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O problema da desnutrição
carencial infantil
Apesar de o direito inalienável de todo ser humano de não
padecer de fome e desnutrição ter sido reafirmado
sucessivamente em conferências dos países membros das
Nações Unidas em 1948 (Declaração Universal
dos Direitos Humanos), em 1974 (Conferência Mundial de Alimentação
das Nações Unidas), em 1978 (Pacto Internacional de
Direitos Econômicos e Declaração da Organização
Mundial da Saúde (OMS) sobre Saúde para todos
no ano 2000, em 1989 (Convenção sobre os Direitos
da Criança)(),
e mais recentemente promovida pela OMS como sendo um direito humano(),
a desnutrição infantil continua a ser um dos problemas
mais importantes de saúde pública do mundo atual,
devido a sua magnitude e conseqüências desastrosas para
o crescimento, desenvolvimento e sobrevivência das crianças.
Este artigo revê o atual conhecimento sobre desnutrição
infantil e as estratégias para o controle da doença.
A OMS estima que mais de 20 milhões de crianças nascem
com baixo peso a cada ano(),
cerca de 150 milhões de crianças menores de 5 anos
têm baixo peso para a sua idade()
e 182 milhões (32,5%) têm baixa estatura().
Alguns autores referem, no entanto, que esses valores podem estar
subestimados devido a dificuldades para o cálculo de cifras
exatas sobre a prevalência mundial de desnutrição().
Mudanças relativamente pequenas nos pontos de corte limite
dos indicadores antropométricos utilizados para classificar
o estado nutricional e, conseqüentemente, definir a doença,
podem implicar em variações da ordem de milhões
no número de crianças que se supõe sofrer de
desnutrição(,).
A desnutrição é a segunda causa de morte mais
freqüente em menores de 5 anos nos países em desenvolvimento().
Pelletier()
atribui 56% das mortes de crianças à desnutrição,
devido aos efeitos potencializadores das formas moderadas e leves
dessa doença.
Cerca de 20 a 30% das crianças gravemente desnutridas vão
a óbito durante o tratamento em serviços de saúde
de países em desenvolvimento().
Essas cifras têm se mantido inalteradas nas últimas
5 décadas e correspondem a um percentual 4 a 6 vezes mais
alto que a taxa de 5%, reconhecida como aceitável pela OMS().
Em recente inquérito realizado em nível mundial,
em 79 hospitais, verificou-se que muitos profissionais de saúde
têm idéias ultrapassadas e/ou desconhecem a conduta
adequada para o tratamento de crianças gravemente desnutridas().
A inadequação do tratamento geralmente resulta da
falta de reconhecimento do estado fisiológico alterado e
da redução dos mecanismos homeostáticos que
ocorrem na desnutrição(,).
As práticas incluem reidratação inadequada
levando a sobrecarga e falência cardíaca, falta de
reconhecimento de infecções que levam à septicemia
e falha em reconhecer a vulnerabilidade das crianças gravemente
desnutridas à hipotermia e à hipoglicemia. Em muitos
locais de tratamento, a reabilitação é muito
lenta().
Em alguns centros, a falta de recursos é o fator limitante,
embora exista conhecimento adequado().
Em outros, a atualização e/ou o aperfeiçoamento
de condutas, através de uma pequena modificação,
pode trazer um benefício substancial. Isso foi observado
na Bolívia ao se introduzir zinco no tratamento dessas crianças().
No Brasil, a redução da ingestão de lactose
na fase inicial do tratamento, o aumento da ingesta de energia na
fase de crescimento rápido, e a administração
de suplementos de potássio, magnésio, zinco e cobre,
reduziu a diarréia, aumentou em 4 vezes a taxa de ganho ponderal
e reduziu substancialmente os custos do tratamento().
Na África do Sul, a administração apenas de
micronutrientes reduziu a mortalidade de 30% para 20%, mas quando
se introduziu também uma mudança na intensidade e
na qualidade do cuidado dado à criança, a taxa de
mortalidade foi reduzida para 6%().
No Brasil(),
como na maioria dos demais países em desenvolvimento(),
como resultado dos ganhos econômicos extraordinários
e grande expansão de serviços e programas de saúde(),
a situação nutricional dos menores de 5 anos melhorou
nos últimos anos. Entre 1975 e 1989, a prevalência
da desnutrição foi reduzida em cerca de 60%, representando
mais de 1 milhão de crianças. No entanto, o fato de
que a forma atual mais comum de desnutrição infantil
é a crõnica, expressa principalmente pelo déficit
de altura por idade, e a existência atual de um percentual,
embora não muito alto, de crianças desnutridas graves,
ao lado da sua concentração nas regiões mais
pobres do País, as regiões Norte e Nordeste, indicam
que o problema não está de todo controlado().
É reconhecido que a existência de casos de desnutrição
grave, mesmo que em pequeno número, representa o topo de
um iceberg. Para cada caso grave há muitos outros
que são menos graves, às vezes sem sinais clínicos
típicos de desnutrição. A desnutrição
moderada e leve muitas vezes se expressa apenas em termos de falha
de crescimento().
O desafio secular da desnutrição
A literatura registra que os médicos do século XIX
e do início do século XX já admitiam que a
fome, através da conseqüente baixa ingestão de
alimentos, provocava retardo de crescimento das crianças().
Vários autores, inclusive no México e no Chile, descreveram
diferentes aspectos da doença a partir dos anos 1800 e chamaram
a atenção para o fato de que o emagrecimento extremo
e/ou edema debilitante resultante da doença poderia levar
a criança a óbito().
No entanto, a descrição da doença como síndrome
e a primeira denominação que configurou a sua existência
ocorreram apenas no início dos anos 30. Williams()
descreveu o Kwashiorkor, que era bem mais visível
que a magreza (marasmo) das crianças. No Brasil, a doença
foi registrada pela primeira vez nos anos 50().
Uma vez descrita, a desnutrição infantil foi reconhecida
como um problema de natureza médica que incluía também
deficiências de vitaminas tais como beribéri, pelagra,
xeoftalmia e escorbuto. A cura da doença, detectada nos anos
50 como já disseminada na África, América Central
e Brasil, foi atribuída ao uso de alimentos de alto teor
protéico().
As necessidade nutricionais de proteínas foram então
aumentadas por expertos da FAO em 1973(),
e foi estimulada a produção de alimentos complementares
com alto teor protéico. Estabeleceu-se a era da proteína.
No entanto, ainda nos anos 70, ocorreu o chamado grande fiasco
da proteína().
