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Introdução
A Hipoglicemia Hiperinsulinêmica Persistente da Infância
(HHPI), constitui importante etiologia a ser cogitada nos casos
de hipoglicemia persistente de difícil controle. Trata-se
de emergência médica que requer diagnóstico
etiológico preciso e representa um sério problema
terapêutico. O termo HHPI foi proposto por Glaser em 1989
e vem sendo utilizado nas publicações mais recentes,
em substituição à nesidioblastose e à
síndrome de dismaturidade das ilhotas pancreáticas,
para denominar as anormalidades pancreáticas associadas a
hipoglicemia e hiperinsulinismo().
A hipoglicemia associada à HHPI resulta da secreção
inapropriada de insulina ou hiperinsulinismo. Nos portadores dessa
doença, a hipoglicemia desencadeada pelo jejum é sempre
acompanhada de aumento da concentração plasmática
de insulina, em geral inapropriadamente alta em relação
à baixa concentração de glicose sangüínea
concomitante(,).
Alguns autores sugerem que essa doença está relacionada
mais a um aumento global da atividade endócrina funcional
do pâncreas que a um aumento do número de células
beta-pancreáticas(,).
A secreção de insulina depende da atividade dos canais
de potássio das células beta-pancreáticas,
que respondem às variações dos níveis
sangüíneos de glicose. Segundo estudos recentes, essa
atividade está alterada em portadores de HHPI(,).
A HHPI ocorre esporadicamente (1:40.000 nascidos vivos), mas tem
sido descrita uma prevalência maior em comunidades com alto
grau de consangüinidade().
Nesses casos, foi proposta uma herança autossômica
recessiva para explicá-la().
Apesar de rara, a grande freqüência de dano cerebral
e retardo mental, em conseqüência de hipoglicemias graves,
justifica a necessidade de diagnóstico etiológico
precoce e tratamento imediato das crianças com hipoglicemia
de difícil controle().
Relatamos a seguir esta doença em irmãos gêmeos
univitelinos, situação não descrita na literatura
de língua inglesa nos últimos 30 anos.
Relato dos Casos
Caso 1 - MGS, feminina, branca, primeira gemelar, filha
de pais saudáveis e consangüíneos, primos em
primeiro grau. Nasceu de parto cesariana devido à doença
hipertensiva da gravidez, após gestação de
35,7 semanas, com 1.590g e 39,5cm de comprimento. Apresentou desconforto
respiratório adaptativo, icterícia fisiológica
e hipoglicemia durante a primeira semana de vida, controlada com
infusão intravenosa de glicose, na dose de 4 a 6mg/kg/minuto.
Permaneceu no berçário por 1 mês visando a ganho
ponderal. Recebeu alta com 1.860 gramas, tendo permanecido bem em
casa por 2 meses.
Aos 3,5 meses de idade, foi atendida no Setor de Emergência
Pediátrica do Hospital Universitário da Universidade
de São Paulo, com história de apatia e episódios
caracterizados por movimentos repetitivos de membros e aparente
perda de consciência, há 2 dias. No exame físico
de admissão mostrava-se hidratada, hipoativa, com 3.880 gramas
e estatura de 49cm - ambos abaixo do percentil 2,5, segundo o National
Center of Health Statistics- NCHS().
Apresentou convulsão tônico-clônica durante o
período de observação, quando se constatou
glicemia de 16mg/dl. Recebeu glicose endovenosa (inicialmente 5,4
mg/kg/min) e foi internada para investigação etiológica
da hipoglicemia.
Durante a internação recebeu quantidades progressivamente
maiores de glicose (até 12mg/kg/minuto) mantendo, no entanto,
hipoglicemia e crises convulsivas. Os resultados dos exames realizados
para investigação desse quadro encontram-se na Tabela
1. O teste de infusão de glucagon (Tabela 2), realizado após
suspensão da infusão venosa de glicose, evidenciou
glicemia basal de 5 mg/dl com insulinemia concomitante de 39,5mU/ml.
A relação insulina/glicose foi de 7,9:1, para um máximo
esperado de 1:4, caracterizando hiperinsulinismo.
Tabela 1 -
Resultados de exames laboratoriais, ultra-sonografia e eletroencefalograma
Tabela 2 -
Resultados do teste de infusão de glucagon (caso 1)
No 40o dia de internação, foi transferida para a
Unidade de Endocrinologia do Instituto da Criança do Hospital
das Clínicas da FMUSP, onde, além de glicose, passou
a receber hormônio de crescimento (GH), na dose de 2U por
dia, via subcutânea. Houve diminuição da freqüência
dos episódios convulsivos, porém persistência
da hipoglicemia. Devido à forte suspeita de HHPI, indicou-se
inicialmente pancreatectomia subtotal, que não foi eficiente,
sendo então realizada nova pancreatectomia. Como houve persistência
da hipoglicemia, passou a fazer uso de diazóxido (10mg/kg/dia),
sem resposta adequada. Optou-se então pela administração
de prednisona (1mg/kg/dia) e dieta hipercalórica, o que resultou
em controle da glicemia e das crises convulsivas. Recebeu alta hospitalar,
após 44 dias, fazendo uso de dieta hipercalórica fracionada,
prednisona e fenobarbital (5mg/kg/dia).
