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Introdução
A trombose da artéria renal é evento pouco comum,
que pode estar associado a uma variedade de doenças, como
displasia fibromuscular, vasculites, policitemia vera, tumores,
trauma, cateterismo da artéria umbelical e com estados hipercoaguláveis,
como a síndrome do anticorpo antifosfolípide().
A síndrome do anticorpo antifosfolípide é
caracterizada pela presença de anticorpos com especificidade
dirigida para fosfolípides, proteínas plasmáticas
ligadas a fosfolípides de cargas negativas ou proteínas
plasmáticas isoladas().
As manifestações clínicas variam desde quadros
subagudos (cefaléia recorrente, distúrbios visuais
e disartria ocasional, livedo reticular, tromboses de veias profundas
e recorrência de abortos) a graves (insuficiência de
valva cardíaca, trombocitopenia e tromboses generalizadas)().
É classificada como primária ou secundária
de acordo com a ausência ou presença de conhecido processo
de doença reumática de base, respectivamente().
Foi inicialmente reconhecida em pacientes com lúpus eritematoso
sistêmico, que apresentavam desordem hemorrágica e
anticoagulante circulante().
Em torno de 50% de pacientes com lúpus eritematoso sistêmico
apresentam o anticorpo antifosfolípide, e metade destes têm
morbidade secundária à síndrome do anticorpo
antifosfolípide().
Em crianças, existem poucos casos descritos dessa síndrome,
sendo a maioria relatos de associações entre a síndrome
do anticorpo antifosfolípide e artrite reumatóide
juvenil, lúpus eritematoso sistêmico e tromboses().
O objetivo deste estudo é relatar um caso de criança
com trombose da artéria renal e diagnóstico de síndrome
do anticorpo antifosfolípide primária.
Relato de Caso
Criança de 2 anos e 6 meses, do sexo masculino, natural
e procedente de Tatuí -SP, sexto filho de mãe multípara,
nascido de parto normal, gestação e puerpério
sem intercorrências; apresentava-se bem até a internação
na Enfermaria de Pediatria do Hospital da Faculdade de Medicina
de Botucatu -UNESP, em 31/07/95.
A criança foi encaminhada ao nosso serviço devido
a quadro abrupto de dor abdominal há 12 dias, tendo sido
internada em outro serviço e tratada com antibióticos
(cefalosporina e aminoglicosídeos) com suspeita de pielonefrite.
Apresentava também história de 36 horas de anúria,
palidez e apatia. Ao exame físico, apresentava-se em regular
estado geral, obnubilada e às vezes irritada, com olhar vago,
hipertensa (PA= 160/120 mmHg), FC= 120 bpm e FR= 38 irpm, afebril,
edema palpebral +2/+4, palidez cutânea +2/+4 e dor à
palpação do hipocôndrio direito; sem demais
alterações de outros sistemas. Os exames laboratoriais
revelaram leucocitose de 24.600 cél/mm3, uréia e creatinina
séricas de 112 mg/dl e 4,5 mg/dl, respectivamente; pH sangüíneo=
7,43, bicarbonato sangüíneo de 12,8 mmol/L e potássio
sérico de 7,2 mEq/L. Foi internado em UTI para monitorização
do distúrbio metabólico e da hiperpotassemia. Iniciou-se
o tratamento dialítico, o qual foi mantido por 11 dias, quando
apresentou diurese efetiva (>1,0ml/kg/h). Durante a internação,
foram mantidas as medidas de suporte para manutenção
de níveis de uréia abaixo de 100 mg/dl e tratada a
hipertensão com a nifedipina.
Na investigação inicial, o exame de ultra-sonografia
renal revelou rins simétricos, contornos regulares, rim direito
medindo 6,9cm e rim esquerdo medindo 6,7cm. Exame de fundo de olho
com retinopatia hipertensiva A1H1; eletrocardiograma e ecocardiograma
com resultados dentro da normalidade para a idade.
Após 7 semanas de internação, o paciente ainda
necessitava de tratamento anti-hipertensivo, e não tendo
ocorrido ainda a normalização da função
renal, o paciente foi submetido à biópsia renal à
direita, constatando-se infarto renal anêmico. Diante desse
diagnóstico, foi realizada a ultra-sonografia renal com doppler
que revelou rins assimétricos; o rim direito mediu 4,3 cm
e o esquerdo 6,8cm, com ausência de fluxo intra-renal à
direita. A cintilografia renal com GHA Tc 99 revelou exclusão
funcional do rim direito e comprometimento da perfusão no
rim esquerdo (Figura 1). A arteriografia demonstrou a aorta torácica
e abdominal normais, artéria renal direita com 100% de oclusão
em terço proximal e artéria renal esquerda sem alterações
(Figura 2). A pesquisa imunológica para lúpus eritematoso
foi negativa; a velocidade de hemossedimentação e
a dosagem de mucoproteína estavam dentro da normalidade;
a proteína reativa C e a prova do látex foram negativas,
e o coagulograma foi normal. Foi submetido à nefrectomia
à direita e evoluiu com melhora da hipertensão arterial.
