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É consenso que a obesidade infantil vem aumentando de forma
significativa e que ela determina várias complicações
na infância e na idade adulta. Na infância, o manejo
pode ser ainda mais difícil do que na fase adulta, pois está
relacionado a mudanças de hábitos e disponibilidade
dos pais, além de uma falta de entendimento da criança
quanto aos danos da obesidade.
O objetivo deste estudo é apresentar características
gerais da obesidade e, especialmente, salientar aspectos práticos
do tratamento da obesidade infantil de ampla aplicação,
além da importância da prevenção e formas
práticas de realizá-la.
Prevalência da obesidade no Brasil
De acordo com relatos da Organização Mundial da Saúde,
a prevalência de obesidade infantil tem crescido em torno
de 10 a 40% na maioria dos países europeus nos últimos
10 anos. A obesidade ocorre mais freqüentemente no primeiro
ano de vida, entre 5 e 6 anos e na adolescência ().
No Brasil, já foram realizados estudos ()
verificando o aumento da obesidade infantil, como apresentado na
Tabela 1.
Tabela 1 -
Prevalência de desnutrição, sobrepeso e obesidade em crianças e adolescentes no Brasil
A Figura 1 mostra a freqüência aumentada de obesidade
e desnutrição em duas regiões do país
em três décadas ().
Figura 1 -
Prevalência, em porcentagem, de obesidade e desnutrição em três
décadas em duas regiões do Brasil ()
A obesidade está presente nas diferentes faixas econômicas
- no Brasil, principalmente nas faixas de classe mais alta. A classe
socioeconômica influencia a obesidade por meio da educação,
da renda e da ocupação, resultando em padrões
comportamentais específicos que afetam ingestão calórica,
gasto energético e taxa de metabolismo. Entretanto, à
medida que alimentos saudáveis, incluindo peixes, carnes
magras, vegetais e frutas frescas, estão menos disponíveis
para indivíduos de condições mais restritas,
a relação entre obesidade e baixa classe socioeconômica
é observada em países em desenvolvimento ().
Wang et al. ()
compararam a prevalência de obesidade de acordo com a renda
familiar entre vários países nas décadas de
70 e 90. A Figura 2 mostra a comparação desses aspectos
entre o Brasil e os Estados Unidos. No Brasil, assim como nos Estados
Unidos e Europa, tem-se observado um aumento da prevalência
de obesidade, o qual está estritamente relacionado com mudanças
no estilo de vida (outros tipos de brincadeiras, mais tempo frente
à televisão e jogos de computadores, maior dificuldade
de brincar na rua pela falta de segurança) e nos hábitos
alimentares (maior apelo comercial pelos produtos ricos em carboidratos
simples, gorduras e calorias, maior facilidade de fazer preparações
ricas em gorduras e calorias e menor custo de produtos de padaria)
().
Figura 2 -
Prevalência de sobrepeso, em porcentagem, de acordo com a renda
familiar per capita em pesquisas nacionais do Brasil e Estados Unidos
nas décadas de 70 e 90 ()
No Brasil, foram realizados dois grandes inquéritos, em
1989 e em 1996, posteriormente analisados de forma crítica
por Taddei et al. ().
Foi observado que, nesses 7 anos, houve mudanças relevantes
na prevalência de obesidade entre crianças menores
de 5 anos de idade. Observou-se aumento da prevalência nas
regiões menos desenvolvidas e redução em regiões
mais desenvolvidas. Tanto os aumentos quanto as reduções
ocorreram mais intensamente entre filhos de mães com maior
grau de escolaridade e entre crianças menores de 2 anos de
idade das respectivas regiões (Figura 3).
Figura 3 -
Demonstração das prevalências, em porcentagem, de sobrepeso e
obesidade em dois inquéritos realizados no Brasil ()
Definição e avaliação
da obesidade
A definição de obesidade é muito simples quando
não se prende a formalidades científicas ou metodológicas.
