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Introdução
Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS),
as leishmanioses afetam cerca de dois milhões de pessoas
por ano, com 500 mil casos da forma visceral. Estima-se que 350
milhões de pessoas estão expostas ao risco de infecção,
com uma prevalência de 12 milhões de infectados ().
A leishmaniose visceral ou calazar está amplamente difundida
no Brasil, com casos autóctones notificados em pelo menos
19 estados da federação, distribuídos em quatro
das cinco regiões, permanecendo indene apenas o Sul ().
Entre 1984 e 2000, foram notificados 67.231 casos ().
A Região Nordeste concentra mais de 90% das notificações,
com registros de casos em todas as suas unidades federadas. Em Pernambuco
(),
foram notificados 1.203 casos no período de 1990 a 1997.
Nas últimas décadas, o estado tem mostrado forte tendência
à urbanização, com a ocorrência de surtos
epidêmicos em várias capitais ()
constituindo um sério problema de saúde pública
que ameaça a população e preocupa as autoridades
sanitárias.
A leishmaniose visceral (LV) é uma infecção
sistêmica causada por um protozoário do gênero
Leishmania. No Brasil, o principal vetor é o Lutzomya
longipalpis, sendo o cão doméstico o reservatório
mais importante e o homem o hospedeiro final ().
A maioria dos casos é de infecção assintomática
ou que desenvolvem sintomas moderados ou transitórios como
diarréia, tosse seca, adinamia, febrícula, sudorese
e discreta hepatoesplenomegalia (),
que podem evoluir ou não para a forma clássica da
doença. O quadro clássico consiste de febre, hepatoesplenomegalia,
com esplenomegalia volumosa, perda de peso, tosse, diarréia,
dor e distensão abdominal. Icterícia e envolvimento
renal têm sido descritos. Na fase mais tardia da doença,
os pacientes podem desenvolver edema e ascite ().
O diagnóstico baseia-se no encontro do parasita em tecido
de medula óssea, baço, fígado ou linfonodos
().
Foram desenvolvidos vários testes sorológicos para
o diagnóstico (exemplos: fixação do complemento,
imunofluorescência indireta, teste de aglutinação
direta, ELISA e Dot-ELISA), assim como técnicas de biologia
molecular (reação em cadeia da polimerase), porém
persistem alguns problemas quanto à sensibilidade, especificidade,
disponibilidade e custo desses testes na prática clínica
().
Quando não há possibilidade de diagnóstico
laboratorial, o início do tratamento é baseado nos
achados clínico-epidemiológicos ().
Os antimoniais pentavalentes continuam sendo a droga de primeira
escolha para o tratamento, e a anfotericina B é a droga de
segunda linha, em casos de resistência ao antimoniato ().
Recentemente, uma nova droga de administração oral,
a miltefosina, tem-se mostrado efetiva no tratamento da LV na Índia
().
Infecções, hemorragias e anemia grave são responsáveis
pela maioria das mortes, e o retardo no diagnóstico, a baixa
idade e a desnutrição são implicados como importantes
fatores que contribuem para o óbito ().
Os autores descreveram os dados epidemiológicos, clínicos
e laboratoriais dos pacientes internados com calazar em um hospital
pediátrico de referência, destacando a importância
do diagnóstico e tratamento precoces para evitar a alta letalidade.
Casuística e métodos
Foram internados 445 pacientes de até 14 anos de idade com
LV no Instituto Materno-Infantil de Pernambuco (IMIP), um dos hospitais
de referência do estado de Pernambuco para diagnóstico
e tratamento da doença, no período de maio de 1996
a dezembro de 2001. Oito prontuários não foram encontrados
e outros foram excluídos porque, apesar do diagnóstico
final constar como calazar, não preencheram os critérios
de inclusão da pesquisa. Obtivemos, então, 431 prontuários.
Os dados foram obtidos pela análise retrospectiva dos prontuários
de crianças admitidas com LV, através de um formulário
padronizado, desenvolvido pelos pesquisadores, onde constavam: identificação,
procedência, características do domicílio, escolaridade
materna, queixas principais e tempo de duração, história
de tratamento prévio, exame físico, exames laboratoriais
e tratamento. Foram incluídos todos os pacientes com diagnóstico
comprovado através de mielograma, teste de aglutinação
direta (DAT) > 1/1.600 ou imunofluorescência indireta
(IFI) > 1/40 e também aqueles casos prováveis,
com o mielograma negativo, mas suspeita clínico-epidemiológica
e laboratorial (pancitopenia) de calazar, excluídas outras
patologias.