Os inquéritos nutricionais amplamente realizados pela FAO
demonstraram que, em todos os países estudados, a dieta supria
as necessidades de proteína, mas não as de energia
preconizadas por consultores da mesma instituição,
em 1973().
Desde então se reconhece que a desnutrição
energético-protéica (DEP) decorre de deficiência
principalmente energética. O fator identificado como crucial
foi a distribuição e o acesso dos pobres aos alimentos.
A pobreza foi estabelecida como sendo a principal causa de desnutrição(,).
A esse conhecimento subseqüentemente agregaram-se as descobertas
sobre a fisiopatologia da doença e a descoberta da relação
e associação sinérgica entre desnutrição
e infecção().
Devido a sua natureza multifatorial, a desnutrição
passou a ser vista como um problema social, e não puramente
de saúde pública. Assim, passou do domínio
dos médicos e dos profissionais de saúde para o do
planejamento técnico e burocrático. Foi a era da chamada
teoria do planejamento nutricional intersetorial, que
pressupunha que o problema nutricional dos países subdesenvolvidos
seria solucionado através de um planejamento e alocação
racional de recursos. A teoria, no entanto, fracassou, provocou
uma enorme dificuldade na implementação das políticas
de nutrição e desmotivou a ação efetiva
dos profissionais de saúde().
A dificuldade de o planejamento nutricional beneficiar os pobres
é muito bem refletida na queixa de um hindu anônimo(),
ao expressar a sua desilusão com doadores de alimentos das
políticas de nutrição:
Eu estava faminto e você instalou um comitê
para investigar a minha fome;
Eu estava sem casa e você preencheu um formulário
com a minha reclamação;
Eu estava doente e você fez um seminário sobre
a nutrição dos pobres;
Você investigou todos os aspectos do meu lamento- e, ainda
assim, eu continuo com fome, sem casa e doente.
Nos anos 80 a participação do setor de saúde
voltou a ser claramente incluída no combate à desnutrição
infantil, através da proposta de saúde para todos
até o ano 2000, da Conferência Internacional de Alma-Ata().
A história natural da desnutrição
infantil
O desafio à boa nutrição ocorre ao longo de
todo o ciclo da vida().
A desnutrição geralmente se inicia no útero,
acomete as crianças e, através das meninas e mulheres,
se estende à vida adulta e às próximas gerações,
pelo seu efeito negativo aditivo sobre o baixo peso dos bebês.
Bebês de baixo peso que sofreram retardo de crescimento intra-uterino
nascem desnutridos e estão em mais alto risco de morte que
os bebês normais. Se eles sobrevivem, é improvável
que recuperem mais tarde o crescimento perdido e, provavelmente,
apresentarão uma variedade de déficits de desenvolvimento.
Além disto, evidências atuais indicam que o baixo peso
ao nascer está relacionado a um maior risco de várias
doenças crônicas da idade adulta().
Durante a infância, infecções freqüentes
e prolongadas e a ingestão inadequada de nutrientes, particularmente
energia, proteína, vitamina A, zinco e ferro, exacerbam os
efeitos do retardo de crescimento intra-uterino. Falha de crescimento
ocorre rapidamente até os 2 anos de idade, resultando em
baixo peso e baixa estatura. Sabe-se atualmente que, nos países
em desenvolvimento, as principais causas de crescimento inadequado
são deficiência de alimento e infecções,
geralmente combinadas().
Reconhece-se também que, do ponto de vista da história
natural da doença, há dois tipos de déficit
de crescimento em crianças: emagrecimento e baixa estatura().
O emagrecimento é definido pelo peso por estatura,
e um grau de magreza abaixo de -2 desvios-padrão (DP) da
mediana do padrão de referência do NCHS/OMS é
considerado como patológico. A baixa estatura é
definida pela altura por idade, e quando abaixo de -2 DP da mediana
do padrão de referência do NCHS/OMS, é chamada
nanismo. Esses dois tipos de déficit representam processos
biológicos distintos. Embora possam freqüentemente ser
encontrados em uma mesma criança, eles são de fato
estatisticamente independentes, e suas respectivas prevalências,
por recomendação da OMS, são apresentadas,
em todo o mundo, de forma separada().
O pico de prevalência do emagrecimento ocorre no segundo
ano de vida, coincidindo com a introdução dos alimentos
complementares e uma alta incidência de diarréia().
A sua causa parece ser bastante direta: alimentos inadequados (em
quantidade e qualidade) e uma alta incidência de doenças
diarréicas. Uma vez que o episódio de infecção
é controlado e há disponibilidade de alimentos, o
peso é recuperado. A quantidade de alimento necessária
para a recuperação do rápido crescimento não
é muito grande, e a dieta precisa ser rica em energia e proteínas(,).
A baixa estatura ou nanismo tem uma história natural
diferente do emagrecimento. Tipicamente, a lentificação
do crescimento linear, como demonstrado em estudos da Guatemala
e Índia, começa em torno do terceiro mês de
vida e continua por 2 ou 3 anos. A velocidade de crescimento só
é mais ou menos restaurada em torno dos 5 anos, quando o
déficit de altura pode já ser de cerca de 15cm em
relação à criança normal, e mantido
durante a idade adulta. Entre 5 e 18 anos, a taxa de crescimento
é normal, mas não há crescimento rápido().
Uma pesquisa recente sugere que o nanismo nutricional resulta de
uma redução da freqüência de eventos de
crescimento da criança ou de uma redução da
amplitude de crescimento, quando um evento ocorre(,).
Se a criança atingida por nanismo nutricional continua a
viver nas mesmas condições em que ela adoeceu, ela
não recuperará a sua velocidade de crescimento rápido
para que atinja o seu potencial genético. Estudos demonstram,
no entanto, que é possível reverter o nanismo nutricional
quando se modifica, para melhor, as condições de vida,
como observado na África do Sul, Jamaica e Peru().
A presença de nanismo, portanto, é um indicador proxy
para uma privação multifacetada, e a sua prevalência
é considerada atualmente como um indicador adequado para
expressar a qualidade das condições de vida de uma
população().
O importante em relação à baixa estatura é
a sua relação com o desenvolvimento de retardo mental
em crianças pequenas, que não se observa no emagrecimento
apenas. Mesmo que a criança seja capaz de recuperar perfeitamente
o seu grau de retardo de crescimento físico linear, os efeitos
sobre o desenvolvimento mental são mais duradouros)(,,).
O papel da infecção é muito importante na
evolução e sobrevivência da criança desnutrida.