Aos 2 anos e 10 meses de idade apresentava desenvolvimento neuro-psicomotor
adequado, sendo suspenso o uso de fenobarbital, sem intercorrências.
Aos 3 anos, após diminuição progressiva da
dose, foi suspensa a prednisona. Permaneceu assintomática
até os 3 anos e 7 meses de idade, quando apresentou hipoglicemia,
revertida com ingestão oral de açúcar.
No momento, com 4 anos e 9 meses, apresenta desenvolvimento pôndero-estatural
inadequado, com peso de 11.500 gramas, estatura: 89,3cm, ambos abaixo
do percentil 2,5 - NCHS().
Caso 2 - MGS, feminina, branca, segunda gemelar, nasceu
de parto cesariana, após gestação de 35,7 semanas,
indicada por doença hipertensiva específica da gravidez,
com 1.760g e estatura de 39cm. No período neonatal apresentou
desconforto respiratório adaptativo precoce e icterícia
fisiológica, sendo submetida à fototerapia até
o 8° dia de vida. Com 33 horas de vida, constatou-se hipoglicemia
(22 mg/dl) e recebeu 15mg/kg/min de glicose, por via endovenosa,
para manter glicemia normal. A infusão de glicose foi progressivamente
reduzida, até a suspensão no 6° dia de vida. Permaneceu
internada durante 20 dias, para ganho ponderal, e por ocasião
da alta hospitalar, pesava 1.850g.
Com 1 mês e 9 dias de idade, foi atendida em outro serviço
com relato de irritabilidade progressiva e recusa alimentar.
Constatou-se hipoglicemia (30mg/dl) corrigida inicialmente com glicose
endovenosa (6mg/kg/min), que foi descontinuada progressivamente,
até a retirada, após 6 dias, quando recebeu alta hospitalar,
sem investigação etiológica do quadro.
Permaneceu assintomática até os 3,5 meses de idade,
quando foi atendida no Setor de Emergência Pediátrica
do HU-USP, com história de crises convulsivas tônico-clônicas,
3 episódios nos últimos 8 dias. À entrada no
serviço, apresentou movimentos mastigatórios, hipertonia
e cianose perioral que cessaram espontaneamente. Entretanto, como
contatou-se que a glicemia, neste momento, era de 18mg/dl, recebeu
glicose endovenosa e foi internada para investigação.
O peso era de 4.600g e a estatura de 51cm, ambos abaixo do percentil
2,5-NCHS().
Apesar da infusão endovenosa de glicose, 10mg/kg/min, manteve
hipoglicemia e crises convulsivas, passando a receber 10mg/kg/dia
de hidrocortisona, sem resposta clínico-laboratorial adequada.
Os resultados dos exames realizados encontram-se na Tabela 1. O
teste de infusão de glucagon (Tabela 3), mostrou glicemia
basal de 14,5mg/dl com insulinemia concomitante de 112mU/ml. Esses
resultados mostraram relação insulina/glicose de 7,7:1
para um máximo esperado de 1:4, caracterizando hiperinsulinismo.
Tabela 3 -
Resultados do teste de infusão de glucagon (caso 2)
No 43º dia de internação foi transferida para
a Unidade de Endocrinologia do Instituto da Criança do Hospital
das Clínicas da FMUSP, mantendo hipoglicemia e convulsões.
Realizada pancreatectomia subtotal, que se mostrou insuficiente,
foi submetida a nova pancreatectomia. Devido à persistência
da hipoglicemia, passou a receber prednisona, na dose de 1mg/kg/dia.
Evoluiu clinicamente estável, tendo alta após 34 dias
com dieta fracionada, prednisona e fenobarbital. Nos 2 meses seguintes,
apresentou 3 episódios de hipoglicemia, necessitando receber
infusão endovenosa de glicose, além da prednisona.
Aos 2 anos e 11 meses de idade, foi suspenso o fenobarbital, e,
aos 3 anos e 5 meses, foi realizada a retirada progressiva da prednisona,
sem intercorrências. Aos 4 anos e 7 meses, apresentou crise
convulsiva relacionada à diminuição da ingesta
alimentar.
No momento, aos 4 anos e 9 meses de idade, encontra-se em seguimento
ambulatorial, com desenvolvimento neuropsicomotor adequado, porém
com déficit pôndero-estatural, peso de 11.600g e estatura:
89cm, ambos abaixo do percentil 2,5-NCHS().
