| Introdução O
surfactante pulmonar é uma substância fundamental na mecânica
pulmonar. Ele está presente em todas as espécies que respiram através
de pulmões, pois, na sua ausência, o líquido presente entre
o alvéolo e o ar apresenta uma tensão superficial alta, que exerce
uma força de colabamento sobre estas estruturas pulmonares. O surfactante
se interpõe às moléculas de água na superfície
alveolar, reduz a tensão superficial de maneira dinâmica, de forma
que essa tensão aproxima-se de zero no final da expiração
quando a superfície do alvéolo está reduzida, evitando assim
a atelectasia. Em 1959, mostrou-se pela primeira vez que a doença
da membrana hialina ou síndrome do desconforto respiratório do recém-nascido
(SDR) era provocada pela deficiência de surfactante ().
Seguiram-se várias tentativas de produzir surfactantes que pudessem substituir
a deficiente produção endógena, inicialmente sem sucesso. A
partir de 1972, Enhorning e Robertson iniciaram a trabalhar com extratos de surfactante
retirados de coelhos adultos e administrados a filhotes prematuros, mostrando
melhora significativa da mecânica pulmonar (). Desde
que Fujiwara et al. ()
publicaram os primeiros resultados promissores da reposição de surfactante
na SDR, esta terapia tornou-se prática rotineira em unidades que atendem
recém-nascidos prematuros, tendo modificado completamente a história
natural desta síndrome. Concomitantemente, grande interesse surgiu quanto
a outras potenciais utilidades desta terapêutica em outras síndromes
e doenças que envolvem disfunção do sistema surfactante. Durante
a década de 80, vários estudos comprovaram a eficácia das
preparações de surfactante "natural" e sintético
para o tratamento e prevenção da SDR ().
Os principais estudos que abordaram o uso profilático ou terapêutico
do surfactante, em relação a controles, foram agrupados em dois
estudos de meta-análise ().
Os resultados resumem os evidentes efeitos benéficos desta terapêutica
em relação ao desfecho clínico natural da SDR. Os efeitos
mais marcantes são a redução da mortalidade e da ocorrência
de escape de ar (pneumotórax e enfisema intersticial pulmonar). A
partir do início dos anos 90, vários preparados comerciais tornaram-se
disponíveis para uso clínico. A administração de surfactante
em SDR tornou-se uma das principais intervenções nas unidades neonatais. Diferentemente
do que na SDR do recém-nascido (RN), em que a deficiente função
do sistema surfactante é devido primariamente a uma falta de sua produção
endógena, decorrente da imaturidade pulmonar, em várias outras patologias
respiratórias de recém-nascidos a termo e pré-termo, assim
como em patologias de crianças maiores e adultos, pode haver redução
da função surfactante devido, sobretudo, à presença
de várias substâncias inibidoras derramadas nas suas vias aéreas
terminais. Esta redução da função surfactante pode
contribuir em graus variados para a insuficiência respiratória associada
às doenças de base. Muitos estudos, em modelos experimentais e em
humanos, têm tentado definir o papel da terapia com surfactante exógeno
nestas situações, particularmente em bronquiolite viral grave, síndrome
de aspiração meconial, broncopneumonias e síndrome de angústia
respiratória aguda (SARA). Apesar disso, as indicações precisas,
os reais benefícios, os custos financeiros e o modo de administração
permanecem pouco esclarecidos. Uso de surfactante
no recém-nascido Na presença do diagnóstico de
doença da membrana hialina ou SDR, não há nenhuma dúvida
sobre a indicação do uso da terapia com surfactante ().
Nesse caso, a dificuldade é como identificar os pacientes que vão
necessitar da terapia, de modo que se permita o seu uso com a maior brevidade
possível. A droga é administrada em uma dose, em geral, de
100 mg/kg de peso, apesar de alguns estudos terem proposto doses diferentes. Doses
iniciais de 200 mg/kg (pool estimado de surfactante endógeno no
RN) foram avaliadas, usando surfactante porcino (Curosurf®), mostrando
alguns efeitos positivos em relação à dose habitual ().