Pelletier()
argumenta, de forma convincente, que os efeitos da desnutrição
e da infecção, mesmo nas formas moderadas e leves,
não são aditivos, mas sim multiplicativos. Nesta análise
ele não faz distinção entre emagrecimento e
nanismo.
A desnutrição infantil e
suas causas
A desnutrição infantil é uma doença
de origem multicausal e complexa que tem suas raízes na pobreza.
Ocorre quando o organismo não recebe os nutrientes necessários
para o seu metabolismo fisiológico, devido a falta de aporte
ou problema na utilização do que lhe é ofertado.
Assim sendo, na maioria dos casos, a desnutrição é
o resultado de uma ingesta insuficiente, ou fome, e de doenças().
Existe na literatura um considerável número de estudos
e publicações relacionadas à desnutrição,
suas causas e conseqüências(,,).
Diversos modelos causais têm sido propostos, por vários
autores e instituições, para explicar a gênese
da desnutrição(,,).
Esquemas causais têm sido propostos tentado hierarquizar a
importância dos fatores causais(),
propondo um esquema mais abrangente que inclui as práticas
de cuidado com a criança e as suas condições
de vida()
e introduzindo a natureza do vínculo mãe-filho como
importante fator na gênese da desnutrição().
A OMS()
sugere que o esquema alimento-saúde-cuidados,
proposto pelo UNICEF(),
seja utilizado como instrumento analítico da interação
dos vários determinantes da desnutrição nos
diferentes níveis da sociedade. Nesse esquema, a desnutrição
infantil é mostrada como resultado de dieta inadequada e
doenças que resultam de falta de segurança alimentar,
de cuidados inadequados da mãe para com a criança,
e de serviços de saúde deficientes. As causas básicas
que contribuem para esses fatores são estruturas sociais
e instituições, sistemas políticos e ideologias,
distribuição de riquezas e de recursos potenciais().
Entre os fatores que contribuem para a desnutrição
na criança pequena encontram-se as suas necessidades relativamente
maiores, tanto de energia como de proteínas, em relação
aos demais membros da família; o baixo conteúdo energético
dos alimentos complementares utilizados e administrados com freqüência
insuficiente; a disponibilidade inadequada de alimentos devido à
pobreza, desigualdade social, falta de terra para cultivar e problemas
de distribuição intra-familiar; as infecções
virais, bacterianas e parasitárias repetidas, que podem produzir
anorexia e reduzir a ingestão de nutrientes, sua absorção
e utilização, ou produzir a sua perda; as fomes causadas
por secas ou outros desastres naturais ou guerras; as práticas
inadequadas de cuidado infantil tais como administração
de alimentos muito diluídos e/ou não higienicamente
preparados(,).
No marasmo, a forma clínica de desnutrição
freqüente na maioria dos países em desenvolvimento,
principalmente em menores de 18 meses, todos os fatores acima podem
estar presentes, não havendo dúvidas de que o mais
importante é a ingestão inadequada de alimentos, sobretudo
energia insuficiente para cobrir as necessidades metabólicas
e de crescimento normal().
A prematuridade e o baixo peso ao nascer são causas predisponentes().
Após o nascimento, concorrem para a desnutrição
a falta de aleitamento materno ou o retardo na introdução
de alimentos complementares adequados e falta de apoio apropriado
dos profissionais de saúde para orientar a mãe que,
devido à falta de recursos financeiros e/ou de conhecimentos
sobre a saúde e nutrição da criança,
freqüentemente utiliza fórmulas hiperdiluídas,
preparadas em condições não higiênicas,
e muitas vezes estocadas por longo período à temperatura
ambiente(,).
As causas do Kwashiorkor são complexas. A criança
com Kwashiorkor consome habitualmente uma dieta escassa tanto
em energia como em proteínas().
As infecções desempenham um importante papel. Alguns
autores defendem que, quando a ingestão de proteína
é muito baixa em relação aos carboidratos,
o que pode ser agravado pelas perdas de nitrogênio nas infecções,
ocorrem várias alterações metabólicas
que podem resultar em edema(,).
Para outros autores, o Kwashiorkor é uma desadaptação,
de origem hormonal, à deficiência de proteínas.
Outros atribuem a formação do edema a mecanismos endógenos
relacionados a radicais livres().
Não há consenso, portanto, sobre a etiologia do edema
do Kwashiorkor.
Tanto a fome como as doenças podem ser decorrentes de inúmeros
fatores, de uma longa seqüência de acontecimentos interligados.
Isso dificulta análises conclusivas sobre os determinantes
da desnutrição em uma dada população().
A maioria das conclusões atuais sobre causalidade da desnutrição
infantil se origina de estudos transversais e de evidências
obtidas a partir de intervenções em saúde().
Estudos aleatórios controlados são inviáveis
para investigar a gênese da desnutrição().
A pobreza não é homogênea e variáveis
socioeconômicas, por exemplo, não podem ser testadas
com a metodologia acima descrita().
Uma outra dificuldade decorre da natureza das próprias variáveis.
A renda e a educação, por exemplo, reconhecidas como
determinantes do estado nutricional infantil, podem variar ao longo
do tempo, além de serem dados difíceis de coletar.
Portanto, é difícil estudar a sua relação
com estado nutricional ao longo do tempo, tanto em estudos transversais
como em estudos prospectivos de longa duração().
Fisiopatologia da desnutrição
grave
A desnutrição afeta todos os sistemas e órgãos
das crianças gravemente desnutridas. Nenhuma das funções
até agora estudadas nessas crianças tem se mostrado
normal().
Sugere-se que todos os processos do organismo entram em uma redução
funcional adaptativa, como estratégia para garantir a sobrevivência(,,).
Detalhes sobre a fisiopatologia da desnutrição podem
ser vistos em várias publicações(,,,,,,,).
É importante conhecer, principalmente, aqueles que mais adequadamente
embasam o tratamento da criança gravemente desnutrida()
(Tabela 1).
Tabela 1 - Principais
aspectos da fisiopatologia da desnutrição grave
Edema nutricional
Ainda existem controvérsias sobre a causa do edema na DEP.
A teoria clássica(,)
afirma que o déficit no suprimento de proteínas leva
a uma redução da síntese de albumina. O fígado
gordo, em proporção superior a 50% da sua estrutura,
uma proporção superior à observada em experimentos
animais ou em qualquer outra condição humana, está
estatisticamente associado ao edema da desnutrição().
A hipótese, ainda não comprovada, é de que
ele resulta de uma falha no transporte de gordura para fora do fígado,
e isso, por sua vez, é causado por uma redução
na síntese de apolipoproteína, em paralelo à
redução da síntese da albumina. Também
há evidência epidemiológica que apóia
essa teoria clássica: a desnutrição edematosa
ocorre particularmente em populações em que o alimento
básico é pobre em proteínas, tal como a mandioca,
ou contém proteína de má qualidade, como o
milho.
