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Introdução
A distrofia simpático-reflexa (DSR) foi inicialmente descrita
por Mitchell em 1864, durante a guerra civil americana, como quadro
de edema doloroso em uma extremidade após ferimentos por
arma de fogo, acompanhado de alterações vasomotoras
e tróficas ().
Desde então, esta doença vem recebendo diversas terminologias,
tais como algodistrofia, causalgia, atrofia de Sudeck, síndrome
ombro-mão, neuroalgodistrofia, distrofia simpática
pós-traumática ou síndrome dolorosa regional
complexa tipo 1 ().
Clinicamente, a DSR se apresenta mais freqüentemente como dor
persistente de forte intensidade em uma extremidade, geralmente
desproporcional ao evento desencadeante. A dor é associada
a descritores de dor neuropática (queimação,
disestesia, parestesia, alodínia e hiperalgesia ao frio)
e sinais clínicos de disfunção autonômica
(cianose, edema, frio, alteração de transpiração
e pilificação local) ().
Atualmente, há grande controvérsia a respeito da patogênese
da DSR. Alguns autores acreditam que esta doença é
decorrente de um mecanismo neuronal reflexo após um evento
traumático, levando à percepção anormal
da dor e a uma atividade simpática eferente exacerbada.
Há inúmeras condições associadas ao
desenvolvimento da DSR. Em mais de 60% dos casos descritos em adultos
há história de trauma. Na infância, a DSR é
rara e subdiagnosticada, sendo menos comum o antecedente de trauma
- e, quando este ocorre, geralmente é de menor intensidade
().
Não há estudos sobre incidência e prevalência
na faixa etária pediátrica.
A DSR ocorre também mais freqüentemente em adultos com
instabilidade emocional, depressão, mania e insegurança.
A criança apresenta um perfil peculiar, geralmente perfeccionista
e empreendedora, e o quadro pode ser precedido ou agravado por fatores
estressantes, como desavenças ou morte de familiares, início
na escola, etc. ().
Muitas vezes, o quadro de DSR está associado a outras patologias
com disfunção autonômica: enxaqueca, síncope
e dor abdominal ().
O objetivo do presente estudo é descrever as características
clínicas, laboratoriais e terapêuticas de oito crianças
com DSR, a fim de esclarecer o perfil desta doença na infância,
visto que seu tratamento tardio pode levar a prejuízo funcional
importante.
Relato dos casos
Entre 1992 e 2002, foram atendidos oito pacientes com DSR na Unidade
de Reumatologia Pediátrica do Instituto da Criança
do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade
de São Paulo.
A idade de início da doença variou de 8 a 13 anos
(média de 11,5 anos e mediana de 12 anos) e acometeu igualmente
os dois sexos. Quatro pacientes apresentavam doenças associadas:
dois eram portadores de lúpus eritematoso sistêmico
(LES), um de artrite idiopática juvenil (AIJ) e um de trombastenia
de Glanzmann.
O diagnóstico de DSR foi feito baseado na presença
de dor intensa e prolongada no segmento distal de um membro, freqüentemente
associada a edema difuso do local, alteração de coloração,
alteração de temperatura, alteração
de sensibilidade e incapacitação funcional.
As características clínicas e laboratoriais dos pacientes
estão listadas na Tabela 1.
Tabela 1 -
Características clínicas, laboratoriais e terapêuticas dos oito pacientes com distrofia simpática reflexa
É importante ressaltar que a maioria dos pacientes já
havia procurado outros profissionais antes de ser feito o diagnóstico,
que foi estabelecido em média 8,8 meses após o início
dos sintomas (variou de 2 meses a 2 anos). Seis pacientes imobilizaram
o membro afetado com tala gessada por diversas vezes, sem melhora
do quadro; um paciente tinha realizado infiltrações
com corticosteróides, com persistência dos sintomas
(caso 8).
O envolvimento de membros inferiores ocorreu em sete pacientes e
esteve associado a incapacitação funcional importante,
dificultando a deambulação (dois deles necessitaram
de cadeira de rodas para locomoção). Estes apresentavam
quadro de dor de forte intensidade e aliviada pelo repouso, associada
a edema difuso de tornozelo e pé. Três pacientes referiam
trauma prévio: dois entorses e uma fratura em tornozelo.