O grau de nutrição foi avaliado a partir do índice
de peso por idade, no momento da admissão, considerando como
padrão de referência a curva do National Center
of Health Statistics dos Estados Unidos (NCHS). Crianças
com edema envolvendo, no mínimo, os pés, foram considerados
gravemente desnutridos (desnutrição edematosa). Pancitopenia
foi considerada quando se encontrou leucopenia (contagem de leucócitos
< 5.000/mm³), anemia (nível de hemoglobina
< 11 g/dl entre 7 meses e 5 anos, < 11,5 g/dl entre 6 e 9
anos, < 12 g/dl em adolescentes do sexo feminino e <12,5 g/dl
em adolescentes do sexo masculino) e plaquetopenia (contagem de
plaquetas < 150.000/mm³).
A análise foi realizada no programa Epi-Info 6.0 4b para
a distribuição de freqüência, média
e desvio padrão dos dados obtidos, quando necessário.
O estudo obteve a aprovação do Comissão de
Ética do Hospital em relação ao seu aspecto
ético e científico antes do início da coleta
de dados.
Resultados
A distribuição dos casos ao longo dos anos está
apresentada na Tabela 1. O maior número de casos (180) ocorreu
no ano de 2000, porém a maior letalidade foi observada em
1999 (14,8%).
Tabela 1 -
Distribuição anual das crianças internadas por calazar no IMIP, no período de maio de 1996 a dezembro de 2001
Em relação ao sexo, 50,3% das crianças eram
do sexo feminino. A idade média foi de 4,2 anos (DP = ±3),
e a criança mais nova tinha 4 meses. A faixa etária
mais acometida foi a de menores de 5 anos (68,2% dos casos), e 9%
das crianças internadas eram menores de 1 ano. Dos 317 pacientes
em que foi possível obter a informação sobre
escolaridade materna, constatou-se que o tempo médio de permanência
na escola foi de 3,1 anos (DP = ±3). Dentre as características
do domicílio, foi possível obter a informação
sobre a existência ou não de água e sistema
de esgoto sanitário em 358 prontuários, e cerca de
70% das casas não dispunham desses serviços.
A maioria dos pacientes procedia do estado de Pernambuco (99%),
três eram de Alagoas e um da Paraíba. Do total das
crianças, 82,5% concentravam sua origem no interior de Pernambuco
e 14,8% eram da região metropolitana do Recife.
Em relação à situação nutricional,
verificou-se uma freqüência de subnutrição
na população estudada de 44,5%, enquanto 26,9% de
todas as crianças eram desnutridas graves.
A duração da doença desde o início dos
sintomas até a hospitalização variou de 2 a
365 dias, com média de 42,7 dias (DP = ±45), sendo
que 88,7% dos casos arrastaram-se com os sintomas por período
menor que 60 dias. O tempo médio de internamento foi de 11,2
dias (DP = ±5,7), variando de 0 a 47 dias. Entre os sintomas
referidos pelos familiares, ressaltam-se a febre, o aumento do volume
abdominal, a palidez, a anorexia e a tosse como os mais freqüentes
(Tabela 2). Aproximadamente 50% das mães utilizaram algum
tipo de medicação, principalmente antibiótico.
Houve relato de uso prévio de tratamento específico
para calazar por quinze genitoras.
Tabela 2 -
Principais sintomas e achados clínicos das crianças internadas com calazar no IMIP,
no período de maio de 1996 a dezembro de 2001
Também na Tabela 2 estão apresentados os achados
do exame físico na admissão, registrando-se esplenomegalia,
palidez e hepatomegalia como os mais freqüentes. Em 47 (10,9%)
das crianças foi detectado algum tipo de infecção
na admissão, sendo as mais freqüentes: pneumonia em
66% dos casos, otite em 18,4% dos casos e sepse em 8,2% dos casos.
Os dados hematológicos referentes à série vermelha,
branca e plaquetária no momento da admissão são
mostrados na Tabela 3. O nível médio de hemoglobina
foi de 6 g/dl, sendo necessárias transfusões de hemácias
em 170 pacientes durante o internamento. A contagem média
de leucócitos foi de 3.516/mm³, e o número de
leucócitos foi inferior a 5.000/mm³ em 367 casos (85,3%).
A contagem média de neutrófilos foi de 1.215/mm³,
e evidenciaram-se valores inferiores a 500/mm³ em 15,9% pacientes.
A contagem média de plaquetas foi de 118.641/mm³, sendo
que o número de plaquetas no período pré-tratamento
foi < 150.000/mm³ em 68,4% dos casos; foram necessárias
43 transfusões de plaquetas.