O visual do corpo é o grande elemento a ser utilizado. O
ganho de peso na criança é acompanhado por aumento
de estatura e aceleração da idade óssea. No
entanto, depois, o ganho de peso continua, e a estatura e a idade
óssea se mantêm constantes. A puberdade pode ocorrer
mais cedo, o que acarreta altura final diminuída, devido
ao fechamento mais precoce das cartilagens de crescimento ().
Existem vários métodos diagnósticos para classificar
o indivíduo em obeso e sobrepeso. O índice de massa
corporal (IMC, peso/estatura ())
e a medida da dobra cutânea do tríceps (DCT) são
bastante utilizados em estudos clínicos e epidemiológicos.
Os percentis 85 e 95 do IMC e da DCT são comumente utilizados
para detectar sobrepeso e obesidade, respectivamente ().
Mais recentemente, tem-se a tabela de Cole et al. (),
com padrões mundiais para sobrepeso e obesidade infantil.
Outro índice bastante útil é o índice
de obesidade (IO, peso atual/peso no percentil 50/estatura atual/estatura
no percentil 50 x 100), que nos indica quanto do peso do paciente
excede seu peso esperado, corrigido para a estatura. De acordo com
esse índice, a obesidade é considerada leve quando
o IO é de 120 a 130%, moderada quando é de 130 a 150%,
e grave quando excede 150%. Um grande problema deste método
é pressupor que qualquer aumento de peso acima do peso corpóreo
padrão represente aumento de gordura. Assim, nem todas as
crianças com IO superior a 120% são, de fato, obesas.
Mas, de qualquer forma, este método pode ser valioso na triagem
de crianças obesas ().
A escolha de um ou vários métodos deve ser criteriosa,
devendo-se considerar sexo, idade e maturidade sexual para obter
valores de referência e classificações de obesidade
().
No sexo feminino, as dobras cutâneas podem ser maiores, pela
maior quantidade de gordura ().
Na criança e no adolescente, o IMC está relacionado
com idade e estágio de maturação sexual ().
Há diferenças na quantidade de gordura e na sua distribuição
regional entre as pessoas, e também quanto a idade e sexo
- diferenças essas que podem ser de origem genética
().
Complicações da obesidade
infantil
A quantidade total de gordura, o excesso de gordura em tronco ou
região abdominal e o excesso de gordura visceral são
três aspectos da composição corporal associados
à ocorrência de doenças crônico-degenerativas.
O aumento do colesterol sérico é um fator de risco
para doença coronariana, e esse risco é ainda maior
quando associado à obesidade. O sobrepeso triplica o risco
de desenvolvimento de diabetes melito ().
Assim como a obesidade, o nível de colesterol aumentado,
o hábito de fumar e a presença de hipertensão
arterial sistêmica, diabetes melito e sedentarismo são
fatores de risco independentes para doença coronariana. A
obesidade é fator de risco para dislipidemia, promovendo
aumento de colesterol, triglicerídeos e redução
da fração HDL colesterol. A perda de peso melhora
o perfil lipídico e diminui o risco de doenças cardiovasculares
().
Oliveira et al. ()
referem que a qualidade da ingestão é um fator de
risco para doença coronariana e que a ingestão da
criança está intimamente relacionada com a dos pais.
A aterosclerose tem início na infância, com o depósito
de colesterol na íntima das artérias musculares, formando
a estria de gordura. Essas estrias nas artérias coronarianas
de crianças podem, em alguns indivíduos, progredir
para lesões ateroscleróticas avançadas em poucas
décadas, sendo este processo reversível no início
do seu desenvolvimento. É importante ressaltar que o ritmo
de progressão é variável ().
A determinação sistemática do perfil lipídico
na infância e adolescência não é recomendável.
Entretanto, deve ser realizada entre os 2 e 19 anos de idade em
situações de risco. Os valores de lipídeos
limítrofes e aumentados estão apresentados na Tabela
2. Confirmada a dislipidemia, o tratamento dietético deverá
ser iniciado após os 2 anos de idade, com o cuidado de priorizar
as necessidades energéticas e vitamínicas próprias
à idade e a flexibilidade de permitir, em algumas situações,
ingestão de gordura superior a 25%. Deve-se encorajar a ingestão
de fibras e desestimular a de alimentos ricos em colesterol e gordura
saturada, bem como o uso excessivo de sal e açúcar
refinado. Quando houver necessidade de aumentar a taxa de gordura,
isso deve ser feito preferencialmente às custas de gordura
monoinsaturada ().