Somente um paciente não apresentava sinais de instabilidade
vasomotora, que se manifestou como aumento de temperatura em dois
membros acometidos, diminuição de temperatura em um,
eritema fixo em dois, cianose e sudorese em um. Três pacientes
apresentavam também dormência e parestesia no local
afetado.
Alterações tróficas, como atrofia da musculatura
adjacente e diminuição de fâneros, foram encontradas
em quatro dos sete pacientes com envolvimento do membro inferior,
sendo que um deles apresentava diferença de 2,5 cm de diâmetro
de um membro inferior em relação ao outro (caso 6).
O único paciente que apresentou acometimento de membros superiores
(caso 3) iniciou o quadro como edema de limites imprecisos, calor
e dor em mão, antebraço e cotovelo direitos não
associados a trauma local, com melhora após 5 meses de tratamento.
Este paciente apresentou, então, duas recidivas: a primeira
com quadro semelhante em membro contralateral, e a segunda após
6 anos no membro superior direito, após ter carregado peso.
O diagnóstico de DSR foi eminentemente clínico, mas
todos os pacientes foram submetidos a exames de laboratório.
A velocidade de hemossedimentação esteve aumentada
em três pacientes, todos portadores de doenças de base
(dois tinham LES e um AIJ). A cintilografia músculo-esquelética
com tecnécio mostrou-se alterada em cinco pacientes, com
hipercaptação em três casos e hipocaptação
em dois. A radiografia simples esteve alterada em somente um paciente
(caso 1) que teve artrite crônica precedendo a DSR, onde foram
observadas esclerose subcondral e rarefação óssea,
alterações também visualizadas à tomografia
computadorizada.
Um paciente apresentava dor tão importante no início
do quadro que foi submetido, em outro serviço, a punção
liquórica e eletromiografia, ambas normais.
Assim que o diagnóstico foi estabelecido, todos os pacientes
receberam drogas antiinflamatórias não-hormonais (AINH)
(ácido acetilsalicílico, indometacina, ibuprofeno
ou naproxeno) associadas a sessões de fisioterapia. Três
pacientes receberam acupuntura associada ao tratamento descrito
anteriormente, com melhora evidente após quatro sessões.
O paciente que apresentou curso mais crônico e com maior incapacitação
funcional (caso 8) necessitou de antidepressivos tricíclicos
(amitriptilina), com melhora após 1 ano de tratamento, quando
conseguiu deambular sem o auxílio de muletas. Os outros quatro
pacientes apresentaram melhora da sintomatologia em média
5 meses após o início do tratamento. Um paciente fez
sessões de psicoterapia por depressão associada.
Discussão
A distrofia simpático-reflexa é uma doença
rara e subdiagnosticada na infância, particularmente no nosso
meio, sendo raramente reconhecida pelo pediatra. A maioria dos estudos
até o momento foi descrita na população adulta.
Veldman et al. ()
estudaram 829 pacientes com esta doença, e, dentre os mesmos,
havia somente uma paciente abaixo dos 9 anos de idade. Em nossa
casuística, a média de idade dos pacientes foi de
11,5 anos, compatível com os dados de literatura (),
mas não se observou o predomínio do sexo feminino
que ocorre na infância ().
Neste estudo, a maioria dos pacientes recebeu tratamentos e diagnósticos
inapropriados antes de procurarem o nosso serviço. Murray
et al. ()
avaliaram 46 crianças com DSR, observando que a média
de profissionais consultados antes de se estabelecer o diagnóstico
foi de 2,3 (variou de um a cinco) e que o tempo entre o início
dos sintomas e o diagnóstico foi de quase 6 meses.
Deve-se suspeitar de DSR em uma criança portadora de dor
em queimação contínua e recusa em mover um
membro, associada a edema de limites imprecisos e graus variáveis
de palidez, hipertermia, hipotermia ou hiperestesia ().
Bernstein et al. ()
estudaram 23 crianças com DSR, cujos sinais e sintomas mais
comuns foram: dor no membro afetado em 100% dos casos, alterações
de sensibilidade em 91%, edema da extremidade em 82% e alterações
de temperatura em 78%. Alterações tróficas
não foram encontradas.