Doses adicionais de 100 mg/kg podem ser administradas, se necessário. A
resposta ao surfactante pode ser afetada (reduzida) por outras patologias associadas
(hipertensão pulmonar persistente do recém-nascido, edema pulmonar,
aspiração de mecônio, etc.), pela distribuição
do surfactante, pela composição do surfactante, pelo manejo da ventilação
mecânica ou pelo momento em que a terapia é administrada. Esta última
variável têm sido o foco dos principais estudos randomizados realizados
após 1992. De um modo geral, o tratamento é indicado para
pacientes prematuros com diagnóstico estabelecido de SDR (forma terapêutica),
ou que apresentem risco muito elevado para ocorrência da síndrome
(forma profilática). O uso terapêutico do surfactante pressupõe
o diagnóstico prévio de SDR. O diagnóstico é, na prática,
feito pela presença de sinais clínicos, evolução e
raio X compatíveis com a síndrome. Como nesta síndrome ocorre
uma atelectasia progressiva, muitas vezes leva algum tempo para que o diagnóstico
se torne evidente. Com grande freqüência, o raio X torna-se característico
quando o quadro já é bastante avançado. Assim, quando o diagnóstico
clínico é estabelecido, o surfactante é administrado. A
principal vantagem desta modalidade terapêutica é a de que praticamente
só os recém-nascidos que realmente necessitam de surfactante são
tratados. Obviamente, quanto mais liberais os critérios para estabelecer
o diagnóstico, mais diagnósticos incorretos são firmados
e, portanto, mais tratamentos desnecessários são administrados.
Esta é a modalidade de tratamento mais utilizada para prematuros mais próximos
ao termo, em que o risco de imaturidade pulmonar e o risco de morte são
menores. A outra forma de administração de surfactante é
a profilática. Esta forma teve origem em estudos experimentais em animais
que mostraram que pulmões imaturos, deficientes de surfactante, apresentam
lesão pulmonar secundária à ventilação muito
precocemente ().
Além disso, o surfactante distribui-se mais homogeneamente quando instilado
na via aérea imediatamente após o nascimento, quando os pulmões
ainda estão cheios de líquido (). A
profilaxia tem sido utilizada imediatamente após o nascimento, antes da
primeira ventilação ou após estabilização inicial,
já com alguns minutos de vida. Se o objetivo é prevenir a lesão
provocada pela deficiência de surfactante nos recém-nascidos com
imaturidade pulmonar, o ideal seria administrarmos a medicação mesmo
antes da primeira inspiração. Entretanto, tem sido sugerido que
a profilaxia imediata não apresenta benefício visível em
relação à profilaxia dentro de um período de 30 minutos
do nascimento ().
Outro problema associado ao uso imediato do surfactante, antes da primeira inspiração,
é o de que este procedimento pode prejudicar a estabilização
inicial do paciente. A alta incidência de deficiência de surfactante
em recém-nascidos muito imaturos, por exemplo, com menos de 30 semanas,
pode parecer boa justificativa para uma abordagem profilática de uso de
surfactante. Nesta modalidade preventiva de uso, no entanto, muitos pacientes
são tratados desnecessariamente, sendo submetidos a um procedimento invasivo
e caro, com riscos potenciais e, certamente, algum desconforto. Vários
ensaios clínicos multicêntricos randomizados têm comparado
a abordagem profilática em relação à terapêutica
().
Nesses estudos, os recém-nascidos com menos de 30 semanas (6 estudos) ou
com menos de 32 semanas (1 estudo) foram sorteados para receber uma dose profilática
ou tratamento após estabelecido o diagnóstico. A maioria dos
estudos mostrou uma melhora do quadro respiratório e uma redução
da incidência de SDR quando utilizado o método profilático.
Uma meta-análise realizada por Sol e Morley mostra uma redução
da incidência de pneumotórax, de enfisema intersticial pulmonar,
da mortalidade e da combinação de mortes e de casos de displasia
broncopulmonar, não havendo complicações relatadas na aplicação
da profilaxia ().