A teoria oposta nega a relação entre edema e hipoalbuminemia
e propõe que o edema resulta de lesão causada por
radicais livres nas paredes dos vasos capilares e membranas celulares().
Quadro clínico da desnutrição
A denominação desnutrição energético-protéica
engloba uma ampla variedade de situações clínicas
cuja gravidade oscila desde muito graves até leves. Em um
extremo do espectro, encontram-se o Kwashiorkor e o marasmo
nutricional, com elevadas cifras de mortalidade, e no outro a DEP
leve, cuja principal manifestação identificável
nas crianças é o retardo no crescimento. O quadro
clínico da DEP foi mais detalhadamente descrito na literatura
clássica(,,,,,,).
O Kwashiorkor e o marasmo se manifestam clinicamente de
forma distinta. As principais características do Kwashiorkor
são retardo no crescimento, perda de gordura subcutânea
e muscular menos intensa que no marasmo, edema depressível
que se localiza principalmente nas pernas, nas crianças que
caminham, mas que pode atingir todo o corpo, hepatomegalia acentuada
devido a esteatose hepática, e alterações mentais
e de humor. Podem ocorrer lesões de cabelos (textura, cor,
sem brilho, queda) generalizadas ou localizadas (sinal da bandeira),
e também lesões de pele (despigmentação,
dermatose de áreas de fricção, descamação).
Anorexia, diarréia, infecções e deficiências
de micronutrientes (vitamina A, zinco, ferro) são freqüentes.
A presença de um significante grau de perda de peso e a presença
de edema são os aspectos essenciais para o diagnóstico
de Kwashiorkor().
A criança com marasmo avançado tem um aspecto inconfundível.
É muito magra, com evidente perda de massa muscular, extremidades
muito delgadas e abdomen às vezes proeminente. A face tem
uma aparência de velho ou simiesca.
Pregas frouxas da pele podem ser vistas, principalmente nas nádegas.
Os principais sinais clínicos são peso muito baixo
(peso por idade inferior a 60% do peso previsto para a idade), retardo
no crescimento (baixa estatura para a idade) e gordura cutânea
escassa ou ausente. Diarréia, infecção respiratória,
parasitoses e tuberculose comumente estão presentes, bem
como sinais de carências de micronutrientes, como xeroftalmia,
deficiência de vitamina B, anemia ferropriva e outras. O estado
de ânimo pode ser mais ansioso do que apático. A temperatura
corporal tende à hipotermia.
Uma proporção das crianças desnutridas pode
apresentar uma forma de desnutrição mista, o Kwashiorkor-
marasmático, com características mistas em relação
às duas outras formas clínicas. Geralmente, quando
desaparece o edema com o tratamento, pode-se ver que elas são
portadoras de marasmo.
Na criança desnutrida, muitos sinais de desidratação
não são confiáveis. Os olhos podem ser encovados
devido à perda de gordura subcutânea na órbita.
Muitas glândulas, incluindo as sudoríparas, lacrimais
e salivares, estão atrofiadas. A criança tem secura
na boca e nos olhos, e a produção de suor é
reduzida. Os músculos respiratórios são fatigados
facilmente. Falta energia à criança.
A criança desnutrida grave, ao ser hospitalizada, geralmente
está apática, não responde bem ao estímulo
social, chora com facilidade, é extremamente magra, desproporcional,
e/ou apresenta edema que pode estar limitado apenas ao dorso dos
pés e das mãos ou ser generalizado. É atrasada
em seu desenvolvimento como um todo, não sendo capaz de atrair
a simpatia das pessoas, como acontece geralmente com as crianças
normais. Ao ser observada no colo da mãe, parece ser carregada
mais como um objeto do que como um ser humano.
As crianças que não apresentam as características
clínicas do marasmo, mas que apresentam déficit de
crescimento, são consideradas desnutridas moderadas ou leves.
Atualmente, por recomendação da OMS(,),
são utilizados os indicadores altura por idade, peso por
altura e peso por idade para a classificação do estado
nutricional. Os pontos de corte para a classificação
do estado nutricional (desnutrição grave se menor
que -3 DP, moderada entre -2 e -3 DP e leve entre -1 e -2DP) são
baseados, por um lado, em relações estatísticas
entre os indicadores antropométricos e, por outro, nos impedimentos
funcionais, nos riscos aumentados de morbidade e mortalidade e em
outras evidências das conseqüências de fatores
de risco relacionadas a alimentos e a fatores de risco não
alimentares. Uma descrição detalhada dos indicadores
antropométricos, incluindo sua construção,
aplicação e interpretação em crianças,
pode ser encontrada em outras publicações().
Para a criança, os desfechos dos processos fisiológicos
nutricionais se relacionam com o crescimento físico, a atividade,
a morbidade e a mortalidade (relacionadas à imunocompetência
e à integridade tissular), bem como o desenvolvimento psicológico().
Desses, o mais facilmente mensurável é o crescimento.
A desnutrição leva precocemente à horizontalização
e/ou ao declínio da curva de crescimento da criança(),
além de causar a maioria dos déficits antropométricos
observados nas crianças dos países em desenvolvimento().
Atualmente, considera-se a existência de três formas
de desnutrição segundo a classificação
antropométrica: baixa estatura ou nanismo nutricional
e emagrecimento, já descritos anteriormente na história
natural da doença, e baixo peso.
O baixo peso é detectado pelo indicador peso por idade,
que representa a massa corporal relativa à idade. Reflete
o crescimento linear e o acúmulo de peso atingido no período
pré e pós-natal (longo prazo), bem como o acúmulo
de peso ocorrido em curto prazo. O baixo peso/ idade pode assim
refletir ou uma variação normal do crescimento ou
um déficit de crescimento. Considera-se que uma criança
tem baixo peso/idade quando seu peso está abaixo de -2DP
em comparação ao padrão internacional de referência
para rescimento().
Uma vez que pode ser influenciado pela soma do grau de nanismo e
do grau de magreza da criança, este indicador é de
difícil interpretação e não é
o indicador ideal para definir o tipo de intervenção
a ser utilizado, nem para identificar qual deve ser o grupo alvo().