No seguimento ambulatorial, apresentou desenvolvimento e estatura
normais, sendo necessária a manutenção de medicação
anti-hipertensiva (captopril). O clearance de creatinina
8 meses após a nefrectomia era de 30 ml/mim/1,73m2
SC.
Figura 1 - Cintilografia renal com GHA Tc99
Figura 2 - Arteriografia demonstrando aorta torácica e abdominal
normais, artéria renal direita com 100% de oclusão
em terço proximal e artéria renal esquerda sem alterações
Aos 5 anos e 8 meses de idade, em uso da mesma medicação,
referiu que, há 1 mês, apresentava-se com dor abdominal,
dispnéia aos esforços, dor precordial que se irradiava
para a face lateral do pescoço à esquerda e sinais
de crise de ausência. Ao exame físico, apresentava-se
com estado geral preservado, contactuante, peso de 17.900 kg (percentil
10, tabela NCHS), estatura de 105cm (<percentil 5, tabela NCHS),
PA= 100/60 mmHg, FC=76 bpm e FR=20 irpm. Pele e mucosas descoradas
+2/+4, sopro cardíaco +2/+6. Na avaliação das
queixas, o eletrocardiograma e ecocardiograma realizados foram normais,
e o sopro cardíaco considerado funcional. O clearance de
creatinina era de 50 ml/mim/1,73 m2 SC. A ultra-sonografia renal
com doppler revelou ausência do rim direito e perfusão
preservada em rim esquerdo, com tamanho de 8,3 cm; o exame de fundo
de olho foi normal, sorologia para lúpus eritematoso foi
negativa. Durante a internação, diagnosticou-se síndrome
convulsiva e o paciente recebeu anticonvulsivante com desaparecimento
dos sintomas e tendo tido alta em 3 semanas. No seguimento ambulatorial,
foi realizada a pesquisa de anticorpo anticardiolipina, que revelou-se
positiva para IgG. Diante do quadro de trombose arterial renal sem
causa definida e desse resultado positivo, sugeriu-se como etiologia
a síndrome do anticorpo antifosfolípide. Nessa ocasião,
a criança não recebeu nenhum tratamento específico
por apresentar-se assintomática.
Aos 7 anos, em seguimento ambulatorial, a criança apresentava-se
com estado geral preservado, recebendo anti-hipertensivo e anticonvulsivante
e com as dosagens de antigoagulante lúpico e anticorpo anticardiolipina
negativos (1 ano após o resultado positivo).
Discussão
A síndrome do anticorpo antifosfolípide é
uma desordem trombótica caracterizada pela associação
de trombose venosa ou arterial com anticorpos dirigidos contra fosfolípides().
Os anticorpos antifosfolípides constituem um grupo heterogêneo
de imunoglobulinas que diferem entre si quanto ao isótipo,
especificidade antifosfolipídica, características
imunoquímicas, ligação a co-fatores protéicos
e patogenicidade().
Na detecção de anticorpos associados à síndrome
do anticorpo antifosfolípide, utiliza-se habitualmente dosagem
de anticorpos anticardiolipina e de anticoagulantes lúpicos,
sendo estes considerados testes-ouro para o diagnóstico da
doença().
Não são conhecidos, completamente, os antígenos
envolvidos na produção destes anticorpos; admite-se
que estes anticorpos podem ligar-se diretamente a fosfolípides
com cargas negativas (fosfatidilserina, ácido fosfatídico,
fosfatidiletanolamina e fosfatidilinositol) ou através de
co-fatores plasmáticos (beta 2-glicoproteína 1, protrombina,
proteínas C e S)().
Durante muitos anos, a idéia prevalente quanto a patogênese
dessa síndrome era a de que os anticorpos dirigidos contra
fosfolípides da membrana de células do endotélio
vascular seriam responsáveis pelos eventos trombóticos().
Dados recentes sugerem que esses anticorpos sejam específicos
para proteínas plasmáticas, que se ligam a fosfolípides
do endotélio, atuando como verdadeiros antígenos,
uma vez que a cardiolipina e os fosfolípides, de um modo
geral, são pouco antigênicos().
Outros mecanismos implicados na formação de trombos
são: maior ativação do endotélio vascular,
resultando no aumento da adesão de monócitos e plaquetas
ativadas; exacerbação da expressão do fator
tecidual na superfície de monócitos, que constitui
o principal iniciador da coagulação in vivo; inibição
da atividade da proteína C, da proteína S e de outros
fatores da coagulação(,).