Estas fortes evidências sugerem que entre estas duas opções
terapêuticas, a profilaxia com surfactante está indicada para recém-nascidos
pré-termo com menos de 30 semanas de idade gestacional (alguns pesquisadores
sugerem 28 semanas). Os pacientes que necessitam de intubação e
ventilação mecânica imediatamente após o nascimento
são provavelmente os mais beneficiados por esta conduta. Na deficiência
de surfactante, existem evidências de lesão secundária à
ventilação com pressão positiva após poucos minutos
().
Aguardar mais tempo, atrasando a administração de surfactante, parece
uma conduta inadequada. Entretanto, não nos parece claro que pacientes
que nasçam bem, com ventilação espontânea efetiva,
mesmo que tenham menos de 30 semanas, devam receber o mesmo tratamento. Nos prematuros
em que a gravidade da doença não se manifesta tão precocemente,
e que têm uma prevalência significativamente menor de SDR, talvez
o uso profilático da medicação não apresente benefício.
Não há estudo clínico que tenha utilizado outro critério
além da idade gestacional para a profilaxia. Idealmente, entretanto,
esta profilaxia (ou tratamento muito precoce) com surfactante pulmonar exógeno
deveria ser realizada mediante a comprovação de deficiência
de surfactante. A possibilidade de um diagnóstico preciso, disponível
anteriormente ou imediatamente após o nascimento, deveria beneficiar pacientes
com risco de desenvolver SDR. Entretanto, testes com acurácia de 100% para
este fim não são disponíveis. Uma abordagem lógica,
em prematuros com menos de 30 ou 32 semanas, seria a utilização
de um teste com sensibilidade próxima a 100%, de modo que nenhum (ou quase
nenhum) paciente que fatalmente evoluiria para quadro de SDR deixaria de receber
surfactante rapidamente. Se este teste tivesse uma especificidade razoável,
permitiria reduzir significativamente o número de pacientes "iatrogenicamente"
tratados com surfactante. A abordagem terapêutica em um grupo de pacientes
com alta prevalência da doença claramente não faz nenhum sentido
se um teste nos permitir identificar logo ao nascimento a SDR com precisão.
Provavelmente, a única razão justificável para a abordagem
terapêutica em pacientes com menos de 30 semanas seja a redução
de custos. Esta redução de custos teria sua significância
diminuída com uma abordagem dirigida a partir de um teste. Com base
nestes conceitos, surgiu um interesse renovado em antigos testes rápidos
para determinar a função surfactante, através de exame do
líquido amniótico e aspirado traqueal ou do suco gástrico
do recém-nascido ().
Dentre eles, o teste das microbolhas estáveis (TME) parece ser o mais promissor,
pois mostrou boa sensibilidade e especificidade ().
Sua realização leva menos de 10 minutos, sendo necessários,
como equipamento básico, um microscópio comum e uma lâmina
milimetrada. Além do TME, um outro teste encontra-se presentemente
sendo avaliado com a mesma finalidade de selecionar, em poucos minutos, pacientes
para utilização muito precoce de surfactante. Trata-se da contagem
dos corpos lamelares, corpúsculos contendo surfactante endógeno
que podem ser contados em analisadores de células sangüíneas,
disponíveis nos laboratórios clínicos. Em uma revisão
por meta-análise, os resultados deste teste foi semelhante, tendendo até
mesmo a ser melhor que os da relação lecitina/esfingomielina (). É
provável que, brevemente, o TME e/ou a contagem de corpos lamelares venham
a ser amplamente utilizados nas salas de parto e/ou unidades de tratamento intensivo
neonatais para auxiliar na indicação de surfactante exógeno. Se
a eficácia do surfactante exógeno é bem estabelecida no tratamento
da SDR do recém-nascido, por outro lado, nas demais doenças ou síndromes
em que ocorre a alteração da função surfactante, o
papel da terapia não é bem clara.
A avaliação dos resultados da terapia é prejudicado
no RN porque o diagnóstico diferencial da doença pulmonar
pode ser difícil em algumas circunstâncias. A deficiência
quantitativa de surfactante pode acompanhar e até mesmo fazer
parte da fisiopatologia de alguns dos quadros clínicos que
não são normalmente atribuídos à deficiência
de surfactante. Um exemplo disto é o que ocorre em quadros
respiratórios de pacientes a termo e próximos ao termo
com diagnóstico clínico-radiológico de taquipnéia
transitória (TTRN) e síndrome de aspiração
de mecônio (SAM). Já foram observados baixos níveis
de fosfatidilglicerol no aspirado traqueal ()
e no líquido amniótico ()
na TTRN, assim como baixos níveis de proteínas do
surfactante na SAM ().