Por definição, para qualquer dos indicadores, o escore
Z médio da população de referência é
zero. Escore Z negativo indica que a criança e/ou a população
estudada está abaixo do padrão de estado nutricional
desejável. Se o escore Z é igual ou inferior a -3
DP, considera-se que existe desnutrição grave, e se
entre 2 a -2,9 DP, desnutrição moderada. Habitualmente,
em uma população sadia, se encontra menos de 1% de
déficits graves e cerca de 2,3% de déficits moderados(,,).
Outra forma de classificação do estado nutricional
é a comparação com percentis. Se o valor do
indicador antropométrico está abaixo do percentil
3, a desnutrição é moderada ou grave, e se
entre os percentis 3 e 10, a desnutrição é
leve().
Essa forma é habitualmente usada no Brasil pelos programas
de saúde e pelo Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional
(SISVAN).
Uma descrição mais detalhada sobre os indicadores
antropométricos, incluindo a sua construção,
uso e interpretação, pode ser vista nas referências
deste artigo().
Diagnóstico
O diagnóstico de desnutrição é feito
a partir da história clínica da criança, bem
como pelo seu exame clínico e determinação
do estado nutricional. A avaliação e cuidadoso acompanhamento
clínico da criança é o guia mais importante
para o diagnóstico e para definir e monitorizar o tratamento
da criança. A clínica da criança é soberana
em todos os momentos do tratamento, inclusive nas situações
de impossibilidade de realização ou de dificuldades
de interpretações de exames laboratoriais. Onde os
recursos permitirem, exames laboratoriais podem ser feitos para
ajudar no tratamento. No entanto, é importante lembrar que,
no caso da criança desnutrida grave, a interpretação
dos resultados dos exames deve ser cuidadosa, uma vez que os mesmos
podem ser alterados pela própria desnutrição,
confundindo os trabalhadores de saúde menos experientes.
As alterações bioquímicas e metabólicas
são semelhantes nas crianças com marasmo, Kwashiorkor
e Kwashiorkor-marasmático(,).
Devido à gravidade e complexidade das alterações
metabólicas, os exames laboratoriais podem ser de difícil
interpretação ou até mesmo confusos. A proteína
sérica total no Kwashiorkor está dimimuída
devido à baixa de albumina, em conseqüência à
alteração da sua síntese hepática, enquanto
no marasmo é normal. Os aminoácidos essenciais podem
estar baixos e os não essenciais, normais ou altos, sobretudo
no Kwashiorkor. A imunoglobulina G sérica pode estar
alta em decorrência de infecções. A proteína
captadora de retinol pode estar baixa. É freqüente que
a hemoglobina e o hematócrito estejam baixos. As concentrações
de creatinina e hidroxiprolina urinária são baixas,
principalmente nos pacientes muito emagrecidos.
Podem ser encontrados sinais bioquímicos de deficiência
de vitamina A, riboflavina tiamina, niacina e ácido ascórbico,
bem como de deficiências de minerais como ferro, zinco e magnésio.
Também podem haver sinais bioquímicos de desequilíbrio
hidroeletrolítico secundário à desidratação
por diarréia.
Tratamento
Diversos aspectos do tratamento da criança desnutrida vêm
sendo revistos por vários autores(,,,).
No Brasil, a necessidade identificada de se aperfeiçoar a
assistência a essas crianças tem gerado uma série
de discussões de idéias e propostas de aperfeiçoamento
e sistematização da ação no país(),
incluindo-se uma possível adaptação à
realidade do País das novas diretrizes da OMS()
para o tratamento da criança gravemente desnutrida.
Na dependência da sua gravidade, as crianças desnutridas
podem ser tratadas em hospital, centros de nutrição,
ambulatórios e na comunidade/domicílio.
Devem ser hospitalizadas para tratamento as crianças
com manifestações clínicas de Kwashiorkor,
marasmo ou Kwashiorkor-marasmático, cujo peso para
a idade (P/I) seja menor que -3DP ou menos de 70% da mediana dos
valores de referência do NCHS, associado a inapetência
acentuada; e/ou diarréia e/ou vômitos; e/ou qualquer
infecção associada. Também devem ser hospitalizadas
crianças com DEP grave (P/I < -3DP) que não podem
ser referidas para tratamento ambulatorial, centros de recuperação
nutricional e outros().
Quando é possível medir a altura, utiliza-se o indicador
peso por altura e considera-se desnutrição grave a
presença de edema, emagrecimento importante (menos de 70%
do peso/altura ou - 3 DP) ou sinais clínicos de desnutrição
grave().
A abordagem do tratamento hospitalar é a mesma para
crianças com Kwashiorkor, marasmo e Kwashiorkor-marasmático.
O tratamento deve ser iniciado tão logo a criança
seja atendida. Ela deve ser manuseada o mínimo possível.
Para fins de compreensão, o tratamento da criança
com desnutrição grave pode ser dividido em três
fases, descritas a seguir. A duração total mínima
prevista é de 26 semanas, para atingir a reabilitação
e também prevenir recaídas.
Na fase de estabilização, que vai do 1º
ao 7º dia de tratamento, são identificados e tratados
os problemas com risco de vida, corrigidas as deficiências
específicas, assim como as anormalidades metabólicas,
e inicia-se a alimentação. Na fase de reabilitação,
que dura da 2a até 6a semana, a criança deve ser alimentada
de forma intensiva para recuperar a maior parte do peso perdido.
Aumenta-se a estimulação emocional e física,
treina-se a mãe ou pessoa que cuida da criança para
continuar os cuidados em casa e, finalmente, prepara-se a alta da
criança. Se a duração da hospitalização
for menor que 6 semanas, deve-se assegurar o suporte adequado para
completar o tratamento de reabilitação em centro de
nutrição, ambulatório e domicílio.
A fase de acompanhamento, da 7a à 26a semana, inicia-se
imediatamente após a alta, principalmente se a criança
recebeu alta antes de completar a reabilitação.
Acompanha-se a criança e sua família, para prevenir
a recaída e assegurar a continuidade do desenvolvimento emocional,
físico e mental da criança.
Quando a criança tiver completado a fase inicial do tratamento,
não tiver complicações e estiver se alimentando
e ganhando peso satisfatoriamente (geralmente 2-3 semanas após
a admissão), ela geralmente pode continuar o tratamento em
um centro de reabilitação nutricional, sem ser em
regime de internação. Um centro de reabilitação
nutricional ()é
um hospital-dia, um centro de saúde ou uma instalação
semelhante que presta cuidado diário através de uma
equipe treinada em reabilitação de crianças
desnutridas. A criança dorme em casa, é trazida ao
centro a cada manhã e retorna a sua casa ao final de cada
dia. É necessária uma íntima colaboração
entre o hospital e o centro para assegurar a continuidade do cuidado
da criança e facilitar o seu rápido retorno ao hospital,
caso surja algum problema grave. Em áreas urbanas, os centros
de reabilitação nutricional devem ser preferivelmente
estabelecidos perto do hospital. Em áreas onde não
há centros especializados, o hospital deve continuar a acompanhar
a criança até que ela esteja pronta para a alta do
tratamento.