Exame anatomopatológico: O exame do tecido pancreático
retirado das duas crianças revelou padrão de persistência
de ilhotas pancreáticas de primeira geração,
caracterizado por hiperplasia e hipertrofia das ilhotas de Langerhans,
com desorganização estrutural e variação
no tamanho das células, além de proliferação
de novas ilhotas a partir do epitélio ductular. As células
variavam muito de tamanho, algumas com formato bizarro, chegando
a ser seis vezes maiores que as outras.
Discussão
O termo Hipoglicemia Hiperinsulinêmica Persistente da Infância
tem sido utilizado atualmente, em substituição a nesidioblastose,
para abranger as alterações pancreáticas difusas
ou localizadas, associadas a hiperinsulinismo e hipoglicemia().
Em 1938, Laidlaw descreveu uma diferenciação anormal
das células das ilhotas pancreáticas, em pacientes
adultos com suspeita de adenoma pancreático().
Essas alterações celulares, denominadas nesidioblastose,
foram observadas também por outros autores em pacientes hipoglicêmicos(,).
Em 1976, Polak & Wiggesworth sugeriram que a hipoglicemia secundária
à nesidioblastose poderia ser importante causa de morte súbita
no período neonatal().
Este achado foi confirmado no mesmo ano por Cox et al., que encontraram
proliferação excessiva de células beta no pâncreas
de 36% de crianças autopsiadas por síndrome da morte
súbita().
Entretanto, Dahms demonstrou que essas mesmas alterações
estavam presentes no pâncreas de algumas crianças,
sabidamente normoglicêmicas, submetidas à autópsia().
Mais tarde, Gould()
e Rahier()
descreveram alterações celulares características
no pâncreas de crianças com hipoglicemia e hiperinsulinismo
persistente, ou seja, portadoras de HHPI. A histologia das ilhotas
pancreáticas desses pacientes era altamente variável,
compreendendo desorganização estrutural e variação
do tamanho celular, além de proliferação de
novas ilhotas. Os achados histopatológicos dos pâncreas
dos nossos pacientes, semelhantes aos descritos por Gould e Rahier,
associados aos dados clínico-laboratoriais (Tabelas 1, 2
e 3), confirmaram o diagnóstico de HHPI.
Atualmente, a hipótese mais aceita para a ocorrência
de HHPI é a presença de disfunção dos
canais de potássio (Katp) das células beta-pancreáticas,
que desempenham papel essencial na regulação da secreção
de insulina().
Nas células normais, os Katp respondem à variação
dos níveis sangüíneos de glicose, mantendo-se
abertos ou fechados, o que levará a mudanças no potencial
de ação da membrana, permitindo influxo celular de
cálcio. Esse fenômeno é pré-requisito
para a secreção de insulina().
Nos pacientes portadores de HHPI, a disfunção dos
canais de potássio das células beta-pancreáticas
permite que, independentemente dos níveis de glicose, eles
se fechem, resultando em despolarização da membrana
celular, influxo secundário de cálcio e secreção
inapropriada de insulina(,).
O canal de potássio consiste em um complexo de duas proteínas
- a SUR1 - um receptor com alta afinidade à sulfoniluréia
e a Kir 6.2, que se posiciona na região interna do canal,
mantendo seu alinhamento. Isoladamente nenhuma dessas proteínas
tem capacidade para atuar adequadamente como canal de potássio.
De acordo com o tipo de mutação sofrido pelos genes
reguladores dessas proteínas, a HHPI pode manifestar-se com
três fenótipos distintos. O primeiro, relacionado à
forma familiar, com truncamento da SUR1 e ausência de Katp.
Esses pacientes apresentam a forma mais grave da HHPI e, na maioria
das vezes, não respondem ou respondem mal a tratamento clínico(,,).
No segundo tipo, responsável pelos casos esporádicos,
há perda da função dos Katp, porém com
resposta parcial ao tratamento clínico, devido à neoformação
de canais de íons potássio. E o terceiro, casos de
instalação tardia e de pouca gravidade, pois os pacientes
possuem Katp e respondem a tratamento clínico2,6.
A maioria dos casos de HHPI são esporádicos, não
havendo evidências de predomínio em relação
ao sexo e, em geral, os pacientes acometidos são filhos de
pais saudáveis().
A forma familiar é comum em comunidades com alto grau de
consangüinidade - 1/2.500 nascidos vivos - não havendo
entretanto, descrição em gemelares().
A ocorrência familiar dessa condição, presente
como severa hipoglicemia neonatal persistente, foi primeiramente
descrita numa família greco-cipriota, por Woo et al., em
1976(),
e posteriormente por vários outros autores(,,).