No nosso estudo, apenas um paciente teve comprometimento de membros
superiores. A DSR geralmente acomete membros inferiores e raramente
é bilateral ().
Wilder et al. ()
observaram em 70 crianças com DSR, onde 87% dos episódios
ocorreram em membros inferiores, sendo que em 31% das crianças
apresentaram eventos em mais de um local.
Na faixa etária pediátrica, há menor probabilidade
de eventos precipitantes, como trauma (),
e também é rara a incidência de alterações
tróficas em relação aos adultos ().
Sua maior raridade na infância pode ser devido à menor
duração da doença ou à imobilidade menos
prolongada ().
Geralmente, nas crianças, a radiografia simples do membro
afetado é normal (),
diferentemente da população adulta, onde 50% apresenta
osteoporose (),
podendo evoluir com erosões corticais e neoformação
óssea reacional. Em nossa casuística, somente um paciente
apresentava erosões corticais associadas à AIJ, evidenciadas
previamente ao aparecimento da DSR.
Em crianças, o mapeamento músculo-esquelético
é um bom exame para auxiliar o diagnóstico de DSR,
apresentando sensibilidade superior à radiografia (72% versus
36%). Em estudo realizado em 11 crianças, o mapeamento mostrou
hipercaptação em quatro casos, hipocaptação
em quatro e foi normal em três, sugerindo, como em nossa casuística,
que as duas primeiras ocorrem em freqüências semelhantes
().
A tomografia computadorizada e ressonância nuclear magnética
não auxiliam no diagnóstico da DSR, sendo freqüentemente
normais ou mostrando alterações inespecíficas
de partes moles ().
Geralmente, a DSR não é acompanhada de alterações
de hemograma ou de provas de fase aguda ().
Neste trabalho, os três pacientes que apresentaram aumento
na velocidade de hemossedimentação tinham doenças
inflamatórias associadas.
Em nosso estudo, compatível com dados de literatura (),
um número significativo de pacientes recebeu terapêuticas
inapropriadas antes de se estabelecer o diagnóstico. Seis
dos nossos pacientes tiveram o membro imobilizado, o que intensificou
o quadro doloroso.
O tratamento da DSR se baseia predominantemente na fisioterapia
e no alívio da dor ().
Dois estudos ()
avaliaram crianças com DSR, utilizando fisioterapia, estimulação
elétrica nervosa transcutânea (TENS) e psicoterapia,
quase sempre associados a AINH. O tratamento foi eficaz em cerca
de 70% dos pacientes, com melhora funcional importante. Nos casos
mais resistentes (),
foram empregados antidepressivos tricíclicos e bloqueios
simpáticos, estes últimos realizados em 53% dos pacientes,
com resposta temporária da dor em apenas 46% dos casos submetidos.
Devido aos riscos e efeitos colaterais potenciais dos esteróides,
sugerimos que não sejam empregados de rotina na DSR ().
No nosso estudo, todos, exceto um paciente, apresentaram melhora
substancial em até 6 meses de tratamento, este baseado em
fisioterapia e AINH, não sendo necessário o uso de
bloqueios simpáticos ou TENS. A acupuntura vem sendo utilizada
como um ótimo método coadjuvante. Na literatura, a
maioria dos casos descritos mostra melhora substancial do quadro
em 6 a 8 semanas ().
A abordagem psicológica é muito importante no tratamento
da DSR. Murray et al. ()
observaram que fatores psicológicos podem ter contribuído
para a doença em 25% dos casos.
A família deve ser informada de que o prognóstico
geralmente é bom em crianças; entretanto, 25 a 33%
podem apresentar recorrência na mesma localização
ou em outros locais ().
Em conclusão, devemos enfatizar que a DSR é uma doença
dolorosa crônica associada a uma morbidade significativa em
crianças e adolescentes, podendo causar incapacitação
funcional temporária ou permanente. Os pediatras devem ficar
atentos, pois o diagnóstico é eminentemente clínico
e, quando precoce, pode prevenir investigações e tratamentos
indesejáveis, que certamente irão exacerbar e prolongar
o quadro.
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