Crianças com desnutrição grave freqüentemente
estão muito doentes e em risco de vida quando chegam para
tratamento, necessitando, amiúde, de tratamento, de emergência.
A criança deve ser mantida aquecida, adequadamente vestida
e coberta, e afastada de correntes de ar, principalmente à
noite. Idealmente, a temperatura ambiental deveria ser mantida em
25-30oC porque as crianças desnutridas graves, particularmente
as pequenas, facilmente ficam hipotérmicas. Nos locais de
clima muito quente, deve-se cuidar para que a criança não
fique hiperaquecida durante as horas mais quentes do dia.
Todas as crianças gravemente desnutridas estão
em risco de hipoglicemia (glicose sangüínea <54mg/100ml
ou <3mmol/l), uma importante causa de morte durante os primeiros
2 dias de tratamento. Hipoglicemia pode decorrer de uma infecção
sistêmica grave ou por não alimentação
da criança nas últimas 4-6 horas. Se há suspeita
de hipoglicemia, o tratamento deve ser imediato, sem confirmação
laboratorial; o tratamento não trará nenhum malefício
mesmo que o diagnóstico esteja incorreto. Freqüentemente,
o único sinal antes de morrer por hipoglicemia é a
sonolência. Caso não seja possível dosar a glicemia,
deve-se assumir que todas as crianças gravemente desnutridas
têm hipoglicemia. Se a criança pode beber, dar 50ml
de glicose ou sacarose a 10%, ou alimentar a criança com
preparação apropriada para esta fase. Se a criança
estiver inconsciente, dar 5ml/kg de peso corporal de solução
estéril de glicose a 10% intra-venosa (IV). Se a criança
tem convulsões por hipoglicemia, manter a infusão
venosa de glicose com velocidade entre 4 a 6 mg/kg/hora, até
melhor estabilização do paciente. Quando isso ocorrer,
dar 50ml de glicose a 10% ou sacarose, por sonda nasogástrica
(SNG). Quando a criança recuperar a consciência, começar
a dar imediatamente a dieta ou solução de glicose
em água (60g/l). Continuar a alimentação freqüente
por via oral ou por SNG a cada 2 horas, dia e noite, no mínimo
durante o primeiro dia, para prevenir uma reincidência().
Todas as crianças desnutridas com suspeita/diagnóstico
de hipoglicemia devem ser também tratadas com antibiótico
de largo espectro para infecções sistêmicas.
A hipotermia está associada com mortalidade aumentada.
Todas as crianças hipotérmicas também devem
ser tratadas para hipoglicemia e para infecção sistêmica
séria. A hipotermia é freqüente nas crianças
desnutridas graves menores de 12 meses, com marasmo, com grandes
áreas de pele lesada ou com infecções graves.
Se a temperatura axilar estiver abaixo de 35,0oC ou não aparece
para leitura no termômetro axilar disponível, assuma
que a criança tem hipotermia. Aqueça bem a criança,
alimente-a imediatamente e trate as infecções existentes.
É difícil diferenciar desidratação
e choque séptico em uma criança com desnutrição
grave. Em muitos casos de choque séptico, há uma
história de diarréia e um grau de desidratação
leve ou moderado, produzindo um quadro clínico misto. Muitos
dos sinais habitualmente usados para avaliar desidratação
não são confiáveis em uma criança com
desnutrição grave, tornando difícil ou impossível
detectar desidratação e sua gravidade de forma confiável.
Além disso, muitos sinais de desidratação também
são encontrados no choque séptico, fazendo com que
a desidratação seja hiperdiagnosticada e sua gravidade
hiperestimada. Freqüentemente é necessário tratar
a criança simultaneamente para desidratação
e choque séptico.
No tratamento da desidratação, a via oral
é a preferencial, sendo a via intravenosa reservada aos casos
em que há sinais definitivos de choque, pois pode facilmente
causar hiperidratação e insuficiência cardíaca.
A solução para reidratação oral deve
ter menos sódio e mais potássio que a solução
padrão recomendada pela OMS. Magnésio, zinco e cobre
também devem ser dados para corrigir a deficiência
desses minerais. A solução de reidratação
oral proposta pela OMS para crianças desnutridas graves contém
aproximadamente 45mmol de sódio, 36mmol de potássio
e 3mmol de magnésio por litro().
No tratamento do choque séptico, proceder a hidratação
venosa com volume inicial de 15 a 20ml/kg na primeira hora, com
solução salina 0,45% (metade da solução
fisiológica) com glicose a 5%2 (soro glicosado fisiológico
a 5% -1:1.) ou solução de Ringer lactato com glicose
a 5%. Se possível, adicionar cloreto de potássio estéril
(20mmol/l). Monitorar a criança rigorosamente para hiperidratação,
adequando os próximos passos à resposta observada.
Tratar vigorosamente a infecção. Realimentar e iniciar
a reidratação oral tão logo quanto possível.
Mais detalhes sobre como fazer a reidratação podem
ser vistos nas referências deste artigo().
A insuficiência cardíaca congestiva é
usualmente uma complicação da hiperidratação
(especialmente quando é feita infusão IV ou é
dada solução de reidratação padrão),
de anemia muito grave, de transfusão de sangue ou plasma,
ou de uma dieta com conteúdo muito alto de sódio.
Se ocorrer sinais de insuficiência cardíaca, toda
a ingestão oral e líquidos IV devem ser interrompidos
até que a insuficiência cardíaca melhore. Neste
caso está indicado o uso de um diurético IV, preferencialmente
furosemide (1mg/kg). Não dar digital, a menos que a insuficiência
cardíaca seja inequívoca e os níveis de potássio
plasmático sejam normais. Neste caso, pode-se dar 5mg/kg
de peso corporal de digoxina IV em dose única, ou oralmente,
se a preparação para administração IV
não estiver disponível.
Todas as crianças desnutridas têm deficiência
de potássio e de magnésio, que pode demorar duas ou
mais semanas para ser corrigida. O edema é parcialmente resultante
dessas deficiências. Há excesso de sódio corporal,
embora o sódio plasmático possa ser baixo. A administração
de altas quantidades de sódio pode levar a criança
a óbito. Potássio (2-4mmol/kg/dia) e magnésio
extra (0,3-0,6mmol/kg/dia) podem ser adicionados às refeições
durante a sua preparação. Fluidos com baixo teor de
sódio devem ser usados para a reidratação.