Desta forma, pode ser difícil saber se uma resposta positiva
ao surfactante é devido à reversão da inibição,
pela reposição quantitativa na síndrome em
questão ou por um quadro de SDR associado, que não
pode ser excluído facilmente.
Uma das principais síndromes
clínicas do recém-nascido em que o uso de surfactante exógeno
tem sido estudado é a SAM. O mecônio é um potente inibidor
do surfactante. É lógico que a reposição tenha que
ser considerada na síndrome de aspiração de mecônio
(SAM) grave. Sun et al. ()
trataram coelhos recém-nascidos maduros com surfactante porcino exógeno
(200 mmHg), após aspiração meconial induzida, e relataram
melhora na oxigenação e na complacência pulmonar dinâmica.
Ocorreu diminuição na pressão média de vias aéreas,
necessária para uma oxigenação adequada. Lotze (),
em estudo colaborativo, com vários centros, numa população
de 328 recém-nascidos a termo (que é a que apresenta mais comumente
SAM) com desconforto respiratório grave, descreveu a etiologia plausível
com SAM em um percentual alto de sua amostra e não encontrou redução
das complicações pelo tratamento com surfactante, mas o percentual
de pacientes colocados em ECMO foi menor.
Alguns estudos não randomizados mostraram uma pequena melhora
da oxigenação da maioria dos recém-nascidos
com insuficiência respiratória por aspiração
de mecônio ().
Findlay et al. (),
em um estudo randomizado, encontraram, além de uma melhora
da oxigenação, menor incidência de pneumotórax,
um controle mais rápido da hipertensão pulmonar persistente
e uma menor necessidade de ECMO nos recém-nascidos que receberam
surfactante (até 4 doses de 150 mg/kg administradas a cada
6 horas em cerca de 20 minutos).
Em revisão por meta-análise,
Soll e Dargaville concluem que em recém-nascidos com SAM com moderada a
grave falência respiratória, a administração de surfactante
reduz a necessidade de tratamento com ECMO (). A
lavagem pulmonar com surfactante diluído é uma outra forma, ainda
experimental, de uso desta medicação. Esta técnica parece
ser eficaz para aumentar a remoção de substâncias como o mecônio,
em comparação com o soro fisiológico puro, e reduz o efeito
da remoção do surfactante dos pulmões pelo soro. Esta modalidade
terapêutica tem sido estudada em modelos animais de síndrome de aspiração
de mecônio ()
e síndrome da angústia respiratória aguda (SARA) ()
com aparentes efeitos benéficos. Lam e Yeung publicaram um estudo preliminar
mostrando melhora significativa da função pulmonar em seis recém-nascidos
com síndrome de aspiração de mecônio grave tratados
com lavagem brônquica com 15 ml/kg de surfactante diluído (5 mg/100
ml de soro fisiológico) em alíquotas de 2 ml ().
Mais recentemente, Wiswell et al. ()
publicaram um estudo multicêntrico, randomizado, tendo sido incluídos
15 recém-nascidos com SAM grave, tratados com lavagem pulmonar com um surfactante
artificial, e 7 controles tratados convencionalmente. Houve uma tendência
(não estatisticamente significativa) dos recém-nascidos tratados
necessitarem de menos tempo de ventilação mecânica e terem
melhores índices de oxigenação. Claramente, um maior
número de estudos mais amplos são necessários para determinar
mais precisamente as indicações e a melhor forma de administração
de surfactante em recém-nascidos com aspiração de mecônio
grave. Novos surfactantes com preservação protéica ou adicionados
de moléculas que possam impedir ou minimizar a inibição da
ação do surfactante poderão determinar uma melhora significativa
no prognóstico da SAM grave. Pneumonia e sepse afetam a função
surfactante de diferentes maneiras: o dano à barreira alvéolo-capilar
favorece a inundação do alvéolo com proteínas plasmáticas
e outros produtos do sangue que são sabidamente inibidores da função
surfactante ().
