a fundoplicatura anterior a Dor. Essa técnica
consiste em recobrir a mucosa esofágica exposta com o fundo
gástrico por via anterior. Com isso, evita-se que ocorra
DRGE posteriormente, além de se proteger a mucosa esofagiana
exposta ().
Segundo alguns autores, a chamada cirurgia minimamente invasiva
(laparoscópica) representa não só um tratamento
mais eficaz para a doença como também uma redução
no tempo de internação (média de 2 a 3 dias)
e nos custos hospitalares, com retorno mais precoce às atividades
normais da criança (). Porém, requer material e
profissionais habilitados, que justifiquem seu uso. No nosso meio,
apenas alguns serviços dispõem dessa tecnologia, limitando,
assim, seu uso em crianças.
Estudos manométricos pós-operatórios revelam
que poucos pacientes têm recuperação parcial
do peristaltismo esofageano, sendo capazes de gerar algumas ondas
progressivas, mas não fortes o suficiente para serem efetivas;
isso leva a crer que a acalasia não consiste somente de uma
falha de relaxamento do EIE, mas também de uma dismotilidade
esofageana generalizada ().
No caso relatado, optou-se por cardiomiomectomia a Heller por laparotomia
e fundoplicatura anterior a Dor, com boa evolução
pós-operatória, alta hospitalar em 4 dias (dentro
da expectativa descrita pela literatura) e sem sinais de recidivas
até o momento.
Conclusão
A acalasia de esôfago é uma doença rara em
crianças, e sua origem geralmente é indeterminada.
A sintomatologia do doente pode sugerir refluxo gastroesofágico,
determinando o insucesso do tratamento. O esofagograma e, mais precisamente,
a manometria esofágica confirmam seu diagnóstico.
A cardiomiotomia a Heller, especialmente na forma de cardiomiomectomia
associada a válvula anti-refluxo, consiste na modalidade
terapêutica de escolha em muitos serviços, tendo sido
instituída no caso descrito, o qual apresentou boa evolução.
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