Tabela 2 -
Valores de referência de colesterol total, fração de LDL colesterol,
fração de HDL colesterol e triglicerídeos em crianças de 2 a 19
anos de idade ()
Wright et al. apresentaram um estudo que visou verificar se a
obesidade na infância aumentava o risco de obesidade na vida
adulta e os fatores de risco associados. Concluíram que esse
risco existe, mas que a magreza na infância não é
um fator protetor para a ocorrência de obesidade na vida adulta.
Assim, afirmam que o IMC na infância correlaciona-se positivamente
com o IMC do adulto, e que crianças obesas têm maior
risco de óbito quando adultos. No entanto, o IMC não
reflete a porcentagem de gordura, e somente aos 13 anos crianças
obesas têm realmente maior chance de se tornar adultos obesos
().
A relação entre baixo peso ao nascer e resistência
à insulina é incerta. Um estudo recente mostrou não
haver correlação significativa. Entretanto, o peso
atual persiste como fator que contribui para esse desfecho. Desta
forma, é importante o manejo e a prevenção
da obesidade infantil, visto que esta é mais facilmente corrigível
e evitável do que o baixo peso gestacional, além de
apresentar conseqüências mais significativas à
saúde ().
A obesidade, já na infância, está relacionada
a várias complicações, como também a
uma maior taxa de mortalidade. E, quanto mais tempo o indivíduo
se mantém obeso, maior é a chance das complicações
ocorrerem, assim como mais precocemente ().
A Tabela 3 mostra as possíveis complicações
da obesidade ().
Tabela 3 -
Complicações da obesidade
A quantidade de perda de peso recomendada e o cronograma para
determinar esta perda poderão variar, dependendo do grau
de obesidade e da natureza e gravidade das complicações.
As crianças com complicações que potencialmente
envolvem risco de morte são candidatas à perda de
peso mais rápida. Os dados de pesquisa disponíveis
são limitados para sugerir uma taxa segura na qual as crianças
e os adolescentes possam perder peso sem desaceleração
da velocidade de crescimento. Em geral, quanto maior o número
e a gravidade das complicações, maior a probabilidade
de que esta criança necessite de avaliação
e tratamento, talvez medicamentoso, em um centro de obesidade pediátrico
especializado ().
Obesidade e atividade física
O exercício é considerado uma categoria de atividade
física planejada, estruturada e repetitiva. A aptidão
física, por sua vez, é uma característica do
indivíduo que engloba potência aeróbica, força
e flexibilidade. O estudo desses componentes pode auxiliar na identificação
de crianças e adolescentes em risco de obesidade. A criança
e o adolescente tendem a ficar obesos quando sedentários,
e a própria obesidade poderá fazê-los ainda
mais sedentários ().
A atividade física, mesmo que espontânea, é
importante na composição corporal, por aumentar a
massa óssea e prevenir a osteoporose e a obesidade ().
Hábitos sedentários, como assistir televisão
e jogar video game, contribuem para uma diminuição
do gasto calórico diário. Klesges et al. observaram
uma diminuição importante da taxa de metabolismo de
repouso enquanto as crianças assistiam a um determinado programa
de televisão, sendo ainda menor nas obesas ().
Então, além do gasto metabólico de atividades
diárias, o metabolismo de repouso também pode influenciar
a ocorrência de obesidade. O aumento da atividade física,
portanto, é uma meta a ser seguida (),
acompanhada da diminuição da ingestão alimentar
().
Com a atividade física, o indivíduo tende a escolher
alimentos menos calóricos ().
Há estudos que relacionam o tempo gasto assistindo televisão
e a prevalência de obesidade. A taxa de obesidade em crianças
que assistem menos de 1 hora diária é de 10% (),
enquanto que o hábito de persistir por 3, 4, 5 ou mais horas
por dia vendo televisão está associado a uma prevalência
de cerca de 25%, 27% e 35%, respectivamente ().