O edema nutricional existente não deve ser tratado com diurético.
Quase todas as crianças gravemente desnutridas têm
infecções bacterianas na ocasião da admissão
para tratamento hospitalar, e é correto presumir que, com
freqüêcia, a infecção é subclínica
e precisa ser urgentemente tratada. A administração
de antibiótico imediatamente após a admissão,
até que os resultados dos exames laboratoriais sejam conhecidos,
pode salvar a vida de muitas crianças. A antibioticoterapia
pode ser modificada posteriormente, se necessário, de acordo
com os resultados dos exames laboratoriais.
Todas as crianças gravemente desnutridas têm deficiências
de vitaminas e de minerais. Recomenda-se a administração
diária, por um mínimo de duas semanas, de suplemento
de multivitaminas (que não tenha ferro), ácido fólico
(5mg no primeiro dia e a partir daí 1mg/dia), zinco (2mg/kg/d)
e cobre (0,2mg/kg/dia). Quando a criança começar
a ganhar peso, o que geralmente ocorre no início da segunda
semana de tratamento, deve-se iniciar o sulfato ferroso (3mg de
Fe/kg/d). As crianças gravemente desnutridas estão
em alto risco de cegueira por deficiência de vitamina A. Esta
deve ser dada oralmente no primeiro dia (menores de 6 meses: 50.000UI;
6-12 meses: 100.000UI; crianças mais velhas: 200.000 UI).
Administrar a dose específica para a idade no segundo dia
e repetir no mínimo duas semanas depois.
Se há anemia muito grave (Hb < 4g/dl ou Hb entre
4 e 6g/dl) e/ou dificuldade respiratória, deve-se tratar
com papa de hemácias 10ml/kg lentamente, durante 3 horas,
e administrar furosemida 1mg/kg IV, no começo da transfusão.
Monitora-se a criança para insuficiência cardíaca,
pelo menos a cada 15 minutos.
A alimentação da criança deve iniciar
logo após a admissão, com refeições
pequenas, de baixa osmolaridade e baixo teor de lactose, oferecidas
a cada 2, 3 ou 4 horas, dia e noite. A via oral é a preferencial
e, se essa não for possível, dar por SNG. A meta nutricional
nesta fase é atingir a ingestão máxima de 100kcal/kg/dia
(o mínimo aceitável é de 80kcal/kg/dia) e 1-1,5g
proteína/kg/dia. Planeja-se para um total de 130ml/kg/d de
líquido (100ml/kg/dia se a criança tem edema importante).
Se a criança estiver sendo amamentada, o aleitamento materno
deve ser acompanhado de formulação láctea apropriada
para cobrir a cota calórica desejada. A via intravenosa é
utilizada excepcionalmente na desnutrição primária.
A quantidade ingerida pela criança deve ser rigorosamente
medida e registrada. Se a meta mínima não for atingida,
alimentá-la por SNG, oferecendo primeiro a alimentação
por via oral. A sonda deve ser retirada quando a criança
aceitar por via oral 3/4 do total da dieta diária, ou o volume
total em duas refeições consecutivas. Se a ingestão
nas próximas 24 horas seguintes não atingir o mínimo
de 80kcal/kg/dia, reintroduzir a sonda.
Para uma criança com bom apetite e sem edema, a fase de
estabilização, se feita cuidadosamente, pode ser completada
em dois ou três dias sem problemas.
O retorno do apetite é o sinal da entrada da criança
na fase de reabilitação, usualmente uma semana
depois da admissão. Nessa fase, é necessário
atingir uma ingestão muito alta, para permitir um ganho de
peso rápido, de >10g/kg/dia. Recomenda-se uma transição
gradual entre a fórmula usada na fase inicial e a fórmula
usada para crescimento rápido, para evitar o risco de insuficiência
cardíaca, que pode ocorrer quando a criança consome
grandes quantidades de alimento nesta fase inicial. A fórmula
inicial (75 kcal/100ml e 0,9g proteína/100ml) deve ser substituída
durante 48 horas, pelo mesmo volume de fórmula láctea
para o crescimento rápido (contendo 100kcal e 2,9g de proteína/100ml).
Mingaus modificados ou alimentos complementares modificados podem
ser usados, desde que forneçam quantidades comparáveis
de energia e de concentrações de proteína.
Após as 48 horas, se a criança estiver aceitando bem
a fórmula, deve-se aumentar 10ml em cada refeição
sucessiva até que a criança deixe resto. Geralmente
isso ocorre quando a ingestão atinge 200ml/kg/dia.
Depois da transição gradual, oferecer refeições
freqüentes, de acordo com a aceitação (quantidades
não limitadas), para atingir a meta nutricional de 150-220kcal/kg/dia
e 4-6g de proteína/kg/dia. Se a criança tem mais de
24 meses, podem ser dados alimentos da alimentação
da família, garantindo-se o conteúdo nutricional.
O progresso da reabilitação da criança deve
ser avaliado através do seu ganho ponderal. A insuficiência
cardíaca é improvável se a transição
gradual for seguida. Entretanto, por precaução, deve-se
monitorizar a presença de sinais precoces de insuficiência
cardíaca. Se houver sinais sugestivos de insuficiência
cardíaca, reduzir o volume dado para 100ml/kg/24 horas e,
então, lentamente aumentar para 115ml/kg/dia durante as 24
horas seguintes, 130ml/kg/dia pelas 48 horas seguintes, para depois
aumentar 10 ml em cada refeição, como descrito anteriormente.
Se intolerância à lactose com repercussões
para o crescimento da criança for diagnosticada, ela deve
ser tratada com fórmulas livres de lactose e modificadas
para atender as metas nutricionais adequadas à reabilitação.
Reintroduzir as refeições lácteas integrais
antes de dar alta do hospital, para determinar se a intolerância
foi resolvida.
Como na desnutrição grave há um retardo
de desenvolvimento mental e comportamental, é importante
prover estimulação essencial, recreação
e cuidado afetivo, reforçando o vínculo mãe-
criança. A mãe pode ser envolvida nas tarefas de cuidados
da criança e deve ser ensinada a fazer estimulação
essencial.