A lesão da célula do tipo 2 compromete a produção
e secreção do surfactante, e fosfolipases secretadas pela bactéria
também são capazes de inibir a redução da tensão
superficial do surfactante (). Clinicamente,
a experiência com a utilização de surfactante exógeno
na pneumonia do recém-nascido é ainda limitada. Freqüentemente
os pacientes em que a SDR pode estar associada são prematuros. O raio X
da pneumonia por Streptococcus agalactie pode ter um padrão muito
semelhante ao da SDR. Alguns estudos com pequeno número de casos mostraram
uma melhora da oxigenação (),
uma redução da pressão média de via aérea e
da necessidade de oxigênio em recém-nascidos tratados ().
Recentemente, tem ficado evidente o papel das proteínas surfactantes A
e D, não presentes nos atuais surfactantes comercializados, na defesa do
organismo contra a infecção. A adição dessas proteínas
aos surfactantes exógenos, bem como a sua utilização para
levar anticorpos específicos aos pulmões, poderá provavelmente
constituir-se, num futuro próximo, em um importante avanço no tratamento
das pneumonias neonatais. A terapia com surfactante tem sido estudada em
outros quadros clínicos do recém-nascido, como na hipoplasia pulmonar
e na hérnia diafragmática. Algum efeito positivo, pelo menos transitório,
tem sido notado. Os estudos são insuficientes para qualquer avaliação
mais objetiva da terapia nestes casos. Em resumo, a terapia com surfactante
no recém-nascido fora da SDR permanece controversa. Mesmo na SDR, permanecem
questões a serem respondidas. É importante, ainda, lembrar que a
SDR também ocorre em recém-nascidos com mais de 37 ou 38 semanas
e, portanto, o fato de um paciente ser a termo não exclui, de forma alguma,
este diagnóstico. Desta forma, nos primeiros dois dias de vida, a
terapia com surfactante deve ser considerada no neonato com insuficiência
respiratória grave, mesmo que o diagnóstico não seja SDR.
O resultado clínico é muitas vezes surpreendente. Um dos principais
problemas para a indicação de surfactante, nestas circunstâncias,
é o custo da medicação, mas devemos lembrar que outras terapias
de alto custo (ex. óxido nítrico) podem ser muitas vezes evitadas
se o surfactante for utilizado. Além disso, o surfactante, de uma forma
geral, é uma terapia muito segura. Uso de surfactante após
o período neonatal Em pacientes pediátricos, assim como
em pacientes adultos, em várias condições se reconhece a
alteração do sistema surfactante. A inibição é
a causa mais comum desta alteração, mas a redução
da produção também pode ocorrer em determinadas situações.
Uma das maiores dificuldades no estudo das potenciais indicações
da terapia com surfactante constitui-se nos custos da medicação.
Esses custos são proporcionalmente aumentados à medida em que aumenta
o peso do paciente. Resposta clínica benéfica em pacientes
com insuficiência respiratória de várias etiologias, fora
do período neonatal, tem sido observada. Entretanto, a experiência
com o uso de surfactante, nestas circunstâncias, é bastante limitada,
até o momento. Permanece a expectativa de que novos produtos, mais resistentes
à inibição surjam nos próximos anos e proporcionem
melhores resultados. Bronquiolite viral grave A
bronquiolite viral aguda é a infecção pulmonar mais freqüente
no lactente e é ocasionada, em cerca de 70 a 80% das vezes, pelo vírus
respiratório sincicial. A evolução clínica normalmente
é benigna, mas em algumas situações especiais, a doença
leva à internação hospitalar. Uma porcentagem de pacientes
poderá desenvolver quadro grave de insuficiência respiratória
aguda, sendo necessária a internação em UTI Pediátrica
e o uso de suporte ventilatório invasivo. Os pacientes mais suscetíveis
a quadros clínicos graves são os portadores de displasia broncopulmonar. A
lesão do pneumócito tipo II leva à disfunção
qualitativa do surfactante, que contribui para o colapso alveolar e para o aumento
da permeabilidade capilar, piorando, por inativação, a disfunção
do surfactante (). O
tratamento com surfactante, nesta doença, foi proposto por sua potencialidade
de estabilizar os bronquíolos terminais e alvéolos e melhorar as
trocas gasosas. Luchetti et al. ()
mostraram, em estudo randomizado em lactantes com bronquiolite viral aguda, melhora
na oxigenação, diminuição na PaCO2 e diminuição
nos parâmetros do ventilador, com redução do tempo de suporte
ventilatório invasivo e de internação. Vitola et al.