A televisão ocupa horas vagas em que a criança poderia
estar realizando outras atividades. A criança freqüentemente
come na frente da televisão, e grande parte das propagandas
oferecem alimentos não nutritivos e ricos em calorias ().
Grazini & Amâncio analisaram o teor das propagandas veiculadas
em horários de programas para adolescentes, verificando que
a maioria delas (53%) eram de lanches e refrigerantes ().
O tratamento da obesidade é difícil porque há
variação do metabolismo basal em diferentes pessoas
e na mesma pessoa em circunstâncias diferentes. Assim, com
a mesma ingestão calórica, uma pessoa pode engordar
e outra não. Além disso, a atividade física
de obesos é geralmente menor do que a de não-obesos.
Difícil é saber se a tendência ao sedentarismo
é causa ou conseqüência da obesidade ().
Em relação à atividade física, geralmente
a criança obesa é pouco hábil no esporte, não
se destacando. Para a atividade física sistemática,
deve-se realizar uma avaliação clínica criteriosa
().
No entanto, a ginástica formal, feita em academia, a menos
que muito apreciada pelo sujeito, dificilmente é tolerada
por um longo período, porque é um processo repetitivo,
pouco lúdico e artificial no sentido de que os movimentos
realizados não fazem parte do cotidiano da maioria das pessoas.
Além disso, existe a dificuldade dos pais e/ou responsáveis
de levarem as crianças em atividades sistemáticas,
tanto pelo custo como pelo deslocamento. Portanto, deve-se ter idéias
criativas para aumentar a atividade física, como descer escadas
do edifício onde mora, jogar balão, pular corda, caminhar
na quadra, além de ajudar nas lidas domésticas ().
O fato de mudar de atividade, mesmo que ela ainda seja sedentária,
já ocasiona aumento de gasto energético e, especialmente,
mudança de comportamento, de não ficar inerte, por
horas, numa só atividade sedentária, como se fosse
um vício ().
Bar-Or discutiu aspectos relacionados com obesidade e atividade
física, salientando que programas devem estimular a atividade
física espontânea, além de avaliar se, no final
de um programa de prática desportiva intensa, foi incorporada
uma mudança no estilo de vida da criança. A criança
deve ser motivada a manter-se ativa, e essa prática deve
ser incorporada preferencialmente por toda a família ().
Obesidade e hábito alimentar
Vários fatores influenciam o comportamento alimentar, entre
eles fatores externos (unidade familiar e suas características,
atitudes de pais e amigos, valores sociais e culturais, mídia,
alimentos rápidos, conhecimentos de nutrição
e manias alimentares) e fatores internos (necessidades e características
psicológicas, imagem corporal, valores e experiências
pessoais, auto-estima, preferências alimentares, saúde
e desenvolvimento psicológico).
Dificuldade em estabelecer um bom controle de saciedade é
um fator de risco para desenvolver obesidade, tanto na infância
quanto na vida adulta. Quando as crianças são obrigadas
a comer tudo o que é servido, elas podem perder o ponto da
saciedade. A saciedade se origina após o consumo de alimentos,
suprime a fome e mantém essa inibição por um
período de tempo determinado. A fase cefálica do apetite
inicia antes mesmo do alimento chegar à boca - são
sinais fisiológicos, gerados pela visão, audição
e odor. Esses estímulos fisiológicos envolvem um grande
número de neurotransmissores, neuromoduladores, vias e receptores.
A distensão do estômago é um sinal importante
de saciedade. Além de estímulos mecânicos, estão
envolvidos neurotransmissores e peptídeos, como colecistocinina,
glucagon, bombesina e somatostatina. A colecistocinina tem sido
considerada um hormônio mediador da saciação.
No sistema nervoso central, principalmente no hipotálamo,
encontram-se os sistemas serotonínicos do controle do apetite.