Segundo Alargon-Segovia et al.(),
o diagnóstico da síndrome do anticorpo antifosfolípide
primária é feito pela presença de altos títulos
do anticorpo antifosfolípide e de duas ou mais manifestações
clínicas em um indivíduo com ausência do diagnóstico
de doença reumática de base().
Nessa síndrome, as tromboses arteriais podem ocorrer em
várias localizações: cerebral(),
retina(),
coronária(),
mesentérica(,)
e vasos periféricos(,).
Trombose das artérias cerebrais é um achado freqüente
na criança com a síndrome do anticorpo antifosfolípide(,).
Por outro lado, há poucos relatos da ocorrência de
trombose de artéria renal nessa síndrome na criança.
Em 1990, foi descrito um dos primeiros casos da síndrome
do anticorpo antifosfolípide associada à trombose
da artéria renal em uma menina portadora de lúpus
eritematoso sistêmico().
Semelhante ao nosso caso, a criança relatada por Ostuni et
al.()
apresentava quadro de dor abdominal, hipertensão grave, febre,
convulsões, oligúria, hematúria microscópica
e altos níveis de anticorpo IgG para cardiolipina.
Recentemente, o comprometimento de artérias renais foi descrito
em 2 de 5 casos de crianças com hipertensão de origem
renovascular e com a síndrome do anticorpo antifosfolípide().
Nestas duas crianças, a oclusão da artéria
renal abrangia um terço e dois terços da luz, e não
apresentaram comprometimento da função renal; diferente
do ocorrido em nosso paciente, que apresentou oclusão de
100% da luz da artéria renal e permaneceu em insuficiência
renal.
Embora as manifestações renais da síndrome
do anticorpo antifosfolípide tenha recebido escassa atenção
até recentemente, o rim, provavelmente, é um dos principais
órgãos afetados nessa síndrome. A trombose
pode desenvolver-se em qualquer localização dentro
dos vasos renais, no tronco ou ramos da artéria renal, arteríolas
e artérias intrarenais, capilares glomerulares e veia renal().
As manifestações clínicas do comprometimento
renal consistem de graus variáveis de proteinúria,
hematúria, hipertensão sistêmica variando de
leve à maligna, necrose cortical, microangiopatia trombótica
associada ou não à gestação, e falência
renal lenta a rapidamente progressiva().
Infartos renais têm sido descritos na chamada síndrome
catastrófica do anticorpo antifosfolípide, caracterizada
por múltiplas oclusões vasculares e com conseqüente
insuficiência renal e mortalidade de 60%().
Não há critérios universalmente aceitos para
o diagnóstico da síndrome do anticorpo antifosfolípide;
também não está totalmente esclarecido se os
anticorpos antifosfolípides constituem agentes causais ou
são epifenômenos. Na prática clínica,
sua detecção constitui o único teste sorológico
confiável para o diagnóstico da síndrome do
anticorpo antifosfolípide, entretanto a interpretação
dos ensaios para a detecção de anticorpos anticardilipina
e anticoagulante lúpico ainda não está bem
estabelecida. Há dificuldades na interpretação
da determinação do ponto de corte positivo, das flutuações
de títulos em um mesmo paciente, da discordância de
resultados em vários laboratórios e do fato de que
muitos pacientes com a síndrome do anticorpo antifosfolípide
bem documentada poderem, eventualmente, se tornar soronegativos(,).
Com relação ao tratamento dessa doença, têm
sido utilizadas drogas imunossupressoras, antiplaquetárias
e anticoagulantes().
Em um estudo de 147 pacientes, adolescentes e adultos, o anticoagulante
foi utilizado com boa resposta, o que sugere que a anticoagulação
parece ser a medida mais eficaz de mudança na história
natural da doença().
É sugerido o tratamento anticoagulante com heparina na fase
aguda e o uso profilático de antiagregantes plaquetários
até a negativação do anticorpo anticardiolipina().
No presente caso, no momento do diagnóstico da trombose arterial
renal, o paciente não tinha o diagnóstico da síndrome
do anticorpo antifosfolípide; posteriormente, quando da obtenção
da positividade deste anticorpo, o paciente estava assintomático,
optando-se por não medicar. Desta forma, realizou-se seguimento
com consultas freqüentes e dosagens regulares do anticorpo
anticardiolipina.
Diante do exposto, o paciente que relatamos apresenta quadro associado
à síndrome do anticorpo antifosfolípide. Trata-se
de caso raro em criança, existindo poucos relatos na literatura;
os protocolos de tratamento estão sendo ainda definidos,
sendo, portanto, necessário o seguimento multidisciplinar
e prolongado. Além disso, a síndrome do anticorpo
antifosfolípide primária em crianças deve ser
incluída no diagnóstico diferencial nos quadros de
trombose inexplicada.
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