Tabela 3 -
Dados hematológicos das crianças internadas com calazar no IMIP, no período de maio de 1996 a dezembro de 2001
A confirmação do diagnóstico foi possível
em 79,4% dos casos. A pesquisa do parasita pelo mielograma foi realizada
em 412 pacientes, sendo positiva em 311 (75,5%) dos casos. O DAT
foi positivo em 28, e a IFI em três pacientes, respectivamente.
Nos casos em que não foi possível confirmar o diagnóstico
por esses métodos, a análise dos dados epidemiológicos,
clínicos e laboratoriais foi suficiente para a instituição
da terapêutica.
O tratamento de escolha para a leishmaniose visceral foi o glucantime
em 98% dos pacientes. Sete desses pacientes utilizaram a associação
glucantime e alopurinol. Sete pacientes permaneceram sintomáticos
após o primeiro esquema utilizado e foram tratados com anfotericina
B. O tempo médio de regressão da febre foi de 3 dias
(DP = ±2,7), e 50 pacientes não apresentaram febre
durante o internamento. Sete pacientes foram a óbito antes
de iniciar medicação específica para a doença.
Nos 44 óbitos registrados, o tempo médio de internamento
foi de 10 dias (DP = ±9), e dois pacientes morreram no dia
do internamento. Dentre as causas imediatas de óbito, infecção
esteve presente em 32 casos (72,7%), hemorragia em 26 (59,0%) e
insuficiência hepática em 14 (31,8%), sendo que 70%
dos pacientes tinham mais de um agravo associado (Tabela 4). As
infecções mais freqüentes foram pneumonia em
26 (66,7%) e sepse em 15 (38,5%) pacientes. Convulsão e insuficiência
respiratória foram observadas cada uma em nove pacientes
no momento que antecedeu o óbito.
Tabela 4 -
Principais causas imediatas de óbito em crianças internadas por calazar no IMIP, no período de maio de 1996 a dezembro de 2001
Discussão
Uma importante característica da leishmaniose visceral é
que, quanto maior a incidência da doença, maior o risco
para as crianças mais jovens, fato já documentado
no Brasil, onde a preferência da doença pela população
infantil vem se mantendo ao longo dos anos ().
Essa característica é semelhante ao observado no presente
estudo, no qual a LV predominou nos primeiros 5 anos de vida, faixa
etária de 68,2% dos doentes. Uma vez que a imunidade duradoura
se desenvolve com a idade (),
é provável que a maior incidência de doença
e de óbito no grupo de menor idade dependa da maior suscetibilidade
à infecção e da depressão da imunidade
observada nesta faixa etária.
A literatura aponta o sexo masculino como mais susceptível
ao adoecimento ().
Nesta série, crianças do sexo masculino e feminino
foram igualmente afetadas. Ressaltamos que o problema da maior prevalência
da doença entre as pessoas do sexo masculino ainda não
está totalmente esclarecido, postulando-se a existência
de um fator hormonal ligado ao sexo ou à exposição
().
A distribuição da doença no Brasil mostra uma
tendência cíclica, com o pico observado no ano 2000,
refletido em nossa casuística. O aumento do número
de casos durante o período estudado decorre, provavelmente,
da expansão das áreas endêmicas, levando ao
aparecimento da doença na periferia das grandes cidades,
onde não era conhecida até aquele momento, dificultando
o diagnóstico e levando a um aumento da letalidade. De fato,
desde meados dos anos 80, o calazar vem claramente se expandindo
para regiões rurais indenes e para a periferia de alguns
centros urbanos ().
Em Pernambuco, a LV, que se encontrava basicamente no litoral e
alto sertão, atualmente atinge quase todo o estado (),
inclusive a região metropolitana do Recife (),
fato destacado nesta pesquisa, na qual quase 15% das crianças
internadas eram provenientes desta região.
A precariedade das condições socioeconômicas
está associada à maior incidência de várias
doenças infecciosas, entre elas a LV, como se observa nesta
casuística, em que, apesar da maioria dos domicílios
serem de alvenaria, a disponibilidade de água encanada e
esgoto sanitário ainda se encontra em um nível inaceitável.
É raro que a forma clássica da doença acometa
a classe média, mesmo em áreas endêmicas ().
Segundo Bezzerra (),
o grau de instrução dos pais é fator de proteção
contra a infecção, o que vem corroborar o resultado
da nossa pesquisa, na qual cerca de 80% das mães tinham apenas
o ensino fundamental.