Outros peptídeos, como beta-endorfina, dinorfina e galanina,
atuam no sistema nervoso central influenciando a ingestão
e/ou a saciedade. O neuropeptídeo Y é o mais potente
estimulador do apetite conhecido. A leptina, produzida no tecido
adiposo, tem um papel central e periférico, participa do
controle energético e, provavelmente, interage com o neuropeptídeo
Y no controle do apetite e da saciedade. Assim, o tamanho do prato
ou da porção servida não é o determinante
da saciedade; a criança pode ter ficado satisfeita antes,
ou então querer comer ainda mais ().
Existem aspectos bem estudados em relação aos hábitos
alimentares mais relacionados com a obesidade. Apregoa-se que o
aleitamento materno seja um fator protetor importante para a obesidade
().
No entanto, hábitos como não tomar café da
manhã, jantar consumindo grande quantidade calórica,
ingerir uma variedade limitada de alimentos e preparações
e em grandes porções, consumir em excesso líquidos
leves mas calóricos e ter uma inadequada prática de
alimentação precoce são prejudiciais e indutores
de obesidade ().
Um estudo prospectivo, de 19 meses de duração, com
548 crianças de escolas da sexta e sétima séries,
verificou que o IMC e a freqüência de obesidade aumentavam
para cada porção adicional consumida de bebida contendo
açúcar refinado ().
O hábito do consumo de lanches, analisado em indivíduos
de 2 a 18 anos de idade, também foi alterado no decorrer
das últimas décadas. Atualmente, mais crianças
consomem lanches do que no passado, sendo o maior aumento observado
na última década. A ingestão média de
calorias proveniente dos lanches aumentou de 450 para 600 calorias
por dia e hoje representa 25% da ingestão energética
diária. A densidade energética dos lanches das crianças
também aumentou de 1,35 para 1,54 kcal/g ().
Este achado é importante, já que pequenas elevações
na densidade energética de alimentos consumidos podem levar
a grandes aumentos na ingestão calórica total. Assim,
as tendências de consumo de lanches podem estar contribuindo
para o aumento da obesidade na infância. A adição
de açúcar chega a representar um terço das
calorias ingeridas pela população americana ().
Os pais exercem uma forte influência sobre a ingestão
de alimentos pelas crianças. Entretanto, quanto mais os pais
insistem no consumo de certos alimentos, menor a probabilidade de
que elas os consumam. Da mesma forma, a restrição
por parte dos pais pode ter efeito deletério. Na primeira
infância, recomenda-se que os pais forneçam às
crianças refeições e lanches saudáveis,
balanceados, com nutrientes adequados e que permitam às crianças
escolher a qualidade e a quantidade que elas desejam comer desses
alimentos saudáveis ().
Manejo da obesidade infantil
A obesidade pode ser dividida em obesidade de origem exógena
- a mais freqüente - e endógena. Para a endógena,
deve-se identificar a doença básica e tratá-la.
A obesidade exógena origina-se do desequilíbrio entre
ingestão e gasto calórico, devendo ser manejada com
orientação alimentar, especialmente mudanças
de hábitos e otimização da atividade física
().
É essencial que sejam avaliados a disponibilidade de alimentos,
as preferências e recusas, os alimentos e preparações
habitualmente consumidos, o local onde são feitas as refeições,
quem as prepara e administra, as atividades habituais da criança,
a ingestão de líquidos nas refeições
e intervalos, e os tabus e crenças alimentares. Diminuir
o consumo de alimentos e preparações hipercalóricas
já é suficiente para a redução do peso
().
É também fundamental salientar que crianças
e adolescentes seguem padrões paternos; se esses não
forem modificados ou manejados em conjunto, um insucesso do tratamento
já é previsto ()
(Figura 4).
Figura 4 -
Mediadores comportamentais de semelhanças familiares no hábito
alimentar e no estado nutricional ()
Quanto à orientação dietética, é
fundamental que ela determine perda de peso controlada ou a manutenção
do mesmo, crescimento e desenvolvimento normais, ingestão
de macro- e micronutrientes em quantidades adequadas para idade
e sexo, redução do apetite ou da voracidade, manutenção
da massa muscular, ausência de conseqüências psicológicas
negativas e manutenção dos hábitos alimentares
corretos e modificação dos inadequados ().