(),
em nosso meio, descrevem a utilização de surfactante em um paciente
com bronquiolite viral aguda grave que necessitava de elevados parâmetros
ventilatórios para manter PaO2 de 60-80 mmHg. A utilização
de surfactante (Exosurf Glaxo - 50 mmHg) seguiu-se de melhora da oxigenação
e possibilidade de diminuição dos parâmetros utilizados no
paciente. Os dados da literatura são escassos, mas são promissores
em relação à utilização de surfactante em bronquiolites
graves, como adjuvante na terapêutica, particularmente nos pneumopatas crônicos,
como os do grupo com displasia broncopulmonar. Broncopneumonia As
ações patogênicas de vírus, bactérias e fungos
podem levar a anormalidades nas diferentes frações (protéicas
e fosfolipídicas) que compõe o surfactante, e na presença
de processo inflamatório e edema intenso de vias aéreas inferiores,
pode haver redução da sua produção. Há
descrição de melhora da hipoxemia em adultos (),
bem como em recém-nascidos com processos pulmonares graves determinados
pelo Streptococcus do grupo B ().
Os dados ainda são pobres para qualquer indicação nesta patologia. Síndrome
do desconforto respiratório agudo (SARA) Ranieri e Shitsky descreveram
as lesões clássicas induzidas pelo ventilador (LIPV). Entre elas,
o aumento da permeabilidade epitelial e endotelial pulmonar, com a conseqüente
alteração na produção de surfactante. Vários
estudos com lavado broncoalveolar demonstram alteração quantitativa
do surfactante alveolar na SARA. Ocorre, também, inativação
do surfactante por proteínas plasmáticas que passam para dentro
dos alvéolos; o surfactante sofrerá inibição ou sofrerá
alteração em sua formação estrutural ótima
(alteração nos componentes fosfolipídicos ou protéicos),
por ação de mediadores inflamatórios que estão sabidamente
presentes na SARA. Ocorrerá incorporação do surfactante na
membrana hialina que se forma, e teremos alterações na síntese
e liberação do surfactante pela lesão do pneumócito
tipo II. Anzueto et al. (),
em 1996, publicaram estudo controlado e randomizado de 725 casos de SARA com a
utilização de surfactante na forma de aerossol, não tendo
sido demonstrado melhora na troca gasosa (oxigenação) ou na sobrevida.
O que se criticou neste artigo foi a forma aerossolizada de ministrar o surfactante,
que atinge os alvéolos em apenas 5% da dose ministrada. Lopez-Herce,
em 1999 (),
publicaram casuística com 20 crianças (13 com SARA e 7 com cardiopatia)
em que ocorreu melhora significante na relação PaO2/FiO2
no índice de oxigenação pós-surfactante em 10 dos
13 pacientes com SARA. O mesmo efeito não ocorreu nos pacientes com cardiopatia.
Estes autores fazem referência sobre os possíveis efeitos benéficos
da precocidade de uso e sobre a forma de instilação direta na traquéia. Willson
e Zaritsky, em 1999 (),
em um estudo com 42 crianças com SARA, 21 tratadas e 21 controles, utilizaram
uma dose de surfactante exógeno e obtiveram, no grupo tratado, uma melhora
no índice de oxigenação e no índice de ventilação.
