Cisto de colédoco: experiência de 10 anos

Choledochal cyst: a 10-year experience
Luiz H. Pereira, Joaquim M. Bustorff-Silva, Lourenço Sbraggia-Neto, Daniel G. Bittencourt, Gabriel Hessel
J Pediatr (Rio J) 2000;76(2):143-8

Introdução

O cisto de colédoco (CC) é uma entidade rara, sendo mais freqüentemente observada em pacientes pediátricos do sexo feminino. A estimativa de incidência na população ocidental é de 1 / 100.000–150.000 nascidos vivos(1).

A etiologia da dilatação congênita do ducto biliar comum ainda não está completamente esclarecida. Há estudos que indicam tratar-se de um defeito estrutural congênito, enquanto outros indicam ser um processo adquirido. A explicação mais comumente aceita envolve o refluxo de enzimas pancreáticas, secundário a uma anomalia na junção do ducto pancreático principal (ducto de Wirsung) ao ducto biliar comum. Segundo alguns autores, tal anomalia anatômica pode ser encontrada em até 80% dos pacientes com cisto de colédoco(2-4).

A importância do diagnóstico do cisto de colédoco resulta das complicações inerentes à sua evolução: possibilidade de degeneração maligna, risco de obstrução biliar, colangite, rotura espontânea ou traumática do cisto, cirrose biliar progressiva e hipertensão portal(5).

Alonso-Lej et al., em 1959, propuseram o primeiro sistema de classificação para os cistos de colédoco(6). Posteriormente, Todani et al. elaboraram nova classificação, incluindo os pacientes com dilatação intra-hepática, sendo esta a mais utilizada atualmente(7).

Nas últimas décadas, o tratamento cirúrgico mais aceito tem sido a exérese do cisto com derivação bíleo-digestiva (hepático-enterostomia em Y de Roux ou hepáticoduodenostomia), em substituição à cisto-enterostomia. As cirurgias em que se mantém o cisto estão associadas com uma maior incidência de carcinoma de ducto biliar, além da possibilidade de desenvolvimento de complicações tardias como colangite e litíase(7-9).

Objetivos

O objetivo deste trabalho é avaliar os resultados do tratamento cirúrgico do cisto de colédoco em nosso serviço, bem como relatar seu modo de apresentação clínica e os exames complementares utilizados em seu diagnóstico.

Pacientes e Métodos

Foram analisados retrospectivamente os prontuários de 18 pacientes submetidos a tratamento cirúrgico de cisto de colédoco, na Disciplina de Cirurgia Pediátrica da Faculdade de Ciências Médicas - UNICAMP, entre 1987 e 1997. A idade dos pacientes ao diagnóstico variou de 20 dias a 13 anos (média de 3 anos e 8 meses).

Os cistos de colédoco foram classificados de acordo com o sistema proposto por Todani et al. (vide Tabela 1). Com exceção de um paciente portador de um CC tipo V, a cirurgia realizada consistiu da exérese do cisto e hepatico-jejunostomia em Y de Roux. O paciente com CC tipo V foi tratado através de uma hepatico-jejunostomia em Y de Roux, após ressecção de um segmento estenótico do ducto hepático comum. Um paciente havia sido submetido a uma cistoduodenostomia em outro serviço, mas permaneceu sintomático. A colecistectomia foi realizada em todos os pacientes. Foram realizadas biópsias hepáticas concomitantemente em 14 pacientes. Após a alta hospitalar os pacientes foram acompanhados através de consultas periódicas em nível ambulatorial.

Tabela 1 -
Classificação dos cistos de colédoco por Todani et al.

Resultados

Dos 18 pacientes que se submeteram a tratamento cirúrgico por CC, 03 eram do sexo masculino e 15 do sexo feminino, com uma proporção masculino/feminino de 1:5. A distribuição por idade ao diagnóstico pode ser observada na Tabela 2, sendo que 15 (83,4%) dos 18 pacientes se encontravam abaixo de 7 anos de idade.

Tabela 2 -
Distribuição por idade ao diagnóstico

O tempo do início dos sintomas até o diagnóstico variou de 4 dias a 7 anos, com média de 13,2 meses. O diagnóstico pré-natal não foi realizado em nenhum dos 18 pacientes. Um paciente foi encaminhado de outro serviço por recidiva após realização de uma cistoduodenostomia. Em relação à apresentação clínica inicial, o sintoma mais comumente observado foi icterícia, que ocorreu em quinze do total de dezoito pacientes (83,3%). Outros sinais e sintomas observados foram colúria, presente em onze pacientes (61,1%); acolia fecal, presente em dez pacientes (55,6%); dor abdominal, presente em nove pacientes (50%); vômitos, presente em oito pacientes (44,4%); hepatoesplenomegalia em quatro pacientes (22,2%) e massa abdominal palpável em dois pacientes (11,1%). Dois pacientes se apresentaram com colangite, dois com litíase biliar e um com pancreatite aguda. As patologias associadas encontradas foram cardiopatia congênita, má-rotação intestinal, pancreas divisum e criptorquidia, todos com freqüência igual a um.