Crianças menores devem manter o peso ou ganhar pouco peso,
mais do que perder, para que não comprometam seu desenvolvimento
().
As recomendações de 2003 da Academia Americana de
Pediatra para o tratamento da obesidade infantil são as seguintes
():
Supervisão da saúde: identificar pacientes em risco
através de história familiar, peso ao nascer ou fatores
socioeconômicos, étnicos, culturais ou comportamentais;
calcular e registrar o IMC uma vez ao ano em todas as crianças
e adolescentes; utilizar alterações no IMC para identificar
taxa excessiva de ganho de peso relativo ao crescimento linear;
encorajar o aleitamento materno; orientar pais e educadores a promover
padrões alimentares saudáveis, oferecendo lanches
nutritivos; encorajar a autonomia das crianças no controle
da sua ingestão alimentar, estabelecendo limites apropriados
nas escolhas; promover rotineiramente atividade física, incluindo
jogos não-estruturados em casa, na escola e na comunidade;
determinar limite no tempo de assistir televisão e vídeo
para um máximo de 2 horas por dia; reconhecer e monitorar
alterações nos fatores de risco associados à
obesidade para adultos com doença crônica, tais como
hipertensão arterial sistêmica, dislipidemia, hiperinsulinemia,
intolerância à glicose e sintomas da síndrome
da apnéia do sono obstrutiva.
Apoio geral: ajudar pais, professores, técnicos e outros
profissionais que influenciam a juventude a discutir hábitos
saudáveis - e não a cultura do corpo - como parte
do esforço para controlar sobrepeso e obesidade; incentivar
gestores de organizações locais, estaduais, nacionais
e de escolas a darem condições de um estilo de vida
saudável para todas as crianças, incluindo alimentação
apropriada e oportunidade adequada para atividade física
regular; encorajar organizações responsáveis
por cuidado e financiamento em saúde a promoverem estratégias
efetivas de prevenção e tratamento à obesidade;
encorajar recursos públicos e privados a direcionarem fundos
à pesquisa em estratégias efetivas para prevenir sobrepeso
e obesidade; e maximizar limitados recursos familiares e comunitários,
para que se alcancem resultados saudáveis à juventude;
promover apoio e defesa por marketing social, com a intenção
de promover escolhas alimentares saudáveis e maior atividade
física.
Os programas de tratamento que envolvem crianças e adolescentes
com sobrepeso em atividade física e ginástica rigorosa
demonstram benefício significativo na obtenção
de perda de peso e na melhora do preparo físico. No entanto,
a maioria dos programas descritos é programada para um período
de até 10 meses, com tratamento continuado e intenso, necessitando
de incentivo para que os participantes permaneçam, o que
pode não ser aplicado na prática diária ().
Os resultados de programas não são tão alentadores,
embora, em crianças usuárias, os resultados sejam
melhores ().
A maioria das intervenções dietéticas foca-se
na redução da ingestão de gordura, mesmo quando
a gordura alimentar pode não ser uma causa importante da
obesidade. Com respeito à atividade física, muitos
estudos têm utilizado prescrições de exercícios
convencionalmente programados, embora aumentar a atividade como
estilo de vida ou reduzir comportamentos sedentários possam
ser mais efetivos para o controle do peso a longo prazo ().
Programas educacionais inovadores, planejados para ampliar o conhecimento
da criança sobre nutrição e saúde, bem
como para influenciar de modo positivo a dieta, a atividade física
e a redução da inatividade, já foram desenvolvidos
().
Campell et al. realizaram uma revisão dos programas para
manejo de obesidade infantil, concluindo que os estudos ainda são
de pequeno número, não se podendo estabelecer conclusões
efetivas, mas que estratégias que visam à redução
do sedentarismo são úteis ().
Os diversos protocolos de programas de manejo de obesidade infantil
foram também estudados por Summerbell et al., verificando
que as orientações variam bastante, como intervenções
de grupo e individuais, com ou sem supervisão médica,
terapia familiar, comportamental e cognitiva, e tratamento farmacológico.
Assim, é necessário maior consenso nas conclusões
sobre efetividade, já que as intervenções variam
bastante ().
