Uveíte na artrite idiopática juvenil

Uveitis in juvenile idiopathic arthritis
Adriana M. Roberto, Maria Teresa R.A. Terreri, Cláudio Len, Cristina Muccioli, Maria Odete E. Hilário
J Pediatr (Rio J) 2002;78(1):62-6

Introdução

A artrite idiopática juvenil (AIJ) é a artropatia crônica mais freqüente na infância, caracterizada por inflamação das articulações e comprometimento de outros órgãos.

Dentre as manifestações extra-articulares mais freqüentes da AIJ encontra-se a uveíte anterior crônica não granulomatosa (ou iridociclite), muitas vezes levando a comprometimento da visão(1). A iridociclite crônica consiste em uma inflamação da íris e do corpo ciliar, com duração superior a três meses. Sua incidência é variável. Em nosso meio, a AIJ é responsável por 1,5% a 5,2% das uveítes na infância(2,3). A uveíte ocorre com maior freqüência nas meninas com quadro pauciarticular, menores de seis anos de idade e com a presença do FAN(4). Allemann e col. estudaram 77 pacientes com AIJ por um período de 9 anos, e apenas oito (10,4%) apresentaram comprometimento ocular, sendo cinco (62,5%) do tipo pauciarticular e três (37,5%) poliarticular(5). Em outro estudo, a uveíte foi encontrada em 20% das crianças com AIJ pauciarticular e em 5% da forma poliarticular(6). A uveíte é rara em crianças com AIJ de início sistêmico.

A uveíte anterior crônica é de evolução bilateral em 65% dos casos(7). As manifestações mais precoces ocorrem pelo acúmulo de células inflamatórias na câmara anterior e formação de sinéquias na evolução, sendo geralmente assintomáticas. Menos de 2% dos pacientes podem queixar-se de lacrimejamento, dor, fotofobia, cefaléia, hiperemia conjuntival ou diminuição da acuidade visual. Eventualmente pode haver reagudização da iridociclite e não há uma relação direta entre a atividade da artrite e uveíte(8).

A uveíte pode preceder o aparecimento da artrite ou, mais freqüentemente, aparecer nos primeiros cinco ou até dez anos de doença(4,7).

Estima-se que 25% dos pacientes com AIJ associada à uveíte anterior crônica evoluam com complicações sérias e irreversíveis, como catarata, ceratopatia em faixa, sinéquia posterior, glaucoma, edema, degeneração cistóide de mácula e até cegueira(9).

Há poucos relatos na literatura sobre a histopatologia da uveíte na AIJ. Algumas alterações, como o aumento na vascularização da íris com infiltrados linfocitários e de células plasmáticas, têm sido descritas(8). Os níveis de imunoglobulinas (principalmente IgG) estão aumentados no humor aquoso, assim como no vítreo. Segundo Bloom e col., esses anticorpos são significantemente mais freqüentes na população com AIJ tipo pauciarticular e poliarticular do que nos pacientes com AIJ sistêmica e nos controles normais(8). A ativação de complemento (C3 e C1q) no humor vítreo sugere a presença de imunocomplexos(4).

A positividade do FAN se associa com a uveíte crônica. O FAN é significantemente mais freqüente em crianças com AIJ pauciarticular e uveíte (65-88%) do que naquelas com AIJ sem uveíte(4).

O nosso estudo teve como objetivo avaliar a freqüência de uveíte anterior crônica em pacientes com AIJ e sua associação com a presença do FAN.

Casuística e métodos

Pacientes

Foram avaliadas, retrospectivamente, 72 crianças com diagnóstico de AIJ, classificadas segundo o Colégio Americano de Reumatologia (1986), acompanhadas no setor de Reumatologia Pediátrica do Departamento de Pediatria da UNIFESP-EPM, e que foram avaliadas no Departamento de Oftalmologia da mesma instituição.

Métodos

O estudo consistiu em avaliação clínica e oftalmológica dos pacientes com diagnóstico confirmado de AIJ e determinação do FAN (imunofluorescência indireta) e fator reumatóide (FR) (prova do látex) no período inicial da doença.

A avaliação oftalmológica consistiu de exame biomicroscópico para a análise da câmara anterior. Para os pacientes com FAN positivo, esta avaliação foi realizada a cada três meses e, naqueles com FAN negativo, a cada seis meses.

A biomicroscopia é realizada através de um aparelho que fornece um feixe de luz potente por uma fenda, por isso também chamada de lâmpada de fenda, que permite a microscopia de tecidos vivos. É o exame de escolha para avaliação da córnea, segmento anterior dos olhos e até mesmo vítreo e túnica íntima e média, facilitando a observação direta da estrutura histológica normal e análise crítica das alterações patológicas existentes(10).

Análise estatística

Para a comparação do grupo de pacientes com AIJ e uveíte com aqueles com AIJ e sem uveíte, em relação à positividade do FAN, foi utilizado o teste estatístico de Fisher.

Resultados

Das 72 crianças com diagnóstico confirmado de AIJ, 40 (55,5%) eram do sexo masculino e 36 (50%) caucasóides. A idade média de início da AIJ foi 6,4 anos (1 a 14 anos), com idade média na época do estudo de 10,4 anos (1 a 19 anos). De acordo com o tipo de início da AIJ, em 32 (44,4%) crianças era pauciarticular (17 meninos e 15 meninas), em 30 (41,6%) poliarticular (17 meninos e 13 meninas), e em 10 (14%) sistêmico (6 meninos e 4 meninas).