O diagnóstico pôde ser confirmado pela ultra-sonografia (USG) de abdome em 14 dos 18 pacientes (77%). A tomografia axial computadorizada (TAC) de abdome foi realizada em 9 pacientes para complementação diagnóstica. A colangiopancreatografia endoscópica retrógrada (CPRE) foi realizada em 4 pacientes, evidenciando o CC e um ducto comum longo (maior que 15mm) em três. As indicações para realização da CPRE foram as seguintes: uma paciente de 4 anos com CC tipo II, que se apresentara com pancreatite aguda idiopática; achado ultra-sonográfico de litíase biliar e dilatação da via biliar em dois pacientes e um paciente encaminhado de outro serviço com cistoduodenostomia prévia.

A distribuição dos tipos de cisto de colédoco está apresentada na Tabela 3, sendo que nove pacientes apresentavam CC do tipo I, um do tipo II, sete do tipo IV e um do tipo V, de acordo com a classificação de Todani(7). Um caso de CC tipo I estava associado com atresia do colédoco terminal em uma criança com diagnóstico no período neonatal. No paciente com CC tipo V havia uma estenose segmentar de aproximadamente 5mm no ducto hepático comum com dilatação cística da árvore biliar intra-hepática à montante. Estes dois últimos pacientes apresentaram complicações letais no período pós-operatório. O primeiro foi a óbito no pós-operatório imediato por coagulação intra-vascular disseminada, e o segundo evoluiu para óbito no 3o pós-operatório por colangite e insuficiência hepática, configurando uma mortalidade operatória de 11%. Ambos apresentaram diagnóstico anatomopatológico de cirrose biliar nas biópsias do fígado.

Tabela 3 -
Distribuição por idade ao diagnóstico

O grau de comprometimento hepático observado, nos casos submetidos a biópsia do fígado, foi bastante variável: desde mínima reação portal a graus variados de fibrose portal e cirrose biliar. Um paciente perdeu seguimento logo após o primeiro retorno. Dos quinze pacientes seguidos por um período de 05 meses a 9 anos e 8 meses (média de 3 anos), treze (86%) estavam bem até a última consulta, com provas de função hepática e enzimas normais e sem história de colangites. Dois pacientes evoluíram com pancreatite crônica, um dos quais apresentara também colangite e retardo importante do desenvolvimento; o outro apresentava pancreas divisum. Este último, inicialmente submetido a uma cistoduodenoanastomose em outro serviço, evoluiu com recorrência dos sintomas (dor abdominal e colangite) tendo sido re-operado com exérese do cisto e hepaticojejunostomia em Y de Roux no nosso hospital (Tabela 4).

Tabela 4 -
Resultados do tratamento cirúrgico nos 18 pacientes com CC

Discussão

Em 1959, Alonzo-Lej apresentou dois casos de CC e analisou outros 94 pacientes descritos na literatura até a época, propondo a primeira classificação para esta anomalia, que incluía apenas as dilatações extra-hepáticas(6). Com o desenvolvimento e melhoria dos meios diagnósticos, autores japoneses acrescentaram dois novos tipos referentes aos pacientes que apresentavam dilatações císticas intra-hepáticas(7).

O CC é considerado uma patologia rara, sendo encontrada mais freqüentemente em pacientes pediátricos do sexo feminino, com maior incidência na população oriental. A estimativa de incidência na população ocidental é de 1/100.000 a 1/150.000 nascidos vivos(1). Na presente casuística 83,4% dos pacientes apresentaram idade inferior a sete anos, ocorrendo predomínio do sexo feminino (proporção masculino/feminino igual a 1:5).

Muitas teorias têm sido propostas para explicar a origem do CC. A mais aceita atualmente atribui esta doença a uma anomalia da junção bileo-pancreática, resultando em um canal comum longo, que permitiria um refluxo do suco pancreático para a árvore biliar. A permanência do suco pancreático com ativação enzimática e ação destas enzimas sobre o epitélio da árvore biliar seriam responsáveis pela reação inflamatória que culminaria com a degeneração da parede do ducto biliar. Tal anomalia anatômica pode ser encontrada em até 80% dos pacientes(2-4). O refluxo do suco pancreático para a árvore biliar tem sido demonstrado por meio de dosagem da atividade da amilase no conteúdo do CC(10) e manometria biliar intra-operatória(4). A longo prazo, a reação inflamatória mantida pelo refluxo do suco pancreático seria um dos fatores na gênese do carcinoma do ducto biliar(4). A anomalia da junção bileo-pancreática pode ser demonstrada em três de quatro pacientes nos quais a CPRE foi realizada.