O grupo tratado permaneceu 4,2 dias menos em suporte ventilatório com extubação
mais precoce. A mortalidade foi de 11,9%. Se ponderarmos a literatura em
pacientes adultos, os dados falam mais a favor do uso de surfactante, com uma
menor casuística com resultados pouco promissores. Surfactantes
comerciais disponíveis Vários são os preparados
oferecidos mundialmente para utilização clínica. Os surfactantes
comercializados nos últimos anos, no mercado brasileiro, são os
derivados de extrato de pulmão de porco (Curosurf®), extrato
de pulmão bovino (Survanta®), lavado de pulmão bovino
(Alveofact®) e um surfactante artificial (Exosurf®).
Os primeiros três contêm as proteínas do surfactante B e C,
contudo as proteínas A e D são eliminadas no processo de produção.
O último não contém proteínas associadas. Todos são
eficazes no tratamento da SDR, porém os surfactantes naturais têm
mostrado algumas vantagens na comparação com os artificiais. Na
revisão atualizada comparando eficiência dos dois tipos de surfactante,
Soll e Blanco concluem que os pacientes tratados com surfactantes naturais demonstram
melhora mais rápida dos parâmetros ventilatórios, apresentam
menos escape de ar e menor mortalidade ().
Nos estudos avaliados, houve uma tendência a maior ocorrência de hemorragia
ventricular, mas não quando consideradas somente as hemorragias mais graves.
Os autores sugeriram que os surfactantes naturais são preferíveis
aos sintéticos no tratamento da SDR. Tentativas de aprimorar os surfactantes
sintéticos têm ocorrido com a adição de proteínas
do surfactante, sendo possível uma modificação nestes resultados
dentro de poucos anos. Na Tabela 1 são mostradas as características
dos preparados mais comuns no nosso meio. Técnica de administração A
administração de surfactante é feita através de um
tubo endotraqueal (que deve estar posicionado adequadamente), instilando-se o
medicamento em uma ou mais alíquotas (em posição supina ou
utilizando-se diferentes posições), conforme as orientações
fornecidas por cada laboratório. Provavelmente o número de alíquotas
em que o surfactante é administrado faça pouca diferença
(),
porém as recomendações seguem os protocolos com os quais
cada produto foi testado. Entretanto, alguns surfactantes comerciais são
relativamente muito diluídos, de forma que a aplicação em
apenas uma alíquota pode prejudicar transitoriamente a ventilação.
Pode ser administrado através de uma sonda passada pelo tubo endotraqueal
ou diretamente no tubo, não parecendo haver diferença de resultados
entre as duas técnicas. O surfactante deve ser aquecido previamente,
segurando-se o frasco na palma da mão. O tubo endotraqueal é desconectado
brevemente do respirador (pode também ser administrado através de
sistema em que não haja desconecção), devendo a instilação
ser rápida (menos de 30 segundos), reconectando-se novamente o paciente
ao respirador. A freqüência cardíaca e a saturação
transcutânea devem ser monitoradas durante o procedimento. Deve-se tentar
evitar a aspiração do tubo endotraqueal por 6 horas após
a administração da dose. Os parâmetros ventilatórios
e a fração inspirada de oxigênio devem ser ajustados de acordo
com as mudanças que ocorrerem nos minutos que seguem a administração
da droga. A administração através de nebulização
foi tentada em algumas ocasiões, com demonstração de efeito
benéfico em alguns estudos em animais. Porém, nenhuma forma de administração
por aerossol mostrou-se adequada para substituir a forma de administração
por instilação. O principal benefício seria o de evitar a
intubação traqueal (). Tabela
1 -
Características dos surfactantes atualmente disponíveis no mercado
brasileiro
Outros aspectos como técnicas ventilatórias e o recrutamento
alveolar, juntamente com a terapia com surfactante, também
podem ter impacto nos resultados da terapia.
Conclusão
A
terapia com surfactante exógeno não é ainda um tema esgotado,
nem mesmo na SDR. Na prática clínica atual, a aspiração
de mecônio e a falência respiratória devem ser consideradas
indicações possíveis para uso de surfactante exógeno,
especialmente nos dois primeiros dias de vida. Após os primeiros
dias de vida, as indicações são ainda mais obscuras. Os surfactantes
podem ser ainda melhorados, sobretudo para resistir à inibição,
e as formas de utilização em outras doenças que não
a SDR deverão ser aperfeiçoadas. O tema permanece extremamente promissor
como campo de pesquisa. |