Durante a internação, deve-se preparar a criança
e sua mãe para a alta.Uma criança que tem 85%
-90% do peso para a altura ou o comprimento (equivalente a - 1DP)
pode ser considerada recuperada. A criança provavelmente
ainda tem um baixo peso para a idade por causa do nanismo. Boas
práticas de alimentação e estimulação
psicológica devem ser continuadas em casa. Mostrar aos pais
ou a quem cuida da criança como alimentar freqüentemente
e com alimentos densos em energia e nutrientes, e como fazer terapia
recreativa estruturada/estimulação essencial.
No acompanhamento, a criança deve ser pesada semanalmente.
Se ela não ganha ou se perde peso em duas semanas, deverá
ser referida ao hospital para reavaliação. Se a criança
evolui bem, a freqüência de comparecimento pode ser progressivamente
espaçada por uma vez a cada 15 dias durante três meses,
mensalmente durante três meses, a cada dois meses por seis
meses e depois semestralmente, até que a criança complete
três anos.
A reabilitação nutricional em ambulatório
e na comunidade é possível, embora seja mais longa.
A maior responsabilidade pelo sucesso do tratamento das crianças
nessas condições é dos pais. Portanto, é
essencial que eles recebam dos profissionais de saúde e agentes
de saúde orientação e apoio prático
adequados para cuidar das suas crianças().
De uma forma geral, a orientação para essas crianças
é semelhante à que é dada na preparação
para a alta e no acompanhamento da criança que foi hospitalizada.
As mães devem ser orientadas sobre como preparar as refeições
com conteúdo nutricional adequado e saber que a criança
precisa ser alimentada no mínimo 5 vezes por dia. Os alimentos
usuais da casa devem ser preparados de forma a conter aproximadamente
100kcal e 2-3g de proteína por 100g de alimento. Os suplementos
de vitamina, ferro e eletrólitos/minerais devem ser usados.
Um plano de acompanhamento deve ser seguido e uma rotina efetiva
de atendimento()
deve ser adotada, pelo menos até que a criança esteja
completamente recuperada. O apoio dos trabalhadores de saúde
da comunidade é essencial. Se a criança recebeu alta
precoce do hospital, a supervisão deve ser reforçada
no ambulatório e no domicílio, pois o seu risco de
recair e de morrer é muito alto. A criança deve ser
cuidadosamente avaliada antes da alta e algum suporte comunitário
deverá estar disponível para a prevenção
de recaída. O tratamento domiciliar, além de ser o
mais barato para o setor de saúde, pode ser também
o preferido pelas mães().
Possíveis alternativas para o controle da desnutrição
infantil
As tentativas para controlar a desnutrição como problema
de saúde pública nos países em desenvolvimento
começaram no período pós-guerra e consistiam
principalmente do aumento da produção de alimentos,
principalmente ricos em proteínas, e de programas de alimentação
e educação nutricional().
Os resultados foram desapontadores. Oferecida em larga escala, mas
de forma isolada de outros esforços de assistência
social e desenvolvimento, a assistência nutricional representava
um tratamento sintomático e não causal.
A efetiva prevenção da desnutrição
infantil calórico- protéica não pode ser um
objetivo isolado em relação a medidas gerais que visem
atender às necessidades básicas dos pobres().
Este entendimento tem desencadeado decisões internacionais
para a melhoria econômica das populações, através
de estratégias e programas para grupos de maior risco nutricional().
Embora a história demonstre que a solução da
pobreza é um objetivo muito ambicioso para ser atingido a
curto prazo, também se tem visto que intervenções
bem implementadas através do setor de saúde contribuem
para a redução da desnutrição infantil().
Lamentavelmente, devido ao reconhecimento da multicausalidade,
a desnutrição passou a ser, freqüentemente, preocupação
de muitos, mas ninguém a tem realmente assumido como responsabilidade().
Vários profissionais de saúde rotulam a desnutrição
infantil como sendo um problema social e adotam uma
atitude de descaso, de pouca importância ou derrotista face
à criança desnutrida ou em risco de desnutrição,
e de menosvalia em relação à promoção
da nutrição para a saúde da criança.
Atuam de forma desintegrada e muitas vezes se mantêm distanciados
dos constantes avanços do conhecimento para tentar controlar
a desnutrição(,,).
Outros, diante do fato de que atualmente há menos crianças
gravemente desnutridas, passam a minimizar a importância do
problema e até a ignorar a existência da epidemia silenciosa
de fome oculta e de desnutrição que se expressa através
do contingente de crianças com desnutrição
moderada e leve, menos evidente().
As estratégias usadas pelo setor de saúde na prevenção
da desnutrição estão claramente definidas desde
1978, quando, em Alma-Ata, foi adotado o enfoque de atenção
primária à saúde para todos no ano 2000(),
inclusive a promoção da nutrição adequada.
Segundo a OMS, são responsabilidades do setor de saúde,
na alimentação e nutrição em nível
nacional: a) definição e análise do problema
nutricional; b) promoção e participação
em estratégias e programas multissetoriais de alimentação
e nutrição; e c) implantação de um sistema
de vigilância alimentar e nutricional().
Em vários paises(),
e também no Brasil, os programas bem planejados de atenção
primária à saúde têm feito diferença,
particularmente se a informação educativa repassada
não é definida de forma vertical e é culturalmente
adequada e viável para as mães(,,).
A introdução do aspecto nutricional no atendimento
rotineiro à criança tem um papel fundamental na prevenção
da desnutrição. No que se refere às crianças
menores de três anos, estudos recentes indicam que o nanismo
nutricional começa na faixa etária que compreende
alguns meses após o nascimento até cerca de dois anos
de idade, coincidindo com a idade na qual alimentos complementares
ao leite materno são introduzidos na dieta. Assim sendo,
é possível que abordagens programáticas inovadoras
direcionadas à promoção da alimentação
complementar em menores de dois anos possam ter melhor custo-efetividade
do que aquelas dirigidas ao grupamento pré-escolar, e ter
um sucesso sem precedentes históricos na redução
da desnutrição na infância().
Guias alimentares para promover a alimentação complementar
da criança brasileira menor de dois anos, por iniciativa
da Organização Pan-Americana da Saúde (OPS/OMS)
e Ministério da Saúde (MS), foram elaborados recentemente,
com ampla participação de profissionais de saúde
de todo o país, e se encontram na fase final para impressão.
A essa deve-se seguir a sua distribuição aos profissionais
de saúde().
No Brasil, em concordância com a meta governamental de reduzir
em 50% a prevalência das desnutrições moderada
e grave até o ano 2000(),
assumida na Reunião da Cúpula Mundial em Favor da
Infância, o Ministério da Saúde vem fazendo
esforços para promover a nutrição e reduzir
a mortalidade infantil. Na tentativa de ampliar o acesso da população
a essas açõ |