Os genes reguladores do receptor de sulfoniluréias e dos
canais de potássio foram recentemente mapeados na região
11p15.1, no braço curto do cromossomo 11(,,,,).
Embora não tenha sido possível a realização
de estudo cromossômico em nossos pacientes, os vários
achados sugerem a forma familiar da HHPI, podendo inclusive tratar-se
de herança familiar autossômica recessiva, pois os
pais são saudáveis e consangüíneos. Além
disso, esses pacientes são gêmeos univitelinos. A persistência
da primeira geração de ilhotas pancreáticas,
observada ao exame anatomopatológico, confirma a possibilidade
de uma anormalidade embriogênica afetando o desenvolvimento
e o funcionamento das células betapancreáticas.
Os pacientes com HHPI são, na sua maioria, recém-nascidos
grandes para a idade gestacional, como conseqüência do
hiperinsulinismo, porém sem hepatomegalia significante. Apresentam
sintomas persistentes de hipoglicemia, incluindo convulsões
de difícil controle, já no período neonatal().
O fato de nossos pacientes serem pequenos para a idade gestacional
poderia justificar a presença de hipoglicemia transitória
no período neonatal, o que possivelmente dificultou o diagnóstico
de HHPI neste período da vida. A paciente 2 entretanto, apresentou
hipoglicemia acentuada (30 mg/dl) com 1 mês de idade, cuja
etiologia, certamente já poderia ser atribuída à
doença.
A relação insulina/glicose alterada e a manutenção
de níveis elevados de insulina na vigência de hipoglicemia
são parâmetros importantes no diagnóstico de
hiperinsulinismo. Dessa forma, quando a glicemia é menor
que 40mg/dl, a concentração de insulina plasmática
deve ser menor do que 5 e nunca maior que 10 mU/ml (9,37). Em lactentes
com hiperinsulinismo, entretanto, as concentrações
de insulina são, com freqüência, maiores que 10
mU/ml e a relação insulina (mU/ml) / glicose (mg/dl)
apresenta valores superiores a 1:4 ou mais(,).
Nossos pacientes apresentaram valores de insulina sempre muito elevados
e relação insulina/glicose de 7,9:1 e 7,7:1 respectivamente,
comprovando hiperinsulinismo (Tabelas 2 e 3).
O tratamento do hiperinsulinismo inclui desde agentes que suprimem
a secreção de insulina (diazóxido, somatostatina,
epinefrina, difenilhidantoína e inibidores dos canais de
cálcio), que antagonizam o seu efeito nos tecidos (glicocorticóides,
epinefrina, glucagon e hormônio de crescimento) até
agentes que destroem as células das ilhotas (aloxan, cirurgia).
Nenhum método isolado de tratamento mostrou-se uniformemente
bem sucedido(,,,).
Em nossos pacientes todas as drogas utilizadas no tratamento clínico
inicial não foram eficazes.
Uma vez fracassado o tratamento clínico, impõe-se
rapidamente o tratamento cirúrgico, objetivando-se evitar
seqüelas neurológicas pela hipoglicemia mantida. A dissecção
inicial deve ser levada até a artéria pancreatoduodenal,
a fim de que pelo menos 80% do pâncreas seja removido(,,).
Caso a cirurgia não seja bem sucedida indica-se um segundo
tratamento clínico, com diazóxido ou corticóide().
Em alguns pacientes esse procedimento é efetivo, porém
em outros continua tão ineficaz como antes da cirurgia, fato
observado nos casos relatados. Neste ponto, está indicada
pancreatectomia total, com preservação do duodeno
e ducto biliar comum, como única forma do controle da hipoglicemia().
As complicações da pancreatectomia total a longo prazo
não são raras, e incluem o diabetes insulino-dependente
e a necessidade de reposição de enzimas pancreáticas,
em alguns casos durante toda a vida(,).
Essas complicações não foram observadas em
nossos pacientes até o momento; entretanto, continuam apresentando
déficit pôndero-estatural importante, apesar das condições
de vida adequadas ao seu bom desenvolvimento.
O prognóstico dessa doença depende essencialmente
da detecção precoce, do diagnóstico correto
e da imediata instalação de terapêutica para
correção da hipoglicemia. Quando necessário,
o tratamento cirúrgico impõe-se precocemente.
Em conclusão, os pediatras devem estar atentos à
HHPI como causa de hipoglicemia de difícil controle no período
neonatal e mesmo num período mais tardio da vida, apesar
de incomum. Nosso relato chama a atenção para essa
possibilidade, especialmente quando há consangüinidade
entre os pais e acomete irmãos. Nesses casos, o aconselhamento
genético é importante para o estabelecimento de diagnóstico
neonatal dos casos afetados, evitando-se seqüelas permanentes.
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