Comparando-se os casos comprovados e prováveis, constatou-se
que não houve diferença estatística entre os
dois grupos em relação a sexo, idade, procedência
e estado nutricional. No entanto, quando avaliamos o tempo de evolução
da doença, registramos que os casos prováveis tiveram
um tempo de evolução significativamente mais curto
(30,4 dias) do que os casos comprovados (45,9 dias).
A grande variabilidade em relação ao tempo de evolução
da doença (2 dias a 1 ano) é compatível com
os dados da literatura. Esta duração foi de 6 meses,
em média, na experiência de Pastorino ()
e de 1 a 5 meses na experiência de Marzochi ().
O calazar é habitualmente uma doença insidiosa, com
sintomas iniciais inespecíficos, fato que, aliado ao potencial
viés de memória e ao baixo nível de escolaridade
das populações nas áreas endêmicas, torna
particularmente difícil a interpretação desta
informação. No entanto, neste estudo, a alta proporção
de casos (pelo menos 30%) onde houve procura prévia por ajuda
médica e uso prévio de outros medicamentos, como antibióticos,
sugere que pode ter havido perda de oportunidade diagnóstica
precoce, o que pode ser considerado preocupante em áreas
onde a doença é endêmica, uma vez que o retardo
no diagnóstico vem sendo implicado como um dos fatores de
risco para óbito ().
A análise do estado nutricional mostrou a grande variabilidade
clínica dessa doença, comprovada pela presença
de pacientes com percentis normais para o peso (55% das crianças),
enquanto que aproximadamente 27% eram subnutridas graves. Observou-se
que a maioria das crianças (83%) tinha um tempo de evolução
da doença inferior a 60 dias, tempo que pode não ter
sido suficiente para o desenvolvimento das alterações
nutricionais crônicas decorrentes da LV, o que poderia justificar
a presença de pacientes eutróficos, como também
foi observado por Pastorino ().
É possível que a subnutrição possa suprimir
a resposta imune mediada por células e ser responsável
pelo desenvolvimento da leishmaniose visceral progressiva.
As manifestações clínicas do calazar nas crianças
internadas são semelhantes àquelas descritas na literatura
()
tanto para os sintomas referidos pelos familiares quanto para os
sinais físicos. Febre, hepatoesplenomegalia e emagrecimento
são sinais clássicos da doença, presentes em
quase todos os pacientes no momento da admissão, pois é
durante este estágio que a maioria das pessoas chega ao ambulatório
e ao hospital e se tem a oportunidade de firmar o diagnóstico.
O fato de que muitas mães referiram uso prévio de
medicação não é uma surpresa, em virtude
dos sintomas iniciais serem comuns a outras doenças da infância,
levando a uma confusão diagnóstica. A história
de uso prévio da medicação específica
para tratamento de calazar por 3,5% dos pacientes internados alerta
para a possibilidade de falência ou refratariedade do tratamento,
já descrita no Brasil anteriormente por Badaró ()
e que decorre, na maioria das vezes, de tratamentos inadequados.
A infecção é uma das principais complicações
associadas à LV e é relatada inclusive nas formas
subclínicas. Ocorre em indivíduos de todas as idades
e, na forma clássica, associa-se a um curso fatal em cerca
de 50% dos casos ().
Nesta pesquisa, a infecção esteve presente em 10,9%
dos pacientes no momento da internação, desenvolveu-se
em 24,4% dos pacientes durante o internamento, estando associada
ao calazar em 72,7% dos pacientes que foram a óbito, principalmente
na forma de pneumonias, otites, infecções de pele
e sepse. O encurtamento do tempo de permanência hospitalar
e resultante diminuição da exposição
dos pacientes a germes nosocomiais poderia ter influenciado na incidência
de infecções hospitalares, o que deve ser mais bem
explorado em estudos posteriores. Nesta casuística, vários
fatores, isolados ou associados, merecendo destaque os valores médios
de hemoglobinas, leucócitos e neutrófilos no início
do diagnóstico, poderiam estar associados a infecções,
como já destacado por outros autores ().
O envolvimento hepático tem sido relatado em 2 a 28% dos
pacientes (),
com maior freqüência quando o diagnóstico da LV
é mais tardio e indica uma maior gravidade; no entanto, muitas
vezes, tal envolvimento desaparece no curso do tratamento. As formas
moderadas de hepatite são as mais freqüentes e, na grande
maioria das vezes, diagnosticadas apenas laboratorialmente ().