Os programas escolares em educação em saúde
são, no momento, a estratégia mais eficaz para reduzir
problemas de saúde pública crônica relacionados
com estilo de vida sedentário e padrão alimentar errôneo,
embora mais estudos sejam necessários ().
Prevenção da obesidade infantil
Como os programas de intervenção ainda têm pouco
consenso, a prevenção continua sendo o melhor caminho.
Os esforços para a prevenção da obesidade na
infância são provavelmente mais eficazes quando endereçados
simultaneamente aos alvos primordial, primário e secundário,
com metas apropriadamente diferentes. A prevenção
primordial visa prevenir que as crianças se tornem "de
risco" para sobrepeso; a prevenção primária
objetiva evitar que as crianças "de risco" adquiram
sobrepeso; e a prevenção secundária visa impedir
a gravidade crescente da obesidade e reduzir a comorbidade entre
crianças com sobrepeso e obesidade. Dentro deste cenário,
as prioridades básicas de ação podem ser identificadas,
priorizadas e vinculadas às estratégias de intervenção
potencialmente satisfatórias ().
As iniciativas de prevenção primordial e primária
são as mais eficazes, provavelmente se forem iniciadas antes
da idade escolar e mantidas durante a infância e a adolescência.
Deve haver um esforço significativo no sentido de direcioná-las
à prevenção da obesidade já na primeira
década de vida. A política da escola pode promover
ou desencorajar dietas saudáveis e atividade física
().
É muito importante que seja incorporado ao currículo
formal das escolas, em diferentes séries, o estudo de nutrição
e hábitos de vida saudável, pois neste local e momento
é que pode começar o interesse, o entendimento e mesmo
a mudança dos hábitos dos adultos, por intermédio
das crianças e dos adolescentes.
A Figura 5 apresenta alvos principais para a prevenção
da obesidade infantil ().
Figura 5 -
Alvos em potencial para a prevenção da obesidade infantil e adolescente
()
A maioria das recomendações deve ser seguida por
toda a família, sendo os indivíduos obesos ou não
().
Em nosso meio, a obesidade infantil é um sério problema
de saúde pública, que vem aumentando em todas as camadas
sociais da população brasileira. É um sério
agravo para a saúde atual e futura dos indivíduos.
Prevenir a obesidade infantil significa diminuir, de uma forma racional
e menos onerosa, a incidência de doenças crônico-degenerativas.
A escola é um local importante onde esse trabalho de prevenção
pode ser realizado, pois as crianças fazem pelo menos uma
refeição nas escolas, possibilitando um trabalho de
educação nutricional, além de também
proporcionar aumento da atividade física. A merenda escolar
deve atender às necessidades nutricionais das crianças
em quantidade e qualidade e ser um agente formador de hábitos
saudáveis ().
Para alcançar uma alimentação saudável,
além de fornecer informações corretas sobre
alimentação e saúde (promoção),
é preciso evitar que informações incorretas
e contraditórias alcancem indivíduos (proteção)
e, ao mesmo tempo, propiciar a esses indivíduos condições
que tornem factíveis a adoção das orientações
que recebem (apoio). Isso significa que uma política consistente
de prevenção da obesidade deve compreender não
só ações de caráter educativo e informativo
(como campanhas veiculadas por meios de comunicação
de massa), como também medidas legislativas (como controle
da propaganda de alimentos não-saudáveis, especialmente
os dirigidos ao público infantil), tributárias (isentando
alimentos saudáveis e onerando os preços dos não-saudáveis),
treinamento e reciclagem de profissionais de saúde, medidas
de apoio à produção e comercialização
de alimentos saudáveis e mesmo medidas relacionadas ao planejamento
urbano (por exemplo, privilegiando o deslocamento de pedestres em
contraposição ao de automóveis e dotando áreas
carentes de recursos mínimos para a prática de atividades
físicas de lazer) ().
Saber o que é necessário para emagrecer não
apresenta maiores dificuldades após algum tempo de prática.
Querer, dever e poder emagrecer são questões imensamente
mais complexas e exigem grande investimento emocional, intelectual
e físico.
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