As características clínicas dos pacientes com AIJ estão representadas na Tabela 1.

Tabela 1 -
Características clínicas dos pacientes com AIJ

A presença de uveíte anterior crônica foi detectada em cinco (6,5%) crianças com idade média de 11,4 anos. Destas, quatro (80%) eram do tipo de início pauciarticular (três meninas do tipo I, com FAN positivo, e um menino do tipo I, FAN negativo), e uma menina poliarticular (FAN e FR negativos). Neste grupo, a idade média de início da AIJ foi 5,1 anos (3 a 12 anos), e a idade média de início da uveíte foi 9 anos (4 a 16 anos). Uma paciente apresentou uveíte após 13 anos do diagnóstico de AIJ em remissão, e os demais, após um ano de doença em atividade.

O FAN foi positivo em 3/5 pacientes (60%) com uveíte. Dois apresentaram o padrão homogêneo e pontilhado fino, e um pontilhado fino. Dentre os pacientes com AIJ e sem uveíte (67 crianças), oito (12%) apresentaram FAN positivo (seis pauciarticular e dois poliarticular), e três (4,5%) apresentaram FR positivo (dois do subtipo pauciarticular e um poliarticular) (Tabelas 2 e 3).

Tabela 2 -
Pacientes com AIJ de acordo com a presença ou não de uveíte

Tabela 3 -
Positividade do FAN de acordo com a presença ou não de uveíte

Quanto à evolução dos pacientes com uveíte, três crianças tiveram apenas um episódio de uveíte (uma menina pauciarticular, uma menina poliarticular, e um menino pauciarticular). Duas crianças do tipo pauciarticular apresentaram duas recorrências da uveíte, sem atividade articular associada, e evoluíram com catarata como complicação oftalmológica tardia.

A presença do FAN foi estatisticamente mais freqüente na população de pacientes com AIJ associada com uveíte (60%) do que naqueles sem uveíte (12%) (p<0,05).

Discussão

A incidência de uveíte (6,5%) nas crianças atendidas em nosso serviço foi menor do que a encontrada na literatura. Cabral e col. encontraram uveíte em 20% das crianças com AIJ pauciarticular, e 5% nas de início poliarticular(6). Isto talvez se explique por características de nossa população ou por falha no encaminhamento de pacientes, que são acompanhados apenas pelos oftalmologistas.

Em nosso estudo, quatro crianças com AIJ de início pauciarticular, uma criança do tipo poliarticular e nenhuma do tipo sistêmico apresentaram uveíte, o que está de acordo com a literatura que descreve maior freqüência de uveíte na AIJ pauciarticular(5,6).

Os fatores de risco determinantes de uveíte nas crianças com AIJ estão relacionados ao sexo feminino, idade de início da artrite inferior a seis anos, tipo de início pauciarticular, tempo de duração da doença inferior a 4 anos, positividade do FAN e presença do HLADR5(1,6,7,11,12). Esses fatores de risco também foram encontrados em nosso estudo: a maioria (80%) das crianças com uveíte eram do sexo feminino, todas iniciaram a artrite antes dos seis anos, apresentaram doença de início pauciarticular e tempo mínimo de duração da doença de um ano.

Segundo Allemann e col., a positividade do FAN foi quatro vezes mais freqüente nos pacientes com comprometimento oftalmológico do que nos controles com AIJ (5,8%)(5). Outros estudos já demonstraram a importância do exame oftalmológico freqüente e detalhado em pacientes com FAN positivo, principalmente se pertencentes ao grupo pauciarticular. Nesse subgrupo, a presença de anticorpos antinucleares é alta (cerca de 80%) e associada à alta incidência de iridociclite crônica(2).

Em nosso estudo, a presença do FAN foi detectada em três meninas com AIJ pauciarticular, tipo I, e uveíte anterior crônica, e foi estatisticamente mais freqüente nos pacientes com uveíte do que naqueles sem uveíte (60% e 12,5% respectivamente). Este auto-anticorpo é considerado um preditor do comprometimento oftalmológico(4).

Todas as crianças com comprometimento ocular apresentaram fator reumatóide (FR) negativo, achado que está de acordo com o estudo de Galea e col.9 Fator reumatóide positivo parece estar associado a um menor risco de uveíte, semelhante ao que ocorre na artrite reumatóide do adulto(13).

Em relação às complicações da uveíte crônica, duas meninas com AIJ pauciarticular, tipo I, ambas com FAN positivo, tiveram duas recorrências da uveíte com catarata. Em 1989, Kanski descreveu 277 pacientes com artrite crônica juvenil e iridociclite; destes, 42% desenvolveu catarata, e 17% glaucoma(13).

A importância da avaliação periódica com biomicroscopia em pacientes com AIJ se deve ao fato do comprometimento oftalmológico ser geralmente assintomático, sendo a uveíte detectada na maior parte das vezes, na avaliação oftalmológica de rotina(14). Esta deve ser feita a intervalos trimestrais para aqueles com FAN positivo e semestrais para aqueles com FAN negativo, por um período de 7 a 10 anos, mesmo quando o quadro inflamatório articular está em remissão(4). O diagnóstico e tratamento precoces diminuem o aparecimento de seqüelas(12,15)s.

Concluímos que, apesar do pequeno número de casos de uveíte anterior crônica encontrados (6,5%), a freqüência foi maior no sexo feminino e na AIJ tipo pauciarticular, com presença do FAN na maioria dos casos.