Em nossa pesquisa, 19 (4,4%) crianças foram admitidas com
icterícia. Existe a possibilidade de que o comprometimento
hepático esteja subestimado, uma vez que as enzimas hepáticas
não foram mensuradas de forma rotineira, sendo utilizado
apenas o critério clínico (icterícia) para
o diagnóstico de envolvimento hepático. O antimonial
pentavalente (glucantime), droga utilizada para o tratamento da
doença, tem a hepatoxicidade como um dos principais efeitos
colaterais ()
e pode contribuir para a falência hepática. Como computamos
a icterícia apenas no momento da admissão, e nenhum
desses pacientes tinha feito uso prévio recente de glucantime,
o envolvimento hepático se deveu, provavelmente, à
hepatite causada pela leishmânia, como observado anteriormente
por Jerônimo em Natal ().
No presente estudo, fenômenos hemorrágicos estiveram
presentes em 12,3% dos pacientes no momento da admissão e
em cerca de 60% dos pacientes que foram a óbito, sendo um
importante sinal de alerta de gravidade da doença.
Segundo a OMS, a anemia é registrada em 98% dos casos diagnosticados
no Brasil e, quando grave (< 5 g/dl), é uma das indicações
de internamento. Estudo prévio no IMIP ()
evidenciou que 88% dos pacientes eram anêmicos, enquanto que,
na presente casuística, este fato ocorreu em 99,5% das crianças;
em 25% dos casos, o nível de hemoglobina foi < 5 g/dl.
É provável que a anemia seja de origem multifatorial,
podendo decorrer de bloqueio de produção da medula,
seqüestro esplênico, hemólise imune, hemorragia,
parasitoses intestinais e carência de ferro. Destacamos que
a anemia grave deve ser considerada um dos fatores mais importantes
na vigilância e manuseio dos pacientes, inclusive com transfusão
de hemácias, quando necessário. Leucopenia e neutropenia
(< 1.500/mm³) são encontradas com grande freqüência
em pacientes com LV (),
como verificamos em nossa pesquisa, na qual 85% das crianças
evoluíram com leucopenia e 74% com neutropenia, provavelmente
por hiperesplenismo, além de hipoplasia ou depressão
medular e hemofagocitose. A plaquetopenia é um achado freqüente
em pacientes com LV, presente em 50 a 70% dos pacientes ().
Alves (),
em pesquisa anterior no IMIP, encontrou plaquetopenia em 64,7% dos
pacientes, achado semelhante aos deste estudo, nos quais 68,4% das
crianças internadas tinham contagem de plaquetas inferior
a 150.000/mm³. A contagem de plaquetas pode ser um fator preditor
de hemorragia grave, que, em última instância, foi
uma das causas imediatas de óbito, devendo, por isso, ter
uma monitorização rigorosa.
Os resultados do presente estudo revelam uma taxa de letalidade
de 10,2%, que foi semelhante àquela encontrada em três
hospitais de Natal (9%) por Jerônimo (),
em hospital-escola de São Paulo por Pastorino ()
(9,3%), assim como em estudo prévio no IMIP por Alves ().
No entanto, esta taxa ainda pode ser considerada elevada quando
comparada às taxas de letalidade nacionais, que variaram
de 3,6% em 1997 a 6,3% em 1990, segundo publicação
do Ministério da Saúde ().
A elevada letalidade encontrada neste e em outros estudos feitos
em hospitais poderia ser decorrente do fato de que hospitais de
referência e de maior complexidade poderiam atrair casos de
maior gravidade potencial, selecionando uma clientela de maior risco
de óbito. Além disso, os dados nacionais baseados
em sistemas de notificação possivelmente subestimam
o real número de óbitos decorrentes do calazar no
país, em virtude do seguimento incompleto dos casos ().
Em relação aos 44 óbitos registrados em nossa
casuística, constatou-se que 38 eram crianças menores
de 5 anos e 47,7% eram subnutridos, achado compatível com
outros dados da literatura ().
As principais causas imediatas de óbito encontradas foram
semelhantes àquelas descritas por outros autores: infecção,
hemorragia, anemia e insuficiência hepática ().
Apesar do conhecimento prévio das principais causas imediatas
de óbito, estas persistem ao longo dos anos, embora haja
evidência de descenso geral da letalidade ().
Desta forma, ainda há indicação e espaço
para uma vigorosa atuação objetivando uma redução
significativa da letalidade, sendo importante que o agente de saúde,
o profissional de enfermagem e o médico sejam capacitados
para o reconhecimento e tratamento precoce da doença. Além
disso, grande parte dos municípios ainda encontra dificuldades
operacionais devido à deficiência da rede básica
de saúde, em implantação, no que se refere
ao diagnóstico, tratamento e notificação da
LV, evidenciando uma maior necessidade de integração
entre as ações de controle e de assistência
médica para estes doentes.
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