A clássica tríade diagnóstica do CC, dor abdominal, icterícia e massa palpável, não foi observada em nossa casuística. A apresentação clínica mais freqüentemente observada foi icterícia (83%), com padrão obstrutivo (acolia fecal em 55% e colúria em 61% dos pacientes), sendo menos comumente encontrado dor abdominal (50%) e vômitos (44%). Massa abdominal palpável ocorreu em apenas 11% dos casos. Esses resultados são semelhantes aos encontrados na literatura(11,12).

O diagnóstico pré-natal do CC é possível por meio de exame ultra-sonográfico minucioso e tem sido relatado recentemente(10,12). O diagnóstico pós-natal pode ser confirmado por meio de USG abdominal, TAC de abdome, cintilografia hepatobiliar com Tecnécio-99m, CPRE e colangiografia transparietohepática (CTH)(13). A USG deve ser realizada em toda criança com suspeita clínica, principalmente com icterícia obstrutiva. Em nossa casuística o USG foi capaz de diagnosticar adequadamente o CC em 77% dos pacientes. A TAC de abdome é considerada mais acurada para avaliar a árvore biliar intra-hepática e o pâncreas(13). Não temos utilizado a cintilografia hepatobiliar ou a CTH, mas acreditamos que possam ser utilizadas em casos selecionados. A CPRE permite a vizualização da árvore biliar e ducto pancreático, bem como de anomalias presentes, podendo, no entanto, causar complicações como colangite(14). Embora alguns autores considerem indispensável sua realização pré-operatória, por se tratar de exame invasivo, reservamos a CPRE para pacientes selecionados. Em nossa casuística foi realizada em quatro pacientes: dois com litíase biliar concomitante, um paciente que se apresentou com pancreatite aguda, e a USG e a CT não foram capazes de estabelecer um diagnóstico, e um paciente encaminhado de outro serviço com cistoduodenostomia prévia. A colangiografia intra-operatória foi realizada em 8 paciente para avaliação das condições anatômicas.

Os cistos de colédoco classificados como tipos I e IV foram os mais freqüentemente encontrados em respectivamente 9(50%) e 7(38%) pacientes. Tivemos apenas um paciente com CC tipo V (Doença de Caroli) e um paciente com tipo II, de forma semelhante à descrita na literatura(11,12,14).

As lesões hepáticas encontradas nas biópsias realizadas variaram de mínima reação a fibrose portal. Os pacientes com maior tempo de evolução da doença têm maior incidência de lesões hepáticas, provavelmente como resultado de longos períodos de estase biliar e colangites(12). Tem-se demonstrado regressão da fibrose hepática com normalização da função hepática, quando o diagnóstico e o tratamento são precoces(15). Na presente casuística observamos também graus variados de lesão do espaço porta, com 4 casos de cirrose biliar, provavelmente devidos ao longo período de evolução até o diagnóstico (média de 13 meses).

Várias tem sido as cirurgias propostas para o tratamento do CC. No passado os tipos I, II, IV eram tratados por cistoenterostomias, resultando em índices insatisfatórios de colangite recorrente e estenoses. Além disso, a manutenção da mucosa do cisto com inflamação crônica parece estar relacionada ao desenvolvimento do carcinoma do ducto biliar(19). Utilizando esta técnica, Chijiiwa e Koga observaram 80% de colangite e litíase biliar pós-operatória, sendo que a reoperação foi necessária em 70% dos pacientes(11). A presente casuística inclui um paciente inicialmente atendido em outro serviço onde foi realizada uma cistoduodenostomia, no qual foi necessária uma reoperação por colangite e dor abdominal recorrentes.

O procedimento cirúrgico preconizado atualmente consiste na remoção completa do cisto, seguido de uma derivação bileo-digestiva, seja ela uma hepaticoduodenoanastomose, uma hepaticojejunostomia em Y de Roux ou, ainda, uma interposição de um segmento de jejuno com uma válvula entre ducto hepático e o duodeno(4,11-16). Todani et al. não encontraram diferença significativa dos índices de estenose e colangites entre os pacientes que se submeteram a hepaticoduodenostomia ou a hepaticojejunostomia em Y de Roux(17). Alguns autores têm relatado maiores índices de complicações com a derivação em Y de Roux, tais como úlcera péptica, formação de bridas, esteatorréia e deiscência da anastomose(16-18). Na presente casuística todos os pacientes foram submetidos a hepaticojejunostomia em Y de Roux, não tendo sido observadas nenhuma das complicações citadas acima, exceto esteatorréia, que estava presente em dois pacientes com pancreatite crônica. Dois pacientes com cirrose hepática prévia evoluíram para óbito no período pós-operatório por complicações relacionadas a deterioração da função hepática. Dos 15 pacientes que puderam ser seguidos a longo prazo, 13(86%) estavam bem, sem colangite e com normalização da função hepática.

Em conclusão, os dados da presente casuística permitem afirmar que o tratamento cirúrgico do CC com exérese do cisto mais hepaticojejunostomia em Y de Roux apresenta resultados satisfatórios em 86% dos pacientes, reservando pior prognóstico para os pacientes que se apresentam para tratamento cirúrgico com deterioração importante da função hepática ao diagnóstico.